A Tragédia em Português

 

 

Paula Rego

 

 

Capítulo Final

 

 A Tragédia em Português

 

        Na hora de aceder ao capítulo final deste ensaio sobre a vocação trágica do homem, percebo que, ao seleccionar figuras para ilustrar a tragédia esculpida na fronte da Humanidade, não incluí nenhum português. Fui à História, detive-me mais num tempo que nos outros, acabei numa generalização, decerto tida como pessimista, e não citei um único nome da nossa identidade cultural.

            Há uma razão específica para semelhante ignorância ou aparente distracção, uma razão que fui obliterando ao longo das páginas com o uso da primeira pessoa do plural mas que esteve sempre presente da primeira à última. E essa razão prende-se, estritamente, com o facto de pretender ocultar-me, enquanto sujeito, numa pretensa cientificidade, e escapar à tragédia do meu próprio eu.

            Mas agora, que estou a ponto de terminar o trabalho, não encontro a menor razão para persistir neste jogo de disfarce tanto mais que comecei por afirmar o carácter eminentemente trágico de todos os homens e acabei rotulando o nosso tempo como o paradigma da tragédia, na sua globalidade.

            Ao escolher personagens para ilustrar as teses que defendo no prólogo, percebo (e percebi-o de imediato) que fui em demanda dos meus irmãos-gémeos e que os estudei e deles falei para escapar da minha própria vocação. Aconteceu também um outro fenómeno: perante o terror destas vidas urdidas em demência ou atiradas para a morte voluntária, ao perceber que o sinal da sua perdição na contemporaneidade específica se transformou invariavelmente na aprovação e na glória póstumas, dispus-me a absorver o meu carácter de ser fora do tempo, perdido no isolamento e na solidão, rodeado de incompreensão inveja ou sarcasmo; e um certo pavor levou-me ao descentramento de mim enquanto personagem deste estudo.

            Bem sei, caro leitor, que temos geniais trágicos entre nós.

            Evoco, em primeiro lugar, Fernando Pessoa esse demente-lúcido, corrompido em bebedeira e solidão, esse alienado do convívio feminino, esse expatriado em tenra idade para um país que não era o seu, por uma mãe que não o pôs em primeiro lugar na vida. Vejo a sua grandeza única, o seu génio múltiplo, e não consigo lobrigar na História mundial um poeta que dele se aproxime em talento e grandeza.

            Fernando Pessoa viveu a tragédia de desocultar constantemente de si os duplos.

            Todos temos essa variedade infinda de faces e de disfarces mas atrevemo-nos (e em geral conseguimos) a definirmo-nos no contexto de uma personalidade (ou seja, de uma única máscara) e a recalcar a imensidão de seres que nos povoam, mergulhados em trevas, só emergentes em ocasiões raras que desistimos de compreender dizendo: Este não sou eu, não fui eu quem falou! Aturdimo-nos, por alguns instantes, numa surpresa verdadeira perante as pontas obscuras do nosso eu, que assim se revelam à consciência, mas passamos sempre adiante, crentes de que foi um acaso ou um demónio que a tal disfunção nos conduziram.

            Fernando Pessoa desdobrou-se infinitamente, deu corpo, voz e substância a todos esses eus – múltiplos de si próprio mas esfusiantes de vida individual – escreveu e viveu por cada um deles e em todos eles, como se houvesse uma prodigiosa avalanche de mensageiros a quererem denunciar-se, ávidos de corpo e de substância emocional.

            Será esta circunstância uma tragédia, dentro dos parâmetros que definimos para o espírito trágico?

            Reconheçamos que, apesar da identidade nos contornos entre este génio e os outros de que falámos antes, o cunho de tragédia é de outra índole. Há solidão no homem Fernando Pessoa, solidão, no entanto, povoada de entes mágicos que lhe obsidiavam a corrente do ser. Não recebe grandes louros em vida, este que hoje é reconhecido também além-fronteiras, este que tem heterónimos ingleses e entra, para lá  deste nosso exíguo território, nos portões do universal. Suicida-se lentamente no ápice da bebedeira: com o fígado destruído, o médico diz-lhe para parar de beber se deseja manter-se vivo e o poeta continua entregue ao seu modo de suportar a vida, bebendo continuamente até às portas da morte. Vai a enterrar acompanhado de um cortejo fúnebre exíguo e passa, feito sombra, com uma gigantesca obra de génios múltiplos, só tardiamente publicada e erguida até aos píncaros.

            A tragédia de Fernando Pessoa reside nesta espécie de neurose ou de assombração heteronímica, por certo uma forma de demência da qual tentou fugir sem lograr consegui-lo. A tragédia de Fernando Pessoa não conduz ao tiro redentor, mas esculpe-se num quotidiano medíocre de correspondente comercial e num vício sórdido de manter adormecida a desgraça na corrente dos eflúvios alcoólicos.

 

    Se te queres matar, por que não te queres matar?
    Ah, aproveita! que eu, que tanto amo a morte e a vida,
    Se ousasse matar-me, também me mataria…
    Ah, se ousares, ousa!
    De que te serve o quadro sucessivo das imagens externas
    A que chamamos o mundo?
    A cinematografia das horas representadas
    Por actores de convenções e poses determinadas,
    O circo policromo do nosso dinamismo sem fim?
    De que te serve o teu mundo interior que desconheces?
    Talvez, matando-te, o conheças finalmente…
    Talvez, acabando, comeces…
    E, de qualquer forma, se te cansa seres,
    Ah, cansa-te nobremente,
    E não cantes, como eu, a vida por bebedeira,
    Não saúdes como eu a morte em literatura!

    Fazes falta? Ó sombra fútil chamada gente!
    Ninguém faz falta; não fazes falta a ninguém…
    Sem ti correrá tudo sem ti.
    Talvez seja pior para outros existires que matares-te…
    Talvez peses mais durando, que deixando de durar…

    A mágoa dos outros?… Tens remorso adiantado
    De que te chorem?
    Descansa: pouco te chorarão…
    O impulso vital apaga as lágrimas pouco a pouco,
    Quando não são de coisas nossas,
    Quando são do que acontece aos outros, sobretudo a morte,
    Porque é coisa depois da qual nada acontece aos outros…

    Primeiro é a angústia, a surpresa da vinda
    Do mistério e da falta da tua vida falada…
    Depois o horror do caixão visível e material,
    E os homens de preto que exercem a profissão de estar ali.
    Depois a família a velar, inconsolável e contando anedotas,
    Lamentando a pena de teres morrido,
    E tu mera causa ocasional daquela carpidação,
    Tu verdadeiramente morto, muito mais morto que calculas…
    Muito mais morto aqui que calculas,
    Mesmo que estejas muito mais vivo além…
    Depois a trágica retirada para o jazigo ou a cova,
    E depois o princípio da morte da tua memória.
    Há primeiro em todos um alívio
    Da tragédia um pouco maçadora de teres morrido…
    Depois a conversa aligeira-se quotidianamente,
    E a vida de todos os dias retoma o seu dia…

    Depois, lentamente esqueceste.
    Só és lembrado em duas datas, aniversariamente:
    Quando faz anos que nasceste, quando faz anos que morreste.
    Mais nada, mais nada, absolutamente mais nada.
    Duas vezes no ano pensam em ti.
    Duas vezes no ano suspiram por ti os que te amaram,
    E uma ou outra vez suspiram se por acaso se fala em ti.

    Encara-te a frio, e encara a frio o que somos…
    Se queres matar-te, mata-te…
    Não tenhas escrúpulos morais, receios de inteligência!…
    Que escrúpulos ou receios tem a mecânica da vida?

    Que escrúpulos químicos tem o impulso que gera
    As seivas, e a circulação do sangue, e o amor?

    Que memória dos outros tem o ritmo alegre da vida?
    Ah,   pobre vaidade de carne e osso chamada homem.
    Não vês que não tens importância absolutamente nenhuma?

    És importante para ti, porque é a ti que te sentes.  
    És tudo para ti, porque para ti és o universo,
    E o próprio universo e os outros
    Satélites da tua subjectividade objectiva.
    És importante para ti porque só tu és importante para ti.   
    E se és assim, ó mito, não serão os outros assim?   

    Tens, como Hamlet, o pavor do desconhecido?
    Mas o que é conhecido?   O que é que tu conheces,
    Para que chames desconhecido a qualquer coisa em especial?

    Tens, como Falstaff, o amor gorduroso da vida?
    Se assim a amas materialmente, ama-a ainda mais materialmente,
    Torna-te parte carnal da terra e das coisas!
    Dispersa-te, sistema físico-químico
    De células nocturnamente conscientes
    Pela nocturna consciência da inconsciência dos corpos,
    Pelo grande cobertor não-cobrindo-nada das aparências,
    Pela relva e a erva da proliferação dos seres,
    Pela névoa atómica das coisas,
    Pelas paredes turbihonantes
    Do vácuo dinâmico do mundo…

 

            Claro que quem assim escreve, quem assim insiste com os outros para que se matem não é o Fernando Pessoa, mas o outro, o Álvaro de Campos, engenheiro, poeta futurista, essa incarnação de Walt Whitman, um dos seus émulos, que ele saúda aos portões da imortalidade. É a Álvaro de Campos que Fernando Pessoa entrega esta tarefa apelativa de um suicídio necessário, que de todo passará indiferente na ciclópica marcha da trepidação furiosa do século XX.

            Eu sou cobarde, geme o ortónimo, levo a vida em bebedeira, gasto-me na literatura, essa outra embriaguez de que também falou Baudelaire, tão necessária para suportar o peso da evanescência mortal e contudo tão assustadoramente alienatória! Mas tu, se te queres matar, porque não o fazes, porque te prendes à saudade antecipada de uma vida e dos outros que cedo se habituarão a passar sem ti?

            A tragédia de Fernando Pessoa brada neste poema de Álvaro de Campos, essa cobardia ou essa lassidão, esse deixar-se andar pelos balcões sórdidos das tascas, esse ter debaixo da secretária de funcionário medíocre o garrafão do soporífero necessário. A tragédia de Fernando Pessoa não nasce no momento em que entra no hospital para deixar a vida, consumida de propósito, porque nesse momento ela havia sido integralmente cumprida.

            Amadeo de Souza-Cardoso poderia ser outro dos nossos trágicos, não fosse a circunstância paradoxal de se ter tornado imortal por morrer, quando ainda não tinha cristalizado.

            De escola em escola, de experiência em experiência, Amadeo foi um português foragido e essa é a nossa particular tragédia de lusitanos: se queremos ser o que temos que ser é necessário atravessarmos a fronteira e rumar para outros territórios de ar mais lavado, de atmosferas mais cálidas. E assim, este jovem rebelde numa Amarante provinciana e plebeia, em que a própria família lhe esconde, horrorizada, a tela inverosímil, talvez satânica, torna-se parisiense, escapando deste modo à mediocridade e ao olvido.

            E agora volto à primeira pessoa do singular para dizer que os conheço bem, a estes cidadãos de Amarante, terra provinciana escondida nos fundos da serra do Marão, enevoada e densa de uma escuridão que percorre os rostos, também eles nublados, e que se encosta, num oportunismo sem apelo, aos nomes que repudiou, no seu tempo, mas à sombra dos quais se ergue agora.

            Amadeo de Souza-Cardoso, esse amarantino parisiense, foi encontrar a vida em Paris e veio para morrer, numa ironia trágica, na idade de todos os inícios; mas, morrendo, na pureza genial da procura de si, obnubilou a tragédia e passou com brilho à posteridade. Se acaso tivesse vivido mais tempo, decerto se fixaria numa meta ou se deteria num estilo a que chamaria seu. Desse modo permaneceu universal e não conheceu a frieza dura das cátedras entediantes de qualquer mestre.

            Poderíamos talvez continuar, e demorar-nos em Mário de Sá-Carneiro ou em Antero de Quental, esses que a si próprios concederam a dignidade da morte voluntária; ou então evocar Camilo Castelo Branco, outro suicida, marcado pelo estigma da perseguição social e da miséria, escrevendo freneticamente para sobreviver, arrastando o seu espectro fulgurante pela prisão, réu do crime do amor proibido, essa maldição urdida no preconceito e no desencontro. Poderíamos, mas já não queremos continuar por mais tempo nesta primeira pessoa do plural que nos limita.

            A tragédia paira também aqui neste eu narrador que de si próprio se foi ocultando, página após página. Como todos eles, vivo o emparedamento voluntário em mim própria e sinto, quotidianamente o peso de me achar cingida de uma auréola,  simultaneamente mística e terrível.

            Citar-me-ei então a mim mesma e darei, do meu nome, um testemunho já que, por razões óbvias, não será legítimo fazer o meu próprio panegírico.

 

 

 

“ (…) Falei verdade ao dizer que talvez eu seja uma reencarnação de Nietzsche: e esta é uma verdade terrível.

            Parecer-vos-ei superficial por tê-lo afirmado, pois, sem, dúvida – sei-o bem – muitos, antes de mim se acreditaram, precisamente, Nietzsches reencarnados. A História, inclusivamente, registou algumas dessas aberrações, a mais horrenda das quais foi o sanguinário anti-semita cujo nome poluiria este meu manuscrito.

            Apesar de tudo isso, eu creio, muito sinceramente, que dele, para mim, alguma coisa passou. Coisa, digo bem, não me refiro às ideias, que essas são fáceis de plagiar com novo pseudónimo.

            Como ele, vivo solitária entre a gente; como ele fujo dos homens para recantos onde eles me perseguem como moscas; como ele, procuro os pares para construir o falanstério da criação; como ele, sou traída pelos que acreditei pares e a quem entreguei o coração. Também de mim fogem os que chamo para amigos, com medo da pólvora que trago e se patenteia em cada gesto, também de mim se aproximam os tíbios a quererem por a ridículo o meu ser humana. Também eu amo a humanidade que odeio e sou preterida, trocada pelos que me são inferiores. Também eu tenho ânsia de dar e despejo torrentes sobre quem ridiculariza os meus tesouros; também eu subo à cátedra e, tal como ele, atraio os discípulos com o dom da palavra e, também eu, como ele, estou a ponto de despedaçar a cátedra, onde nada posso, sozinha, mudar. Porque, como ele, também estou só, pedagoga num mundo de pedagogos invertidos que, só porque o são em maioria, me olham com o revés da inveja. Como ele, preciso de ouvintes e, como ele, derramo luz sobre quem não conheceu nunca outro reino que não fosse o da penumbra. Como ele sou Solitária, Vagabunda, Errante.

            Portanto, esta reencarnação de que falo não está na ideia, na palavra, na obra: está na carne que é, aliás, o próprio cerne do conceito. E se assumi o aspecto que tenho, é porque o que passou para mim foi o fluxo vital que o animou e que, liberto do cérebro doente em 1900, para mim transitou algumas décadas depois. O que para mim transitou foi o fado, o destino que enche de luz o sonho da metempsicose infindável que ele viu girar à sua volta no rochedo de Sils-Maria a 6000 pés de altitude.

            Acaso? Sim, acaso, porque não?

            O meu destino é este, por acaso. Mas porque não hei-de chamar ao acaso, Deus? E porque não hei-de chamar ao acaso essa fatalidade cósmica chamada alma, cuja missão não realizada pela inexorável fragilidade corpórea se fixou noutro arcaboiço, para concluir a tarefa?

            Eu não sei se acredito no que estou a dizer, mas também não sei o que é acreditar. Acreditar é ver? Ouvir? Cheirar? Palpar?

            Que importância tem acreditar ou não? Que importância tem, afinal, qualquer crença?

            Acreditar é o suporte da fraqueza dos que se sentem vazios, acreditar é preencher o vácuo de que Aristóteles dizia ter a natureza, horror.

            Eu não sei se acredito na reencarnação, mas suspeito-a em mim, fruto, decerto, desse deus-acaso espalhado de estrela em estrela. E a estrela daquele destino foi a que me deu, a mim, à luz.

            E o deus-acaso comanda-me, o deus-destino marca-me o norte, encaminha as minhas mãos nas linhas da ordem, lógica traçada pelos computadores-homens.

            Vivi outras vidas, já disse, e são elas que regressam agora e me dizem que sou e não sou muitas coisas juntas, esta ternura que quer afagar qualquer rosto de cetim, esta ânsia desbravadora de florestas eriçadas de espinhos, navegadora em mares tenebrosos, com o velho Adamastor como companheiro e amigo.”

 

(Excerto da obra Fábulas e Mentiras)

 

 

(continua )

 

           

 

 

 

 

                                            

 

 

 

 

 

 

 

                            

 

            

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Uma resposta to “A Tragédia em Português”

  1. Paulo Roberto Says:

    detido de tudo me sinto anestesiado nada me atunde só me confunde a perfídia calma dos que caminham destino certo que não oquer de antes eram apenasa um só não naõ é nada só o fim…há fim ou salvação eu este mostro mas indigno do que nunca já tem dividido seu coro peço pra sair pela direita…

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