Vincent Van Gogh, a tragédia feita Arte

 

 

 

 

 

 

 

 

Auto-retrato com orelha enfaixada

 

 

Campo de Trigo com Corvos

 

 

Noite Estrelada

 

 

As Botas

 

 

Os Girassóis

 

 

 

Auto-retrato

 

"Se mais tarde eu valer alguma coisa,é porque já o valho agora, porque o trigo é trigo mesmo que as pessoas da cidade, a princípio, o tomem por erva." (Vincent  Van Gogh) 

 

 

 

 

Vincent Van Gogh, a tragédia feita Arte

 

 

            Arredemos agora a literatura; deixemos de lado poetas, dramaturgos e filósofos; esqueçamos, por algum tempo, as palavras e atentemos nesta outra dimensão.

            É preciso, talvez, fechar os olhos ou então abri-los até à desmesura: porque é de um pintor que vamos falar e essa circunstância exige-nos uma vocação diferente.

            Todavia, repensando o que escrevemos, sentimos, de imediato, a necessidade de nos retractarmos: porque pouco importa que Van Gogh tenha sido pintor, pouco importa que tenhamos os olhos fechados ou abertos, pouco importa este aparente salto noutra direcção.

            É o homem que queremos trazer aqui – o homem e a sua tragédia única: como únicas são todas as tragédias.

            É a criança Vincent, é o adolescente Vincent, é o jovem Vincent, é o adulto Vincent. Van Gogh aparece muito depois, tragicamente atrasado face a esse Vincent, nome simples que ele escrevia no fundo das suas telas. O Van Gogh dos outros, a preciosidade das galerias, os milhões de dólares que a pequenina tela custa, hoje que o Vincent morreu, esse deve ser esquecido, tem que ser esquecido. Porque só serve à vaidade do mundo, porque engalana paredes fúteis e rende dinheiro contaminado.

            Vincent Van Gogh foi sempre um renegado. Numa família burguesa, ligada às boas maneiras, intelectualmente bem cotada, Vincent é a personagem arredia, excêntrica – porque demandava o seu próprio caminho.

            Queria servir os outros – fez-se professor e falhou; queria servir ainda mais – fez-se porta-voz do Evangelho numa aldeia de mineiros no Borinage, na Bélgica: mas levou tão longe o seu sentido cristão, irmanou-se de tal modo com a miséria dos mineiros a quem devia pregar a fé, que a sua própria igreja o expulsou dela, com vergonha; quis estar do lado dos miseráveis: recolheu, da rua, a mulher, grávida de não sei quem, levou-a consigo e deu-lhe e ao filho o amor de que era pródigo – desonrou o “seu” nome na pessoa da família e dos amigos e a própria mulher, recolhida e amada na pobreza assumida, ridicularizou-o, incompreendendo-lhe o gesto e deixando-o só.

            Quando descobriu a pintura, quando viu, no fundo de si mesmo, que o Vincent estava ali, atirou-se ao trabalho com furor. A custo aprendeu a convencionalidade da técnica; mas os seus modelos preferidos tinham que exprimir a crueza da vida: à mulher, quere-a feia, gasta e lavrada; à paisagem, estéril ou viva, no seu esplendor violento. Trabalha como um obstinado, cria como um possesso: todos os dias lhe nasce das mãos uma tela esplendorosa, marcada por grandes pinceladas sangrentas, pelo ocre fulvo de Arles.

            Mas, à volta dele, o silêncio é temível.

            Vincent desvenda, mas não consegue comunicar, Vincent é pioneiro de uma nova forma de pintar, mas ninguém quer saber da portentosa novidade.

            Os comerciantes, os donos das galerias, os críticos, protectores da estética convencional, afastam com horror as telas extra-ordinárias do Vincent demente.

            Tem quadros seus, por todo o lado, nas casas modestas que lhe vão servindo de morada, numa orgia perturbante de cor e de génio. Porém, só ele as contempla, só ele sabe que está a realizar arte verdadeira. Mas sabe-o, de uma forma delirante, sabe-o, porque é disso que se alimenta, sabe-o, porque é esse excesso que o faz visitar, frequentemente, o asilo de alienados, após a crise.

            Como todos os homens, quis a companheira; Vincent também foi capaz do amor comum, Vincent também quis casar e ter uma família como o resto do mundo.

            Todavia, não o acham digno de entrar nas famílias burguesas das mulheres que chegou a amar, e só lhe restam as sobras míseras do prato dos outros.

            Vincent também quis descobrir, em conjunto com os irmãos da arte – Gaugin é o exemplo mais marcante da sua vida – as novas sendas da pintura, os novos universos da cor, o fascínio das paisagens exóticas. Mas ninguém lhe suporta o excesso e os companheiros abandonam-no, receando, eles próprios, a loucura, ou querendo cultivar a deles à sua própria maneira.

            E Vincent, alucinado, comete actos terríveis.

            São muitos os que ouviram falar do célebre corte da orelha e várias as versões e o contexto em que tal gesto terá sido realizado. Todavia, os que sabem disso, ou ouvem contar, arrepiam-se, horrorizados, levando a mão às próprias orelhas; mais frequentemente, riem-se com indulgência ou com sarcasmo: porque Vincent era louco e os loucos sempre foram ocasião da piedade ou do gáudio da turba.

            Mas, vejamos: e se os loucos forem todos aqueles que não entendem esta dádiva trágica? Porque Vincent cortou a própria orelha para a dar como prenda, para cativar, com um pedaço de si, alguém que amava.

            Loucura?! Sim, Vincent Van Gogh foi clinicamente louco; mas, quando cortou a orelha estava possuído pelo amor, essa outra loucura não incluída nos manuais dos clínicos, esse sentimento sem barreiras em que a dádiva é tudo.

            Por isso, tratou-se de um acto pleno de lucidez e de verdade: simbolicamente, deu a vida pelo amigo (ou pela amada) ofertando-lhe um pedaço vivo do seu eu.

            Depois deste acto grandioso, que valor têm as nossas míseras alianças reluzentes, as nossas caixas de bombons, as nossas flores, ainda que, ao oferecê-las, nos anime o sentimento mais verídico?

            Mas, quando Vincent cai em si, quando desce da embriaguez onde, em simultâneo, a loucura e o génio o obrigam a pairar, a tragédia da solidão é a única companheira. E o Vincent, agora lúcido, vê a sua obra amontoada e repelida.

            Sabemos que houve, na vida deste trágico, um irmão; sabemos que foi ele que, com risco do seu próprio equilíbrio individual, lhe permitiu as condições mínimas de subsistência. Mas, ainda que irmãos de sangue, ainda que não possamos deixar de admirar e aclamar a ternura do Theo convencional pelo Vincent desgarrado, uma distância inaudita separou-os sempre, no destino.

            Tragicamente, Vincent Van Gogh produz telas magníficas onde se consome, porque se derrama nelas, por inteiro; tragicamente, experimenta o delírio dos hospícios de alienados. Mas, quando decide morrer, já havia ultrapassado a tragédia.

            Porque se suicida Vincent Van Gogh? Porque não se deixa chegar aos limites da loucura, como Nietzsche ou como Hölderlin, para morrer em paz e no olvido, de morte natural?

            Contrariamente ao que possa pensar-se, o suicídio de Van Gogh não é um acto de demência: é, pelo contrário, a afirmação lúcida do artista que sabia – com o sentimento – haver cumprido já a sua missão.

            Durante anos, febril e inquietamente, Vincent produziu; mas um dia sentiu chegar o próprio limite. Sentiu que, daí em diante, não fazia sentido permanecer vivo, porque a fonte esgotara o caudal, a consumpção física precipitava-o para os hospícios, aos quais se entregava, voluntariamente, logo que apercebia em si a emergência da crise; a terra, desse modo, não podia dar-lhe mais cor, mais luz, mais orgias pictóricas. Sentiu que não tinha o direito de continuar na dependência da ajuda financeira do irmão, que lhe comprava as obras, mas que jamais conseguiu vender-lhe uma que fosse. Percebeu que a sua vida seria, daí em diante, uma trágica repetição de quedas, ressurgimentos e logo quedas e logo fracassos. Ora, o criador, jamais aceita a repetição, jamais se conforma com rotinas ou círculos viciosamente percorridos sem apelo ou horizonte à vista, porque o seu sangue pulsa e jorra com força excessiva.

            Desse modo, o suicídio de Van Gogh é a entrega serena da terra à terra, o apaziguamento depois da vertigem, a sensatez nos limites da tragédia. Mas parece ter ainda um outro sentido que não poderemos justificar inteiramente, na exacta medida em que nos limitamos sempre a interpretar.

            Vincent Van Gogh e Theo Van Gogh irmanavam-se, não apenas pelos vínculos da consanguinidade, mas, decerto ainda mais, pela confluência espiritual e pelo forte sentido da amizade cúmplice que nem sempre a fraternidade biológica engendra. Durante anos, Theo, director de uma galeria em Paris, tenta expor e comercializar as telas do irmão; mas o seu estilo exuberante, demasiado arrojado, violento em excesso para os padrões estéticos da época ofende e indigna o proprietário da galeria e os próprios clientes a quem Theo mostrava os quadros do irmão, armazenados longe das vistas do público. Apesar disso, enviava-lhe dinheiro regularmente e Vincent sofria com a situação pois compreendia bem que o irmão, casado e com filhos, não tinha meios para lhe satisfazer todas as necessidades.

            Ao analisar o comércio da arte, Vincent apercebe-se que, após a morte de um artista, os preços das obras sobem extraordinariamente e, com esse intuito, premedita o suicídio.

            Ninguém consegue explicar como e onde ele obteve o revólver. Porém, naquele dia 27 de Julho de 1890, Vincent sai para o campo sem o cavalete ou as tintas e regressa a casa com uma bala no peito. Vive mais um dia, não permite que o irmão seja avisado, o médico nada pode fazer e o suicida mostra-se tranquilo, quase feliz. As suas últimas palavras parecem ter sido: «Espero que agora fique tudo bem.»

            Apesar da recusa de Vincent, Theo passa com ele os últimos momentos, embrenha-se na tragédia daquele de quem era, de facto, a alma-gémea e, vem a morrer, também ele, seis meses depois. Ironia das ironias! Vincent desejava, com a sua morte planeada, dar visibilidade às suas obras e, com isso, torná-las vendáveis para, depois, poder ressarcir o irmão e a família dos seus próprios custos financeiros, enquanto vivo. E no entanto, apesar da fama que a posteridade lhe outorgou e dos milhões que hoje valem as mesmas obras, que, no seu tempo, eram chacoteadas e escondidas do público de nada aproveitou ao irmão tal circunstância, morto, também ele, antes de poder ver a glória do artista-irmão em que sempre acreditou!

            De toda a saga trágica de Vincent Van Gogh, desde o desprezo da família e dos amigos, até ao terror das crises maníacas no cerne da esquizofrenia, passando pelo alcoolismo, pela fome, pela solidão, qual mártir na arte e pela arte, este suicídio, premeditado e altruísta, parece-nos bem ser a dimensão suprema da sua tragédia.

 

 

 

 

 

 

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