A Minha Aldeia

 
 
[IMG_3099.JPG]
 
Canadelo, Amarante (Serra do Marão)
(Fotografia de Hélder Barros)
 
 
 
A MINHA ALDEIA
 
 
A minha aldeia fica entre montanhas
De gigantesco porte desolado,
Que ciclópicas mãos,
Em primitivas eras, modelaram
Com fragaredos nus e terra negra!
 
Há montes que do caos dimanaram,
Em louca desfilada,
E ficaram suspensos do infinito
Como tomados de íntimo pavor!
O derradeiro gesto eternizou-se…
que no mundo só fica e permanece
A tragédia das coisas e dos homens.
 
Nela se cruzam ventos rumorosos,
Que, nos pinhais noviços,
Ensaiam, altas horas da noitinha,
Bailados demoníacos.
 
Ó vento rugidor! Remoto espectro
Do mar camoneano e tormentoso!
Tu recitas estrofes escabrosas
De algum velho poema indecifrável
Do tempo dos titans!
 
A minha aldeia é cheia de carreiros,
Que vão de monte  a monte…
E, pelas tardes êrmas,
Meus olhos vão enchê-los de figuras,
Apagadas na noite de além-mundo,
E que à força de sulcos e pègadas,
Os abriram à vida!
 
São delidas imagens que perpassam
Nos caminhos desertos…
Mendigos de olhos fundos, encovados,
Sacos vazios no ombro…
Lenhadores hercúleos carreando
Molhos de tojo e de urze reflorida…
Pobrezinhas crianças andrajosas
Anémicas e tristes,
E loucos que arremessam grandes pedras
Aos demónios da sua fantasia
E que fôram, talvez, os seres primeiros,
Que, nas vertentes rudes,
Abriram os caminhos tortuosos,
A passos de loucura!
 
E, nos carreiros êrmos, lá vão eles,
Lá vão êles, também,
Os meus passos, já dados, que não voltam!
E lá vou eu, agora, a repetir,
Nos torcidos atalhos da memória,
As pègadas que dei, uma por uma,
Nos caminhos do mundo!
 
(…)
 
Ilídio Sardoeira, Excerto do Poema A Minha Aldeia, 1940
 
 
 
Ilídio Sardoeira
Poeta, professor, escritor e conferencista

Ilídio Ribeiro Covelo Sardoeira, escritor, poeta e conferencista, nasceu na freguesia de Canadelo em 12 de Novembro de 1915. Licenciado em Ciências Biológicas, exerceu a docência, foi director da "Voz do Marão" e "Alma Nova" e colaborador de muitas publicações, entre as quais as revistas "Vértice", "Seara Nova", "Labor", "Lusíada" e "Átomo".

De entre os escritos que publicou, referem-se, de forma aleatória: "A minha Aldeia", "Pascoaes – um Poeta de sempre", "Provas", "História do Sangue"", "Nota à margem de dois livros" , "Influências do Principio da Incerteza no Pensamento de Pascoaes", "A Origem da Vida", "Poemas".

Uma resposta to “A Minha Aldeia”

  1. Alcyone Says:

    Quem me falou de Ilídio Sardoeira pela primeira vez foi a minha Professora de Ciências Naturais, no Colégio João de Deus, a Drª LUISA CORTESÃO, sobrinha do Jaime Cortesão, com o mesmo entusiasmo~
    com que referia Abel Salazar!

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: