Séculos XX-XXI – Tempo de Tragédia

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Séculos XX-XXI – Tempo de Tragédia

 

 

 

                                                              

            O Século XX criou Einstein, mas também a bomba atómica; engendrou Lenine e a tentativa prática do humanismo político de Marx e Engels, mas também a sua corrupção coroada e celebrada na queda do muro de Berlim; instituiu a democracia à escala total, mas produziu Hitler e o holocausto nazi; institucionalizou a globalização, mas fez com que o individualismo se tornasse dia a dia mais feroz; emancipou a mulher, mas amordaçou-a, por via da mesma emancipação, a uma tripla escravatura; levou ao rubro a cultura da informação, mas conduziu a um tipo de conhecimento cada vez mais superficial, incompleto e ambíguo; refinou a qualidade de vida nas grandes urbes, mas destruiu o buraco do ozono; juntou multidões em torno dos mais diversos tipos de ídolos, mas erigiu a solidão vazia dos palcos e dos actores; encurtou as distâncias no tempo e no espaço, mas inventou o ludíbrio da relação humana, tecida no disfarce e na mentira; legitimou a liberdade sexual, mas forjou uma pandemia de contornos clínicos e sócio-morais para a qual não há solução à vista; organizou e levou a cabo viagens interplanetárias, mas fez da Terra um local pantanoso, onde a natureza se contorce em espasmos de fim de vida; liberalizou a economia, mas delineou um capitalismo feroz e a pobreza que lhe é correlativa; inventou o consumismo, para forjar o endividamento colectivo; refinou os meios de transporte de todos os tipos, mas produziu uma nova forma de morte; levou ao rubro a liberdade criativa, mas confundiu os valores, de tal modo, que qualquer um se intitula de artista e reclama fama e prestígio; estilizou ao máximo o padrão de beleza humana, mas produziu uma multidão de gente martirizada ou despojada de auto-estima; instituiu a cultura da saúde do corpo e alienou os valores do espírito para o campo da conjectura e da inconsequência; credibilizou a psicanálise, mas urdiu a inevitabilidade da doença psicológica e a institucionalização da depressão, como doença da moda; produziu a invasão de brinquedos e artefactos para a diversão infantil e nunca a criança foi tão entregue a si própria por incúria paternal; criou metrópoles de betão e cidades artificiais escondidas por tectos gigantescos, mas fez destes mesmos locais os palcos privilegiados do crime e da aberração; aprovou os direitos internacionais das crianças, mas permite que a pedofilia alastre, deixando impunes os seus perpetradores…

            Esperámos o século XXI com o sentimento messiânico de uma redenção numerológica ou crentes de que se abriria o abismo apocalíptico à primeira badalada da meia-noite; descobrimos, após uns instantes de aturdimento ou de euforia, que Deus não iria descer, naquele dia, por entre as nuvens para punir os pecadores e ungir os bem aventurados, nem se soltaria pelos ares a cavalgada do Apocalipse. Percebemos que o ano 2000 nenhum poder especial teria a não ser obrigar-nos a uma prática diferente na escrita dos algarismos da data, e que o resto só poderia abater-se sobre nós de uma forma dia a dia mais evidente e mais trágica.

            Nada mudou nesse dia 1 de Janeiro de 2000 a não ser, como foi dito antes, a totalidade dos algarismos que designam o ano e cuja escrita só nos surpreendeu durante um curto período. Depois habituámo-nos e continuámos levando a vida de sempre, enterrados na mesma aura de catástrofe, sentindo-a crescer pelos cantos do mundo e pelos cantos da nossa própria consciência, mas resignados ou adormecidos, porque o ritmo da queda é imparável e o abismo abre-se todos os dias, um pouco mais, perante a nossa própria vista que já se esqueceu de pestanejar.

            Não estamos a ser mensageiros da desgraça, de modo nenhum, nem sequer fizemos a lista completa da tragédia instalada no próprio cerne do mundo actual, na sua totalidade – nem seríamos capazes de fazê-la. O facto é que os séculos XX-XXI são eles próprios, sem personagens, sem figuras trágicas, um paradigma, em si mesmos, da vocação trágica do homem.

            No passado houve salvadores, homens e mulheres que se deixaram crucificar e queimar, envenenar ou fuzilar, que a si próprias deram o tiro redentor para escapar ao tempo, para dar de si testemunho, para redimirem a vacuidade do seu estar vivo…Hoje, ninguém quer salvar seja o que for, seja quem for, perdidos, todos e cada um, nos labirintos do próprio egoísmo, rendidos à luta pela sobrevivência, sem grandeza, sem carácter. Como estabelecer uma linha de continuidade ou de antagonismo, perante o manancial poderosíssimo de tragédia fecunda que emanou de outros séculos, exaurido, hoje, num imenso vazio, numa apatia que nada parece ser capaz de alvoroçar?

            E então, para dar desta nossa época o testemunho, fomos visitar um fantasma, e é dele que falaremos ainda algum tempo, antes de concluirmos o trabalho.

 

 

                                                    (Continua)

 

 

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