Epílogo

 

 

 

 

 

 

Salvador Dalí

 

 

 

 

EPÍLOGO

 

 

            Depois de escrever o capítulo final, não há dúvida quanto à necessidade de concluir.

            Chamamos de “ensaio” ao trabalho aqui apresentado, como testemunha e sinal de uma vocação humana propensa à tragédia. Tragédia, no sentido de ser o homem munido de consciência, essa voz interior que lhe sussurra continuamente ditames e preceitos provindos das esferas mais subterrâneas ou indizíveis, mas também em conflito perene com o esquema urdido na sociabilidade, de que também é feito.

            Essa atroadora multiplicidade de vozes ou esse número infinito de cambiantes da VOZ condu-lo à contradição, à perplexidade, ao abismo; ou então indu-lo à escolha, por cobardia ou necessidade de sobrevivência, dos padrões colectivos da existência. Em qualquer dos casos temos tragédia, a primeira, explícita, no abandono, na tortura, na solidão, na demência ou no suicídio, a segunda, implícita, no viver conformista ou conformado, na maledicência estéril do que, apesar de tudo, se vai respeitando, no levar a cruz de todos os dias, na busca, tímida ou arrogante, do sucesso, da paz, ou, ao menos, do viver o dia a dia sem grandes sobressaltos.

            Detivemos a nossa atenção em paradigmas da tragédia explícita, daquela que marcou e marca certos homens, excluídos da turba, por natureza, e por ela martirizados, em vida, para dela serem erguidos depois de mortos. Deixámos de parte o segundo tipo de tragédia, talvez o mais dramático de todos, porque envolto numa treva ou num nevoeiro de auto-comiseração ou de auto-satisfação que nada são, mas que, aparentemente, contêm todas as tarefas da humanidade.

            Não poderemos garantir, em absoluto, que o presente trabalho seja, efectivamente, um ensaio.

            Quando efectuámos uma pesquisa sobre a definição e o método (ou os métodos) usados na escrita de ensaios – e realizámo-la após ter escrito a totalidade desta obra – demo-nos conta da quantidade de critérios e de linhas de orientação que, segundo tais fontes, têm que presidir à elaboração de um ensaio.

            Desesperámos, parcialmente, a ponto de pensarmos em atribuir outra designação ao trabalho. Mas, nem por sombras nos passou pela cabeça adaptar o conteúdo do texto às regras convencionadas para a composição de ensaios.

            Mais tarde evocámos um caso concreto da literatura portuguesa contemporânea: José Saramago.

            Por duas vezes, pelo menos, o autor utilizou a palavra Ensaio como componente intrínseca de dois dos seus romances: O Ensaio sobre a Cegueira e O Ensaio sobre a Lucidez.

            Trata-se – sabemo-lo bem – de dois romances; e o romance é, por essência, do domínio do ficcional, pelo que, ao usar a palavra “ensaio” , o autor pôde, com legitimidade, conotá-la a seu bel-prazer e, do mesmo modo, o leitor terá a liberdade de assumir a inserção de tal nome numa obra de ficção, como muito bem lhe aprouver, independentemente das regras e das tendências emanadas pelos doutos.

            E então, ainda que por razões diversas das que decorrem dos romances de Saramago, decidimos manter a designação de Ensaio para categorizar esta obra, não porque se adapte estritamente às normas estabelecidas pelos eruditos, quanto à estrutura e linguagem ensaísticas, mas na justa medida em que nos ativemos ao significado elementar e etimológico da palavra.

            Um ensaio é uma experiência, um esboço, um treino. Um ensaio pode ser um rascunho, um apontamento, uma tese provisória. E o leitor pode sempre continuar a pesquisar, acrescentando novos significados e conotações à palavra.

            Assim, a obra que agora concluímos, é, de facto um ensaio, queiram ou não queiram os eruditos e demais catalogadores da sabedoria.

            Nessa perspectiva convidamos o leitor a considerá-la um tema em aberto, uma exposição marcada pela subjectividade, patente nas escolhas de quem investigou e escreveu, urdida no rigor de fontes seleccionadas, em função de critérios pessoais e, mesmo a bibliografia em anexo, representa um mero suporte para os que, por seu turno, quiserem aprofundar a questão, mas nunca a base decisiva das teses aqui defendidas.

           

            

 

 

 

 

 

BIBLIOGRAFIA:

 

Domenach, Jean-Marie, O Retorno do Trágico, Lisboa, Moraes Editores.

Zweig, Stefan, O Combate com o Demónio, Livraria Civilização Editora.

 Nietzsche, Friedrich, Obra Completa (Várias Edições).

Hálevy, Daniel, Nietzsche, Editorial Inova.

Fink, Eugen, Nietzsche, Editorial Presença.

Hölderlin, Friedrich, Poemas, Edições Asa.

Quintela, Paulo, Hölderlin, Lisboa, Fundação Calouste Gulbenkian.

Kleist, Heinrich von, Michael Koollhas, O Rebelde, Editorial Inova.

Kleist, Heinrich von, O Filho Adoptivo, (Editora Desconhecida).

Stone, Irving, A Vida Trágica de Van Gogh, Editora Livros do Brasil.

Pessoa, Fernando, Poemas, Álvaro de Campos, Lisboa, Ática.

Simões, João Gaspar, Fernando Pessoa – Breve História da sua vida e da sua obra, Lisboa, Difel.

Cobain, Kurt, Odeio-me e quero morrer, Assírio & Alvim

Nirvana, Kurt Cobain, Assírio & Alvim.

Sardoeira, Regina, Fábulas e Mentiras, Edição de autor.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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