Diário da Aula de Filosofia

 
 
 
«A indiferença cresce. Em lado algum o fenómeno é tão visível como no ensino, onde, em poucos anos, com a velocidade de um relâmpago, o prestígio e a autoridade dos docentes desapareceram  por completo. Hoje o discurso do Mestre encontra-se banalizado, dessacralizado, em pé de igualdade com o dos media, e o ensino é uma máquina neutralizada pela apatia escolar, feita de atenção dispersa e de cepticismo desenvolto ante o saber. Grande desapontamento dos Mestres. É esta desafecção do saber que é significativa, muito mais do que o tédio, de resto variável dos alunos dos liceus. Assim, o liceu é menos parecido com uma caserna do que com um deserto (…) onde os jovens vegetam sem grande motivação ou interesse. Portanto, torna-se necessário inovar a todo o custo: sempre mais liberalismo, participação, investigação pedagógica e o escândalo está nisso mesmo, porque quanto mais a escola se põe a ouvir os alunos, mais estes desabitam sem ruído nem convulsões esse lugar vazio. Deste modo, as greves do pós-68 desapareceram, a contestação extinguiu-se, o liceu é um corpo mumificado e os docentes um corpo fatigado incapaz de lhe devolver a vida.»
 
Gilles Lipovetski, A Era do Vazio, Relógio d’Água
 
 
 
 
 
 
 
DIÁRIO DA AULA DE FILOSOFIA
 
 
 
 
Como não poderia deixar de ser, na passada sexta-feira tivemos outra aula de filosofia. Demos início à aula com a leitura da aula (ante)passada, lida e realizada pelo aluno J… M…, e de seguida escrevemos o sumário. Continu(e)mos a dar KANT. E fal(e)mos que esse senhor era empirista, que tinha como objectivo a questão que é "O que posso fazer?" . KANT que era um filósofo tão rigoroso, "porque faria ele essa questão?" era uma questão que a sectora propunha. Sabia-se que era com isso que ele pretendia determinar as possibilidades, os fundamentos da razão e quais os seus limites. A sua intenção com tudo isto era explicar-nos que a metafísica era decadente. "Será que a relação pode explicar tudo?", era uma outra questão que a sectora nos propunha, e a resposta seria que sim, que podia, coisa que toda a gente disse que não podia. Fale-mos também sobre a GNOSOLOGIA, que tem como definição filosófica  a reflexão sobre o conhecimento e é uma palavra que deriva do grego e que iríamos estudar no 11º ano. "O que é o Optimismo Gnosológico?", é a crença exagerada no poder da razão, colocando-nos sobre a perspectiva de KANT, sendo ele no início contra, mas  mais tarde mudou de ideias porque investigou. Tivemos uma interrupção de uma senhora que bateu à porta para nos dar informações da iniciativa de uma turma, para saber se alguém estaria interessado em adoptar uma cadelinha que vagueia pela escola. A sectora falou-nos que também tinha adoptado um cão caniche e que ele se dava muitíssimo bem com os  seus outros dois gatos, só tinha um mal que era fazer pii pii nos seus tapetes persa do apartamento, mas logo de seguida retom(e)mos a aula. Íamos a iniciar novamente KANT e tivemos outra interrupção.
Descartes revelou que tinha uma enorme descrença nos sentidos. Ele pensava que, por exemplo, um amigo que nos engane uma vez, como é que iríamos saber se não nos vai enganar novamente? DESCARTES fala também da Razão, sobre o raciocínio, por exemplo, em coisas que não tem fundamento mas em que estamos sempre a raciocinar. Esse senhor porque não tinha nada que fazer questionava-se. Sabe-se que a única verdade em filosofia é o pensamento, ou seja, em tudo o que nós pensamos, e outra conclusão é que alguém que não existe não pode raciocinar sendo isso uma prova da existência, por exemplo se comem é porque existem, se falam é porque existem, mesmo que haja alguma dúvida ou que se imagine que se tem o corpo feito de vidro, referiu a sectora o exemplo de um maluquinho.  DESCARTES era um filósofo francês que viveu cerca de um século antes de KANT, e ambos não têm nada a ver um com o outro.
KANT investigou a metafísica e a moral. Mud(e)mos de seguida a conversa e fal(e)mos sobre a Grécia. A sectora mencionou que nunca tinha ido a esse país mas gostava de nos levar lá, só que teríamos de organizar medidas e ideias para conseguirmos angariar dinheiro para a viagem, visto que teríamos de ir de avião e a viagem ficaria cara. A sectora falou-nos de uma visita de estudo que tinha organizado a Marrocos enquanto dava aulas no Alentejo, mas que infelizmente não se pôde concretizar por vários motivos inclusive por ser excessivamente cara, então organizou outra visita de estudo a Granada, e falou-nos de alguns pontos turísticos que fez pelos arredores de Espanha. Novamente se mudou de conversa, e começou-se a falar de mulheres, no dia nacional da  mulher, até que a sectora disse que não concordava com isso nem com os direitos das  mulheres, pois acredita que isso é uma discriminação e falta de civismo, face aos homens. Retomm(e)mos o assunto de KANT, e falamos do que é a razão pura?, se tentássemos desvendar a partir do nome diríamos que é por ser  bela , mas essa não é a resposta, razão pura é investigar, e podemos utilizá-la no nosso dia a dia. Quando investiga o conhecimento designa-se pura teórica, quando investiga a acção é pura prática. Esse senhor dá uma certa importância ao empirismo, pois ele considera esse assunto e atribui-lhe  valor, por exemplo um indivíduo que não consiga ver e seja cego vai ter falta de sentido da visão e por isso já não vai ter tanto valor. A sectora propôs-nos a seguinte pergunta: "Como é que iríamos explicar a cor vermelha a um cego?"  Ninguém sabia como haveira de responder, pois era uma pergunta logística. Também disse que tinha conhecido um indivíduo que é cego e que por isso desenvolveu melhor o sentido da audição através da música. É a partir da sensibilidade que iremos captar as sensações que estão organizadas na mente de cada um de nós, através do espaço como por exemplo uma visita que tenhamos realizado posteriormente ao Porto, e através do tempo por exemplo um acontecimento ou facto que nos tenha marcado. O resultado da sensibilidade é o produto e KANT atribui-lhe o n ome de  intuição, ou seja, é o que esse consegue captar através dos sentidos, o fenómeno que é uma palavra vinda da Grécia  que tem o mesmo significado e que é aquilo que se vê, e o conhecimento empírico que se obtém através da experiência.   Todos os dias nós utilizamos os nossos sentidos para o conhecimento do mundo, mas nem toda a gente tem sensibilidade. O conhecimento não se limita a conhecer a experiência, conhecimento e experiência são duas coisas diferentes. A sensibilidade estende-se para o mundo exterior. Por fim fal(e)mos que o entendimento era o 2º nível ou instância da razão e que (se) interagiu com a sensibilidade.  O Entendimento pensa nos dados que são obtidos pela sensibilidade, e todo o mundo usa disso se tiver controlo completo do uso do seu corpo. Podemos não pensar da mesma maneira como KANT  se manifesta, mas no fim de contas somos assim também. Acabou assim a aula, correu normalmente bem apesar de uns certos contratempos.
 
 
(Relatório de uma aula de filosofia do 10º ano de escolaridade elaborado por um aluno e lido perante a turma. Texto integral; a vermelho, as principais incorrecções.)
 
O objectivo da publicação deste texto, escrito por um aluno, depois de assistir à aula e fazer as anotações necessárias,  não é ridicularizar ou diminuir o jovem que o produziu mas tornar patente aquilo que o texto de Gilles Lipovetski apelida de  "apatia escolar", "atenção dispersa" e "cepticismo desenvolto ante o saber".
De facto, as incorrecções do texto, as deturpações quanto ao conteúdo daquilo que foi leccionado, as alusões a questões marginais, tais como o episódio dos gatos ou da viagem de estudo falhada a Marrocos, a própria incorrecção linguística em que o aluno escreve como fala, de acordo com a linguagem em uso na região, mostram, exactamente, as consequências daquilo que Lipovetski considera um escândalo a saber, " (…)torna-se necessário inovar a todo o custo: sempre mais liberalismo, participação, investigação pedagógica e o escândalo está nisso mesmo, porque quanto mais a escola se põe a ouvir os alunos, mais estes desabitam sem ruído nem convulsões esse lugar vazio."
 
Inovar a todo o custo, ou seja, é necessário ensinar Kant a jovens de 15 anos? Então vamos começar pelo início, usar exemplos do quotidiano, transformar a linguagem de um dos filósofos mais difíceis de todos os tempos num discurso acessível… resultado: dizemos que Kant se abriu ao empirismo após a leitura de David Hume? O aluno retém a palavra empirismo, esquece o resto e escreve que Kant é um filósofo empirista! Dizemos que Kant iniciou o seu percurso filosófico perguntando "Que posso saber?" e o aluno, apático ou com a sua atenção dispersa, substitui saber por fazer e nem repara que a seguir comete contradições! Falamos em Gnoseologia, vincando a etimologia da palavra, ( aliás escrita adequadamente no quadro) e o aluno engole uma letra, chama-lhe Gnosologia e quando lê,  engasga-se sucessivas vezes pronunciando uma palavra diferente. Dizemos à turma que o tema proposto pelo manual «os direitos das mulheres» será substituído por outro, visto que tratar tal tema ou mesmo celebrar o dia internacional das mulheres pode ter o sentido da discriminação, e o aluno declara sem hesitação que a sectora não concorda com os direitos das  mulheres!
Apelámos à participação do aluno, questionando-o constantemente para que ele torne seu o produto que poderia decorar no manual? O resultado é ele subverter a questão dizendo, por exemplo que Descartes porque não tinha nada que fazer questionava-se! Ou então referimos o próprio exemplo cartesiano sobre a dificuldade de saber quem  somos exactamente, ou o que é o nosso corpo, e que podemos até supor que somos feitos de vidro e o aluno diz que a sectora referiu o exemplo de um maluquinho! Continuamos a insistir na participação e dizemos à turma que, diariamente, um aluno fará o resumo da aula que será lido no início da seguinte? O aluno toma notas, mas como a atenção nem sempre é contínua e as dúvidas nascem quando começa a redigir o texto ( ou não chegam a  nascer. porque ele pensa que o que ouviu corresponde ao que foi dito) não se dá ao trabalho de investigar, actividade para que foi estimulado desde o início do ano!
 
Apesar disso, e visto tratar-se do relato feito por um aluno de 15 anos, cujas notas são abaixo da média, se por média entendermos classificações abaixo de 12/13,  cuja "atenção dispersa" e "apatia" nas aulas são factos notórios, o trabalho redigido é notável, já que, salvo alguns erros gramaticais e ortográficos,  algumas incorrecções científicas e a ingenuidade de relatar questões marginais parece, no final, que o modo como Kant aborda a questão gnoseológica foi, na sua essência, assimilado. 
O que pretendo afirmar com a transcrição deste texto do meu aluno, que muito respeito,  é que o sistema de ensino em vigor embota a mente de jovens como este que, tendo à mão apenas os apontamentos que pôde urdir no decurso dos 90 minutos que a aula durou, ficando entregue a si mesmo na redacção posterior do texto, cometeu deslizes, tentando desesperadamente estar à altura, pois sabia que na aula seguinte teria que expor-se perante a turma e a professora e fazer o relato daquilo que ouviu. E contudo, apesar dos deslizes, apesar das incongruências e ingenuidades patentes, o certo é que captou a essência do pensamento daquele que é um dos filósofos mais difíceis de todos os tempos! Pelo meu lado, e enquanto professora,  basta-me um trabalho de revisão, em que expurgarei os erros e o levarei a construir um texto rigoroso e correcto e o jovem poderá orgulhar-se doravante do seu Diário  da Aula de Filsofia! E com esta pedagogia, difícil, morosa e quase sempre à revelia dos restantes métodos usados pelos meus pares, não só demonstro que mesmo um aluno relativamente "apático" com a "atenção dispersa" ou francamente imbuído de "cepticismo desenvolto ante o saber" pode ser de tal modo trabalhado que acabe não só dominando o rigor da linguagem de um filósofo como Kant, mas até sentir nisso um enorme prazer! E, neste momento em que o ano lectivo está prestes a teminar, eu sinto que nove meses de profundo e intenso  trabalho  de desbravadora de mentes (que é, afinal, a minha profissão) deram à luz este fruto, imaturo ainda, cheio de  escória e balbuciante como é qualquer recém-nascido, mas apto a caminhar pois competir-me-á fazê-lo crescer quando o próximo ano nos levar a concluir a viagem.
 
 
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