NIRVANA

NIRVANA

 

                                                     

 

 

            No Budismo, nirvana (do sânscrito: pali: Nibbāna; em chinês: 涅槃) significa, literalmente, "extinção", sendo o culminar da busca budista pela libertação.            

            De acordo com a concepção Budista, o Nirvana seria uma superação do apego aos sentidos e da ignorância e o consequente ultrapassar da existência, que é pura ilusão.          Siddhartha Gautama, o Buda, descreveu o Budismo usando a metáfora de uma jangada que, após atravessar um rio, permite ao passageiro alcançar o nirvana.

            O Hinduísmo também usa o termo nirvana como um sinónimo para as suas ideias de moksha, e pode estudar-se, a tal respeito, lendo vários textos hindus tântricos bem como na Bhagavad Gita. Os conceitos hindus e budistas de nirvana "não devem ser considerados equivalentes". Para os hindus é o ápice, ou seja, o ponto mais alto de meditação, quando o espírito se liberta do corpo temporariamente.

            Moksha (sânscrito: libertação) ou Mukti (sânscrito: redenção) refere-se, em termos gerais, à libertação do ciclo do renascimento e da morte.

            Na mais alta filosofia Hindu, é visto como a transcendência do fenómeno de existir, de qualquer senso de consciência do tempo, espaço e causa (karma). Não é visto como um objectivo soteriológico, à semelhança do contexto cristão; significa antes a dissolução do senso do ser individual, ou ego, e a destruição total do nama-roopa (nome-forma). No Hinduísmo, é visto como uma analogia com o nirvana, embora o Budismo tenda a diferir uniformemente da leitura da libertação do Vedantismo Advaita. O Jainismo também acredita no Moksha.

            Os principais sistemas filosóficos do hinduísmo consideram que uma entidade viva, especialmente aquela que estiver a utilizar um corpo humano, deve ter por objectivo alcançar três metas na vida: kama ou desfrute material dos sentidos, artha ou desenvolvimento económico e dharma ou religiosidade mundana; ou tri-varga: = dharma, = artha, kama =

            Kama é o desejo mais ardente, pois como desfrute material entendem-se as actividades sexuais, tão bem codificadas no clássico Kama-sutra, além do desfrute do paladar (toda a cultura tem os seus requintes gastronómicos), do sentido da visão (lindas e reconfortantes paisagens), da audição (músicas, narrativas agradáveis) e do tacto (o sentido empregado no sexo é, principalmente, a sensibilidade táctil).

            Para satisfazer o desejo de Kama a entidade viva deve empenhar-se em artha, ou actividades realizadas para o desenvolvimento económico, tais como o trabalho nas suas diferentes formas. Sem recursos materiais auferidos por artha, a entidade viva dificilmente consegue satisfazer os seus desejos de kama.

            O dharma são as actividades de religiosidade mundana, tais como a moral e os bons costumes, essenciais para se alcançar artha e kama. Uma pessoa sem disciplina, que usa drogas, que não se veste bem, etc. terá dificuldade em empenhar-se no trabalho.

            É assim que se forma o caminho de tri-varga, ou metas ordinárias da existência mundana: dharma gera artha que compra kama.

            Moksha é considerada como o alvo que está para além do tri-varga próprio daqueles que já estão libertos destas actividades mundanas e que prendem as demais entidades vivas, e o paramapurusha-artha, ou o objectivo primordial que uma entidade desfrutando da existência mundana deve esforçar-se por alcançar.

 

           

 

 

 

          Começámos esta digressão dolorosa através das marcas ténues da existência terrena deixadas por alguém que apelidámos de fantasma, com uma extensa recolha de informação sobre o termo Nirvana, enquanto estado de santidade, perfeição, esvaimento corporal ou redenção, nas linhas da filosofia budista e hinduísta.

            Mas a palavra Nirvana serviu também de nome a uma banda musical, cujo auge e consequente declínio, aconteceu nos primeiros anos da década de 90, do século XX, uma banda de música designada como “grunge ou “rock alternativo”, nascida e criada na região de Seattle nos EUA. E é ao seu líder, àquele que, no mais cru dos paradoxos, deu fama absoluta aos Nirvana, para se retirar dos palcos e da vida como se jamais tivesse existido, que tomamos como símbolo do vazio sem apelo do mundo contemporâneo: Kurt Cobain.

 

 

          

 

           

 

      

 

 

 

 

 

                                                                                               

                                                                                                                     KURT COBAIN, DONO DA DOR

 

 

           É uma imagem impressionante: um jovem, magro e vestido como um vagabundo, jeans rotas, ténis coçados, casaco puído, com os cabelos loiros desgrenhados cobrindo completamente o rosto, de olhos fechados, segurando uma guitarra, grita palavras desconexas para uma plateia alucinada de adolescentes de liceu. 

            A princípio julgámos tratar-se de uma encenação, sobretudo quando o jovem se atira em voo sobre a plateia, especialmente quando ele agarra a guitarra e desata a arrancar-lhe a cordas …mas, no fim, o grito decisivo da música mostra o rosto do cantor, envolto numa rede de cabelo transpirado e a boca, aberta, revela o ápice do sofrimento. Percebemos então que Kurt Cobain, o figurante desta encenação possível, sendo um figurante no sentido literal do termo é também um ser devorado pela tragédia e exprime ali, numa demencial torrente de gritos desconexos, numa voz rouca e velada, em melodia pujante mas acre, a dor que lhe verga os ombros frágeis e o corpo debilitado.

 

Smells Like Teen Spirit

Nirvana

Composição: Kurt Cobain

Load up on guns
And bring your friends
It’s fun to lose
And to pretend
She’s over bored
And self assured
Oh, no, I know
A dirty word

Hello, hello, hello, how low
hello, hello, hello, how low
hello, hello, hello, how low
hello, hello, hello…

With the lights out
It’s less dangerous
Here we are now
Entertain us
I feel stupid
and contagious
Here we are now
Entertain us
A mulatto
An albino
A mosquito
My libido
Yeah!
Yay!
Yay!

I’m worse at
what I do best
And for this gift
I feel blessed
Our little group
has always been
And always will
until the end

Hello, hello, hello, how low
hello, hello, hello, how low
hello, hello, hello, how low
hello, hello, hello…

With the lights out
It’s less dangerous
Here we are now
Entertain us
I feel stupid
and contagious
Here we are now
Entertain us
A mulatto
An albino
A mosquito
My libido
Yeah!
Yay!
Yay!

And I forget
Just why I taste
Oh yeah, I guess
it makes me smile
I found it hard
It’s hard to find
Oh well, whatever,
nevermind

Hello, hello, hello, how low
hello, hello, hello, how low
hello, hello, hello, how low
hello, hello, hello…

With the lights out
It’s less dangerous
Here we are now
Entertain us
I feel stupid
and contagious
Here we are now
Entertain us
A mulatto
An albino
A mosquito
My libido

A denial
A denial
A denial
A denial
A denial
A denial
A denial
A denial
A denial

 

 

 

 

            Para lá do nexo (ou da falta dele) que qualquer composição poética pode sugerir, o facto é que estas palavras desvairadas, aliadas a uma sonoridade metálica e a uma figura esquálida e consumida, se tornaram o hino de uma banda de rock e o mito de uma geração. E no entanto a palavra negação é repetida até à tontura, a palavra baixeza ecoa sem cessar e o homem desfalecido no centro do palco tem uma auréola de fim de vida.

            Kurt Cobain nunca aceitou a existência, excepto, sem dúvida, quando era uma criança hiperactiva e feliz. Porém, a hiperactividade, sintoma de génio, de avidez, de curiosidade pela natureza e pelas coisas levou-o ao consultório médico e à administração de uma droga de efeitos sedativos conhecida por Ritalin. Ao mesmo tempo que lhe tratavam a síndrome hiperactiva, ou quiçá lhe destruíam a genialidade, os pais divorciavam-se. E este é outro dos estigmas trágicos do nosso tempo.

            Por toda a parte, em todo o mundo (pelo menos no ocidental, que é aquele que melhor conhecemos) o divórcio destrói o equilíbrio de milhares de crianças, bruscamente privadas de referências e de identidade, por culpa de quem os gerou e não consegue aguentar o difícil compromisso da coabitação e do respeito mútuo. Alienadas da família normal, atiradas de uns para outros sem perceberem muito bem porquê, tornam-se, regra geral, jovens inseguros, adultos carentes de auto-estima, perdido, por duas vezes, o cordão umbilical que os ligava à fecundidade da existência.

            Nunca mais o jovem Kurt recuperou dessas ausências e, do mesmo modo, (como rezam as fontes) nunca mais conseguiu livrar-se dos efeitos secundários da droga apaziguadora. Contraiu uma doença de estômago, que lhe provocava dores insuportáveis e lançou-se, no contexto da desorientação juvenil, no isolamento face a uma tutela adulta que lhe suportasse a fragilidade, no consumo de heroína, essa outra panaceia para dores físicas e psicológicas.  

            Contudo, Kurt Cobain tinha a genialidade no sangue, ainda que contaminado; e as palavras poéticas com que narrava ou desabafava o seu mundo interior produziram um universo musical que não foi difícil transpor para os acordes da guitarra. Após alguns fracassos e desajustes, vieram os companheiros; após algumas experiências fracassadas de designação da banda, surgiu, por um acaso (diz-se), o nome Nirvana. E depois de segundos planos em espectáculos, a banda triunfa e ganha os tops de venda e a fama.

            A fama traz, como consequência, exposição e riqueza: com nenhuma delas conseguiu lidar o jovem ídolo, qual esfinge ou sombra, desgostoso de si, da sua imagem, do seu mundo.

            Como detesta a magreza dos seus membros, veste camisola sobre camisola para disfarçar a esqualidez; tinge de loiro um cabelo débil que não lava nem trata e lhe tapa, num acinte, o azul cerúleo dos olhos cristalinos; sujo, vestido como um maltrapilho, de overdose em overdose, de desintoxicação em desintoxicação, assim vai passando a existência trágica de um ser genial que grita do fundo da sua dor: “Odeio-me e quero morrer!”

            Apesar de tudo, compõe, escreve, grava e faz tournées; mas são dele estas palavras: “ Eu queria ser levado em coma para o palco e, depois do espectáculo, regressar adormecido ao meu pequeno mundo.”

            De sexualidade mal definida, assegura poder tornar-se bissexual, não tivesse aparecido na sua vida uma mulher brilhante, uma deusa, de corpo provocante e pose espalhafatosa por quem se deslumbrou e a quem se entregou por completo na única verdadeira paixão carnal da sua vida. Courtney Love, uma cantora e actriz de categoria inferior, viu no recém-deus das multidões juvenis e alienadas, uma hipótese de chamar sobre si os holofotes da indústria discográfica; não acreditamos que a explosiva “bomba” loira tenha amado o zombie genial, guitarrista e vocalista, poeta e compositor dos Nirvana. Porém, a ele se juntou, com ele se drogou, dele ficou grávida e com ele veio a casar-se numa cerimónia exótica na praia de Waikiki, no Hawai, no ano de 1992.

            Porém, esta história não termina num paraíso de felicidade, apesar da filha, apesar do amor, apesar da mulher amada, apesar da fama e do brilho e da riqueza.

            Atormentado, drogado, desintoxicado e, logo, uma vez mais, crucificado com as dores de estômago nunca resolvidas, e de novo preso à libertação escravizante da heroína, Kurt Cobain foi descendo os degraus da vida rumo à decrepitude mais pungente. Desmaiava nos espectáculos, caía nas sessões de fotografia, adormecia nas entrevistas, era uma sombra de homem, um farrapo.

            Quando percebeu que Courtney Love queria deixá-lo, que talvez o traísse, assombrado com a perspectiva de enfrentar um novo divórcio na sua curta vida – o primeiro, o dos pais, era ainda um trauma sem redenção – arranja uma arma (todas as que possuíra lhe haviam sido confiscadas, mas ele consegue que lhe comprem uma) escapa da clínica, onde se reabilitava, escalando o muro, apanha o avião para Seattle, enche-se da heroína suficiente para tirar-lhe a vida mas, não contente com isso, deita-se na garagem da sua casa no Lake Washington Boulevard, coloca sobre si a identificação (pois sabia que o tiro lhe desfiguraria as feições) e uma carta de despedida, assenta a arma sobre si em direcção à cabeça e dispara, num último alento. Tinha apenas 27 anos de idade.

            Esse dia, esse tiro, essa queda trágica de um mito na idade que poderia ser de esplendor, mas que se tornara a imagem da própria decadência, fizeram-se o símbolo macabro de uma juventude privada de referências. Mais tarde, outros jovens cometeram suicídio, numa fraternidade sombria com o ídolo; e no entanto, os milhões continuaram a crescer à sombra do fantasma consumido, como sinal horrendo do tempo em que vivemos.

            Nirvana, sim, Kurt Cobain atingiu o Nirvana, não porque tivesse cumprido e ultrapassado consciente e serenamente as etapas que a ele conduzem porque delas se deve sair, mas por meandros inefáveis, onde a droga potenciou uma espécie de redenção niilista. Kurt Cobain é um ídolo, mas não conseguimos erguer-lhe as costas, dobradas ao peso de uma Fender Mustang, que paradoxalmente também carregou aos ombros qual crucificado do século XXI. É um ídolo e um santo de uma religião antinómica, cujos hinos fazem trepidar multidões inebriadas ou rendidas ao olvido e produzem um estremecimento de horror em todo aquele que permanece lúcido, no turbilhão da demência colectiva do nosso tempo. E apetece, mesmo ao lúcido, principalmente ao lúcido, enterrar-se a fundo nesse delírio tapar os olhos com os farrapos do nosso esforço tímido de redimir, e gritar, a plenos pulmões, com Kurt Cobain e com os Nirvana:

 

 Hello, hello, hello, how low
hello, hello, hello, how low
hello, hello, hello, how low
hello, hello, hello…
                     

…e

 

A denial/A denial/A denial/A denial/A denial/A denial/A denial/A denial/A denial… nove ou um número infinito de vezes, porque estas são a palavras de ordem do nosso tempo.

 

 

                                                   (continua)

 

 

 

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: