Traidor

 

 

 

 

                                      

 

 

                                                    MAGRITTE 

 

 

                             

 

 

 

                            O TRAIDOR    

 

 

 

 

 

 

A catedral batia doze horas lentas…seria a catedral que batia? Ou não seria antes o óbvio sino da catedral? Ou talvez fosse o grande relógio de ponteiros iridiscentes…Ou o bico das corujas na torre ruinosa… Ou seriam os joelhos das viúvas macerando as lajes?… Seriam as lajes maceradas pelos joelhos? Ou não seriam eles os macerados?

A catedral batia doze horas…sim, era a catedral que batia.

O violino tocava um mendigo e a canção subia no ar como um gemido… um gemido de mendigo. O violino tocava um mendigo triste e cego como essa canção… e a catedral era uma praça de frios mosaicos.

Passava a rua sob a gente, a rua mais viva que a gente…e a canção do violino com sons de mendigo subia em volutas para o fumo dos céus.

Corriam nuvens em baixo do azul, como se os farrapos fossem o vestido branco da pureza… e o sino da catedral, gravado em bronze, era a promessa muda do silêncio.

A criança passou. Trajava amor e na cabeça tinha um halo de luz como toucado. Vibrou no ar a música-mendigo, pungente como ferida rútila…e a criança estremeceu, sob o azul, aos farrapos de brancas nuvens.

Foi então que soou a trombeta. E o espaço tremeu, como um grito na madrugada cor-de-rosa e fogo.

Voaram penas e voaram pássaros desplumados: a canção-mendigo era agora um choro.

Choravam as lajes da calçada, chorava o vento arrancando as folhas, choravam pássaros, espalhando as penas… mas o céu, sob as nuvens brancas era azul como o martírio.

A catedral já não batia doze horas, já não batia nenhuma hora, já nem sequer havia catedral. Mas havia ainda um violino e os joelhos das viúvas…Havia ainda o som do violino e os olhos cegos do mendigo…quanto à criança, há muito que perdera o seu halo de luz.

E uma voz gritou no silêncio estentóreo: AMOR!

Ninguém falou. Foi como se, de repente, o universo inteiro gelasse de pavor.

Amor! E tombaram no chão os pássaros implumes.

Amor! E partiram as cordas do violino do mendigo.

Amor! E também o arco se despedaçou no chão.

Amor! E vergaram de vez os joelhos tristes das viúvas.

Amor! E voaram sem rumo as corujas da noite.

AMOR!… repetiu o eco.

Mas só lhe respondeu o silêncio, sob as nuvens, sob o céu aos farrapos de azul.
A catedral era agora uma nuvem. Sob os céus, a catedral levantava as suas agulhas finas para a terra… e um órgão ribombou as notas sublimes da ameaça. Um órgão e um anjo, cindindo as nuvens, como se a tempestade não pudesse deixar de ser um raio pendurado numa espada…

Reboando nas nuvens, corriam notas de órgão, estertorando raiva.

De pé, sobre o pináculo da montanha, erguia os dedos a criança, outrora amor, e tentava tocar as faíscas de luz. Mas a luz negava-se a iluminar o mundo cinzento da criança: é que Prometeu já não tinha o fígado devorado, Prometeu era agora feliz no Olimpo e ria-se dos homens, às cegas, sob a luz. Prometeu depois de trair os deuses traía os homens… e acaso não é essa a condição do traidor?

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