A demência lúcida do trágico Nietzsche

          

 

                                                                                                        

 

                                                                                            Werner Horvath, Friedrich Nietzsche – von den drei Verwandlungen

                                                                                                                                                                                                     (Das três metamorfoses)

 

           

 

                                                          A demência lúcida do trágico Nietzsche

 

 

         A loucura de Nietzsche – como o suicídio de Sócrates ou a demência de Hölderlin – não é, ela mesma, a prova do destino trágico do homem: a tragédia esteve presente antes, em todos os momentos, porque ela é o pano de fundo da existência humana. O que faz do homem trágico, verdadeiramente trágico, é esse optimismo do desespero e no desespero, essa aceitação da recusa no seio da própria recusa, esse rasgar com a pele o caminho que a si mesmo acabará conduzindo.

            Quase poderíamos concluir aqui ou então não deveríamos parar nunca. Nietzsche é daquelas figuras que, quanto mais se aprofunda, mais leve se torna e, ao mesmo tempo, mais irresistível.

            No momento do colapso que lhe perturbou as faculdades mentais, um outro universo se lhe desvendou em toda a sua pureza transcendente: o da música. Aliás, ela foi também a paixão dos seus anos de lucidez física – o que ressalta grandemente da sublimidade da sua inspiração poética. Com efeito há entre a poesia e a música uma consanguinidade que jamais poderá desmentir-se; ora, esse parentesco inalienável vem também a confluir com os universos da demência. Que élan misterioso faz do louco o paladino da arte musical ou deste, o errante vagabundo da eterna desrazão? Mera coincidência ou, pelo contrário, a prova irrefutável de que essas artes não pertencem a este mundo e vivem reclamando outras dimensões, para sempre estanques ao privilégio da sensatez?

            Voltemos a escutar o canto sublime de Zaratustra:

 

            “Sem dúvida, um pouco de sensatez, disperso de estrela em estrela, é o fermento que existe em todas as coisas; foi para que elas pudessem ser mais loucas que um pouco de sensatez se incorporou às coisas. Pode existir um pouco de sensatez, é certo, mas eis a divina certeza que em todas as coisas encontrei: é com as pernas do acaso que elas preferem – dançar!” (Assim Falava Zaratustra)

 

            O privilégio da sensatez! Como preferi-lo ao voo, para sempre errático, da demência?

            Quase dói confirmar a loucura de Nietzsche, ao enunciarmos-lhe os meandros biográficos, quase apetece negar esses onze anos, em que o esquecimento fez dele um eco fantasmático. O vulgo não entende esta necessidade de mergulhar no olvido que sucede ao homem excessivo e que urge, após o exercício sofrido do derramamento.

            Quem lê o Ecce Homo entende, porém, esse grito lúcido de um ser à beira do delírio e apreende a dimensão profética que lhe é subjacente.

            Nietzsche sempre foi cioso da sua imagem. Ele sabia-se um ser póstumo (na sua época e para além dela) e não quis afastar-se das arenas do intelecto, antes de se apresentar ao mundo tal como se conhecia.

            É verdade que Nietzsche não deu o tiro dissolvente de todas as agruras. Mas escreveu o Ecce Homo, doze anos antes de morrer, como testamento legítimo, no limiar da demência.

            É preciso ler esta obra para entender cabalmente o optimismo retumbante da tragédia nietzscheana, é preciso abarcar, em toda a sua vastidão, a coragem de um génio à beira da consumpção intelectual, que a si próprio e ao mundo se apresenta como foi. Tudo ali está dito com objectiva exactidão, tornando absolutamente inútil, o que sobre ele foi escrito, depois dele. Obra de um louco? Paranóia de um alucinado, prestes a mergulhar no olvido?

            Como podemos nós arvorar-nos em paladinos da classificação e acolher, com um trejeito de desprezo, os gritos possantes de um génio empenhado na pressa de se desvendar perante o mundo?

            Quanto à morte voluntária, cabe dizer que ele sempre a defendeu como remédio para todos os que, ao invés de viver, se arrastam, plangendo, pelas esquinas da existência. A máxima “Morre a tempo!” estrondeia, alucinante, nos cantos de Zaratustra; porém “(…)como poderia morrer a tempo aquele que nunca viveu a tempo? Mais valia que nunca tivesse nascido. Eis o conselho que dou aos supérfluos.” (Assim Falava Zaratustra).

            Por essa razão, tal mandamento jamais poderá ser aplicado pois “(…) os próprios supérfluos  dão à sua morte uma importância demasiada, e a mais oca das nozes ainda exige que a quebrem”.

            Por outro lado, há os que morrem demasiado cedo, esses que se entregam ao suicídio numa hora em que, por excesso de juventude, não deram ainda da sua vida, o real testemunho:

 

            “Em verdade, morreu demasiado cedo esse Hebreu a quem veneram os pregadores da morte lenta; e é uma fatalidade para muitos homens que ele tenha morrido demasiado cedo.

            Ele ainda apenas conhecia as lágrimas e a melancolia dos Hebreus, e o ódio dos bons e dos justos – o Hebreu Jesus. E eis que o desejo da morte o tomou subitamente.

            Porque não ficou ele no deserto, longe dos bons e dos justos? Então, talvez tivesse aprendido a viver e a amar a terra e, mais ainda, a rir!

            Acreditai-me meus irmãos, ele morreu demasiado cedo, ele próprio se teria retractado da sua doutrina se tivesse chegado à minha idade. Era suficientemente nobre para se retractar.

            Mas ainda não tinha amadurecido. O amor no jovem é imaturo, e por falta de maturidade odeia ele os homens e a terra. (…)” (Assim Falava Zaratustra).

 

 

            Problema, entre todos, intrincado, este, do suicídio.

            Desde que começámos a empreender este trabalho que o tema vai sendo aflorado aqui e ali, e, no entanto, permanece enigmático, em si mesmo, e nas razões que determinam o gesto decisivo.

            Nietzsche é, como todos os outros, um suicida. É-o, na medida em que afirma a vida e o seu contraste e se auto-consome num excesso sem alívio. A loucura é a resposta biológica à prática do excesso e funciona como antecâmara da morte real: afirmar a vida, dar-lhe o sim absoluto e atirar-se de braços abertos no atoleiro da consumpção.

 

            Que mais dizer, neste contexto, sobre Nietzsche?

            A obra dele aí ficou, como testemunho vivo, o sim e o não, ora enleados, ora irredutíveis, campeiam em absoluto numa formidável orgia sonora. Obra, que também é música, música de facto, em lieds inspirados que a contemporaneidade verteu em disco.

            Cantemo-lo, por isso, e dancemos ao som festivo dos seus ditirambos; apropriemo-nos do seu optimismo superabundante e depois, reguemo-lo, para que a nossa própria luz possa acrescentar-se à rutilância portentosa do arco-íris dionisíaco.

 

            “ E que se considere perdido todo o dia em que se não houver dançado pelo menos uma vez, e que se considere falsa toda a verdade que não foi acompanhada de risos” (Assim Falava Zaratustra).

 

            De nada servirá acrescentar uma palavra que seja ao que foi dito.

Uma resposta to “A demência lúcida do trágico Nietzsche”

  1. Joao Carlos Says:

    nâo há duvida de que Nietzche è um  génio, que maravilha ler a sua obra.
     
    Ele levou-me mais  longe, a ler sobre o Budismo ( filosofia ou ciencia do espirito) que até entâo eu desconhcia.
     
    Ele nâo entedeu a sua genialidade. A loucura seria o passo seguinte a transcender(como ele diz e bem, a coragem vence a propria morte).
     
    Obrigado Nietzsche pela tua obra, que ela sirva para abrir os olhos a muitos homens.

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