Vestida de roxo esteve a viúva que não foi esposa

EGON SHCIELE, AGONY

 

 

 

 

                                                    VESTIDA DE ROXO ESTEVE

                    A VIÚVA QUE NÃO FOI ESPOSA

 

 

 

Vazios e fantásticos corriam os tempos pelas alamedas dos desertos esculpidas em prodígios de cerâmica e os ouvidos cedo se habituaram à vastidão enquanto os olhos se abriam até à desmesura obnubilando atrás deles tudo o que era cinza e obscuridade eu não soube quando parti mas sei que aquele oásis perdeu a frescura  como se um verão nunca imaginado ali se tivesse detido por um tempo diminuto as palmeiras deixaram pender as tâmaras que se abriram em feridas e solveram em charco sangrento tudo o que era fonte ou lago cristalino por isso preferimos a abordagem convicta do deserto íntimo de serpentes e tornámo-nos amigos desses seres que aprenderam a rastejar e só erguem  a cabeça para rir do cinismo dos homens riso ou silvo que importa tudo é  uma metáfora só como se jamais pudesse haver verdade e os signos com que nos denunciamos a nós e perante o mundo não passassem das conchas despejadas daquele oceano que já foi pleno de vida mas que morreu no  estertor de uma madrugada ouvimos tambores e tinidos  de guizos e nem sabíamos se eram os coros metálicos de qualquer hino viciado nas esferas tonitruantes onde as estrelas se acoitam ou se iríamos ser descobertos por aquele exército pobres fardas feitas mortalhas de moribundas presas de um tirano feroz eu sei que não te julgas tirano e até pensas que te adornam as virtudes dos grandes mas espreita espreita bem por dentro do teu vestuário puído espreita nos bolsos vira-os do avesso se tanto for preciso e encontrarás o bolor e o visco de uma podridão que não soubeste deter a tempo eu vi e por isso preferi a senda nunca trilhada daquela amplidão onde marcarei os meus passos como inscrições logo sumidas na evanescência das areias pulverulentas e nem tu nem os outros poderão encontrar o meu rasto se quisesses se tivesses querido eu estaria lá e nesses coxins feitos cetim espalharíamos tesouros e preces mas preferiste o teu rumor alienado o descanso cómodo do teu corpo lasso em vez de rasgar uma ou outra vez a pele na mordedura do eu que elegeras para depois destronares em vez de riscares o teu sangue à porta da nossa morada o deserto serve bem o deserto convém à grandeza e à solidão e também ao desejo de lonjura e de infinito que a vista perde e o ouvido nunca alcança foste tu que ditaste esta sentença de olvido erguida a cabeça e torcido o corpo num enviesamento superficial em vez de mergulhares a pique nos oceanos balsâmicos que se te abriram serenos em noite de lua não adianta acusar a montanha porque não quis perder um milímetro da sua estatura  ela era montanha e mar e abismo e também muitos ruídos prestes a acenderem-se em música para a qual se cerraram os tímpanos do que não quis ouvir hoje cumpriu-se o pacto nesta página roxa como os véus enviuvados de quem não chegou a ser desposada em noite de Outono

 

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