Da Rocha se fez Torga

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Em S. Leonardo de Galafura

 

 

 

 

DA ROCHA SE FEZ TORGA – UMA DIGRESSÃO PELOS DIÁRIOS DE MIGUEL TORGA

 

 

 

 

 

 

PRÓLOGO

 

 

 

Miguel Torga pertence àquele raro e privilegiado número de autores que, no acto de escrever, se desnuda, expondo-se. O Diário, escrito e publicado ao longo de décadas e até à morte do escritor, é a prova concludente desse facto.

É claro que este Diário de Miguel Torga não é o verdadeiro diário do Doutor Adolfo Rocha – e, ao confrontarmos estas duas identidades, parece que entramos, desde já numa hipóteses de compreensão. Compreensão do poeta que se oculta no pseudónimo ou do homem que se enuncia, socialmente, pelas informações do bilhete de identidade?

            A ocultação, pelo pseudónimo, a mistificação (assumida, aliás pelo seu autor) de um diário íntimo, mas só até certo ponto, são o indicativo essencial da demarcação entre o homem e a obra, a realidade e a ficção. Todavia, logo de imediato, esbarramos com uma questão tomada como insolúvel – a que diz respeito à dialéctica enunciada: homem/obra; realidade/ficção. Dialéctica, porque se oculta nesta relação uma contradição de princípio; mas, dialéctica ainda, porque essa contradição é o prenúncio e o sinal da síntese de contrários, condição inalienável da vida.

            O autor desnuda-se – mas será o homem, verdadeiramente, o actor desse desnudamento? E a obra que reflecte as marcas existenciais do homem/autor poderá realmente constituir-se no seu retrato fidedigno?

            Para já, detenhamo-nos na questão do pseudónimo.

            A palavra exprime, à partida, um sentido: pseudónimo = falso nome. Deste modo, Miguel Torga seria o falso nome de Adolfo Rocha.

            Basta, porém, fazermos uma análise atenta da afirmação enunciada (ainda que, neste momento, tenhamos tal afirmação encerrada num condicional) para nos questionarmos, uma vez mais: que predicados possuem as palavras, Adolfo Rocha, para, contrariamente às outras duas, Miguel Torga, se guindarem à categoria de “nome verdadeiro”?

            Não será preciso grande perspicácia ou sabedoria para concluirmos que, tais predicados – enquanto predicados – não existem em si.

            Nomes são nomes, designações para os seres, sejam eles quais forem, símbolos necessários para a humanidade poder cumprir aquela que parece ser a sua vocação intrínseca – o gregarismo, gerador do vício alienante da comunicação.

            Gregarismo, e logo forte necessidade apelativa; gregarismo, e logo, quanto ao autor de livros , a vontade imperiosa de se tornar público, expondo-se.

            O nome – Miguel Torga – é, muito mais que os títulos das obras, o seu autêntico e único cabeçalho, a sua significação. Principalmente quando se optou por ocultar ou disfarçar o verdadeiro, o do registo civil, aquele que também o baptismo lhe outorgou para o resto da vida.

            Miguel Torga é, de facto, o título de todas as obras de Adolfo Rocha, na exacta medida em que semelhante personagem, assim baptizada e registada, não escreveu um único livro. Porque Miguel Torga é o único nome do autor dos Diários, o que nega a existência de qualquer Adolfo Rocha na história da literatura.

            Mesmo tendo deste facto uma consciência prévia, achámos necessário escrever esse outro nome, Adolfo Rocha, e tecer estas considerações, para que essas duas palavras nos surgissem em toda a sua vacuidade e nela se anulassem, por inteiro.

            Miguel Torga é, como referimos antes, um título atribuído a si mesmo por um Adolfo Rocha civil, e, por isso, o resultado de uma escolha pessoal. Nele estão contidos o nome próprio – Miguel – e o apelido – Torga – marca de família, indício de raiz genealógica. Porque todos temos um pai e uma mãe, e o homem/autor não representa uma excepção, há que assumir uma fonte genética, adequada à personagem com que decidimos actuar no mundo.

            Miguel – e lá vem o iberismo torguiano, a síntese almejada pelo espírito luso de um homem sempre irmanado com a pátria vizinha, irmã quase gémea de nossa, quando não matriz identificadora, pedaço arrancado às fronteiras de outrora, em luta pouco menos que fratricida. Miguel de Unamuno, Miguel Cervantes eis a simbologia patente na escolha do pseudónimo, nome próprio do poeta, que deste modo quis irmanar-se com esses outros génios ali, ao virar da esquina de Portugal.

            O nome próprio é a preferência dos nossos pais; e o poeta, ao tornar-se pai de si próprio optou por designar-se a si mesmo à semelhança desses dois grandes ibéricos, numa homenagem e numa consonância fraterna.

            Torga é nome de planta e poderia estar quase tudo dito, se nos ativéssemos simplesmente à génese intensamente telúrica do autor, se ele próprio fosse, apenas, a humanização dos troncos ancestrais da sua terra natal e se o sangue que lhe corre nas veias tivesse apenas o verde perene da primavera anunciada na seiva, nutrida no solo rude das fragas transmontanas. Mas torga ou urze é também um arbusto pequeno, invisível quando isolado na imensidão de uma montanha, igual a qualquer outro enquanto não desponta, com a primavera, a miríade de pequenas flores rosadas ou brancas e, em conjunto, tecem mantos de encanto e majestade de que a simples criatura isolada não é capaz por si só.

            Torga é assim, a humildade e a pequenez, a fragilidade e a tenaz luta pela sobrevivência de um arbusto bravio que, apesar de tudo só adquire sentido na ligação aos seus irmãos – o sentido combinatório da natureza, e o sentido profundamente humanístico do homem, que quis chamar-se Torga.

            Miguel Torga não quis ser, literariamente, Rocha – e era este, afinal, o nome do seu Pai; contudo, ao fazer-se Torga, ele não negou a Rocha que lhe deu o ser; pelo contrário, fecundou-a, renascendo planta, capaz do fruto.

            Genealogia simplista, esta? De modo nenhum.

            O Pai de Torga foi a Rocha viva de onde o escritor retirou a seiva, foi o modelo da desbravação do húmus onde o escritor recolheu o exemplo: porque ele era um camponês e ensinou o seu filho criança a cavar pedaços difíceis, a arar terrenos estéreis para deles fazer brotar o milagre vivo do caule e da flor.

            Longe de ocultar o nome do Pai num pseudónimo (=falso nome), Miguel Torga fez-se, nele, verdadeiramente o filho da terra, o herdeiro do cavador transmontano – Rocha que a morte não quebrou, porque se tornou terreno fértil, prenunciador de sementes.

            Chegou, de certo a altura de nos retractarmos, colocando uma outra questão: o pseudónimo, Miguel Torga é uma ocultação ou um desnudamento? É a recusa do ascendente paterno ou a sua revivificação desejada e obtida?

            Só conhecemos um meio de responder a esta questão e ela passa, não pelo desvendamento indecoroso das pequenas vicissitudes biográficas do escritor, mas pelas linhas dos seus livros – entidades tornadas autónomas no acto da publicação, outros tantos frutos vivos da Torga que lhes deu o ser.

            Ocultação e desnudamento, negação paterna e revivificação essencial numa dialéctica consentida; portugalidade na Torga e iberismo no Miguel – eis a razão de ser do pseudónimo literário do escritor. Mais ainda: a necessidade de ser único, de nascer por auto-génese, de proferir o Fiat Lux, de se moldar no seu próprio barro. Afinal, o querer ser deus na escala possível, o querer ser filho de si próprio, num parto transcendente.

            Tais desejos não são pertença exclusiva do artista – qualquer que ele seja – mas comuns (e mesmo inalienáveis) a toda a humanidade.

            O artista cria uma obra que a publicação autonomiza, que a crítica perverte, que o tempo desgasta que, enfim, é submetida pelo próprio criador ao julgamento do futuro, à solidão irremissível do abandono. Ele sofre a separação do seu fruto: mas, realizar-se, enquanto criador, é condenar a criatura a semelhantes penas. Ser deus é expelir excessos, a um tempo amados e rejeitados – e é esse o destino trágico de tudo o que vive. Pela consciência, o homem aderiu a um nível superior de entendimento das coisas e, de imediato, distanciou-se da natureza, onde o nascer e o morrer não perturbam o equilíbrio essencial: ele quer mais do que esse nascer e morrer que nenhum rasto visível deixa permanecer: quer perpetuar-se numa obra que o diga aos tempos futuros.

            A árvore que se planta, o filho que se faz nascer, o livro que se escreve – em cada uma destas obras e em todas elas reside o desejo recalcado de assumir, pela obra, a categoria divina. Os homens são, deste modo, deuses caídos em desgraça à procura  da redenção, só possível, de facto, no acto criativo.

Voltemos agora ao parágrafo inicial: Miguel Torga pertence àquele raro e privilegiado número de autores que, escrevendo, se desnuda e se expõe. O Diário escrito e  publicado ao longo de décadas e até à morte do escritor é a prova concludente desse facto. , e continuemos a partir daí.

            Porque acreditamos nesse desnudamento voluntário, ainda que por detrás de um pseudónimo e vertido em obra literária, porque estamos convictos da autenticidade existencial do Diário quisemos fazer dele o objecto privilegiado do nosso estudo.

 

 

 

                                                      (Continua)

Uma resposta to “Da Rocha se fez Torga”

  1. Joaquim Says:

    È com muito interesse que acompanho sempre os teus textos, e este vou precisar de o reler.
    Bem hajas Regina…
    Bj.

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