O pacto de morte de Heinrich von Kleist

                             

 

 

 

 

 

                                     O pacto de morte de Heinrich von Kleist

 

 

 

          Todas as características que temos vindo a apontar como fazendo parte do universo do homem trágico lá estão, levadas ao rubro, impressas na fronte deste homem marcado por uma espécie de fatalismo irremissível: a profunda solidão face ao tempo e ao espaço, a ausência total de afectos, o excesso, a predestinação do labirinto e do abismo.

       Se Hölderlin teve a solicitude da família e dos amigos, tocados pelo nobreza e pela fragilidade da sua postura humana, Kleist não conhece o lenitivo do amor que aplacou, desse outro poeta, durante algum tempo o miasma da embriaguez devoradora. Kleist consome-se em si mesmo e acaba numa procura desenfreada pelo companheiro que com ele queira morrer.

       Como é estranho este desejo extremo!

       O homem, repetimos, procura a alma-cúmplice: é esse o seu destino na existência. Quando a encontra, celebra a festa e apazigua-se-lhe o desejo, na contemplação de si no rosto do ser amado. Se não a encontra, é um ser precocemente fanado e murcho, bilioso e azedo, entregue aos soporíferos e à rotina. E é por causa desse desencontro, que a maioria dos seres humanos se afunda num ressentimento de que nem tão pouco toma consciência, mas que se derrama pelo mundo como uma onda imperceptível de deformidade.

       Kleist não é, porém, um ser da vida, não cabe nas exíguas proporções deste mundo que reclama, continuamente, a medida e expulsa de si todos os entes vocacionados para a prática do excesso. E então, é na morte que ele se precipita.

       Mas, ser incompleto que é, desconhecedor do prazer que a fruição amorosa dá aos que sabem apropriar-se dela, abdica desse privilégio mortal e procura, não um ser que se lhe una na vida, mas que o acompanhe na obra suprema da destruição final. É desta forma, por certo tida como monstruosa para a comum compreensão, que Kleist encontra o equilíbrio interior e se deleita consigo mesmo na plenitude do fim.

       Essa superabundância feliz, descoberta nos momentos únicos em que a tragédia se consuma, possui um sentido misterioso e traz a marca assombrosa de um ser incapaz de assumir a fealdade cruenta da vida.

       Como todos os artistas, Kleist é o paladino da beleza, está vocacionado para a grandiosidade e para os altos voos do infinito, Os seus contrastes anímicos são, no entanto, alterosos, e a sua vida interior está plena de ecos dissonantes. O caos agita-se nele, os excessos de toda a ordem fervilham, a comunicação com o resto do mundo é a suprema impossibilidade deste ser fora do comum. O desequilíbrio, a desproporção, a permanente situação de conflito que ele vive consigo próprio e com o mundo exterior, funcionam como flagelo no espírito deste homem vocacionado para as alturas.

       Exigente e duro em relação às suas criações, austero até à severidade em tudo o que abranja os domínios éticos, Kleist acaba por sentir a impossibilidade de, permanecendo vivo, preservar a beleza. É que a beleza não se concilia facilmente com esses desníveis alterosos, com essa permanente dissidência do eu fragmentado no seu âmago. É necessária a reconciliação, episódica, sem dúvida, mas absolutamente indispensável ao equilíbrio que permite o nascimento da obra de arte. E Kleist é o eterno foragido do paraíso, o ser demoníaco –  segundo a óptica de Zweig, que também nos norteia – impotente para apaziguar as potestades satânicas que lhe pululam no íntimo. Por isso, desprende-se do contacto com os homens, mura-se na incomunicabilidade e decide reabilitar-se na morte.

       De facto, esse temperamento hostil à vida,  mediana e auto-complacente, permanecendo vivo deveria, tarde ou cedo, pactuar. E o corpo iria definhando, o fulgor derreter-se-lhe-ia na solidão, o brilho do olhar apagar-se-ia e o artista acabaria transformado numa sombra repugnante e feia.

       Meditemos agora no conceito de fealdade, desentranhemo-lo e absorvamo-lo. Vemo-lo nos traços moles e gastos de certos rostos, na flacidez doentia de certos membros, na opacidade nua das moradas dos homens, essas construções repelentes e bárbaras, fuliginosas e torpes.

       A fealdade resulta da frustração de viver, do desencontro, da solidão, consentida ou alienada, desta existência mecanizada e vã a que os humanos se entregam e onde não há lugar para o diálogo, para a fruição, para o prazer. A fealdade é um mácula que promana do mais íntimo de cada ser, que pode subsistir, ignorada e imperceptível, enquanto a juventude doura a face e os membros, mas que se vai derramando pela pele, contraindo os traços, afrouxando os músculos, até se converter numa máscara hedionda.

       A fealdade é o sinal inequívoco de um mundo onde o homem se encontra descentrado, alienado, emparedado em si próprio e despeitado. A fealdade é a filha dilecta do ressentimento e do desejo recôndito de vingança. É a consequência da frustração amorosa que torna inútil o corpo e lhe amortece os fluidos. Surge da acomodação do homem medíocre ao padrão cultural, da postura de compromisso face aos tabus e está na origem de todos os conflitos existenciais, de toda a náusea que, como um manto de imundície, impregna a humanidade. A fealdade é um vírus, uma doença profundamente contagiosa, uma anestesia psico-física de terríveis consequências. O homem feio – e note-se que não está em causa o equilíbrio dos traços, mas um fluido que, vindo de dentro, aos poucos sobe à epiderme em horríveis contracções – é, pela sua natureza, um ser temível porque se torna arrogante, vingativo e déspota. Os seus alvos são, precisamente, todos aqueles que resistem à corrupção libertina e ostentam, galhardamente, a coroa radiante da beleza; o humano feio, vil até à baixeza da sua fealdade, não hesitará em quebrar essa coroa e espetá-la na cabeça do que ousou permanecer coroado e triunfante.

       Ora Kleist bem viu que o seu destino de solitário, incapaz de amar, impotente para atrair a si os benefícios de qualquer afecto humano, o levaria irremissivelmente à devassidão da fealdade. Na acutilância dos seus sentidos despertos ele percebeu a impossibilidade de encontrar, na vida, o espírito-irmão capaz de lhe retirar da fronte o sinal demoníaco. Mas é vocação humana (já foi dito) procurar na terra aquele que completará a natureza imperfeita de cada indivíduo. É um jogo, uma partida de xadrez apaixonante e são bem poucos os vencedores, aqueles que podem rever-se no lago tranquilo de um olhar irmão.

       Incapaz, por natureza de encontrar aquela (ou aquele) que lhe devolveria a sua própria forma reconciliada e bela, Kleist empenha-se na tarefa satânica de descobrir o companheiro da aventura da morte.

       Não quis morrer sozinho, este ser absolutamente solitário na vida e entregou-se à morte, para regenerar a beleza e manter intacta a imagem poderosa da sua vitalidade. Nesse acto violento, aparentemente absurdo e, no entanto, pleno de coerência, Kleist reencontra-se, equilibra-se, ao mesmo tempo que se subtrai à profanação tremenda da fealdade.

       É esta a mensagem que nos devolve o olhar fulgurante do retrato de Kleist: não há qualquer doçura nos seus traços, nenhuma propensão para a alegria fácil se lhe desprende da boca cerrada – os olhos, porém, enviesados e fulgurantes, traem a avidez inominável do seu ser.

       Foi preciso que Kleist assumisse a morte e se lhe entregasse, para que os fluidos aprisionados vazassem, finalmente benéficos, e as cordas, tensas até ao limite, se suavizassem, em harmoniosas e doces cadências. E toda a beleza lhe foi finalmente concedida, nesse dia sem paralelo em que, feliz e exuberante, procede à arrumação metódica dos seus trabalhos, se despede da vida carcereira e parte com Henriette Vogel, a companheira finalmente encontrada, também ela condenada, pela fulminação da doença, a uma vida consumida em degenerescência abjecta, para a suprema aventura libertária.

       É claro que há um eco de horror na invocação destes dois tiros, e a humanidade complacente que há em nós, o instinto animal que nos comanda, apesar da consciência, inteiriçam-se e arrepiam-se involuntariamente. Somos, porém, meras testemunhas e assumimos indevidamente a prerrogativa de juízes: a tragédia não residiu, convém frisá-lo uma vez mais, nessa morte voluntária e sangrenta, afinal cronologicamente diminuta, ante a dimensão temporal de trinta e quatro anos de vida. A tragédia antecedeu esse desfecho, finalmente luminoso, derramou-se na luta gigantesca de um ser irremissivelmente dividido, que necessitava convergir numa reconciliação, qualquer que ela fosse.

       A morte de Kleist foi, desse modo, a sua única oportunidade de se regenerar na beleza e de se guindar ao reino dos heróis e dos imortais.

       Regressando ao início, reafirmaremos que o valor de Kleist reside, fundamentalmente, nessa morte assumida e executada, onde ele se liberta da fealdade abjecta de uma hipocondria inexorável; pela sua obra perpassamos sem desfrutarmos dessa mesma grandeza que o gesto final anuncia mas que, imediatamente, se dilui no silêncio injusto da História.

 

 

"A ideia de que, nesta Terra, nada sabemos da verdade, absolutamente nada… abalou-me no mais íntimo da minha alma – o meu único objectivo, o meu objectivo supremo, caiu por terra; não resta nada." (…)"não há lugar para mim nesta Terra".  (Excerto da carta de Kleist à irmã, Ulrike, antes do suicídio.)

 

 

 

           

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