Urdiduras satânicas

 

 

 

Urdiduras satânicas

 

 

 

 

 

 

 

 

Havia um gato que miava no telhado de plástico da vivenda senhorial dos Sousas. Miava o gato e através dos miados soava a música dos ruídos selváticos saídos das entranhas da terra. Havia um coro de molas e os colchões  despediam chispas por entre a luz dos corpos apoiados nas sombras. O jardim tinha frutos pendurados nos postes telegráficos e, quando havia vento,   tilintavam as campainhas e sorriam os abutres. Quando o deus chegou, perguntou à chuva se o mar bramia ou se era apenas a voz enrouquecida da dama de ligas nos joelhos. E a chuva respondeu que o acaso, afinal, era ainda a resposta para os sonolentos bocejos das virgens e dos eunucos  quando o sol se desprende. Encaminhámo-nos então para a cisterna onde ladravam os cães de todas as vozes oprimidas e onde, através dos suspiros, se divisava a cólera da  gargalhada surda da flor e do abismo. À cabeceira da cama, entre jarrões de espuma e plantas de antiquário, havia um hino báquico pendurado em cravos de crucifixo. O leitor dormia, de bruços, e, no sono, as pálpebras erguiam-se ao som da tempestade. E o trovão era uma carranca de mistério.

Percorremos a casa enlaçados ao desejo e os tapetes abafavam o som dos nossos gritos. Uma ponte rugia sobre o abismo colérico e os homens atiravam pedras às ruínas ferrugentas.

Havia um cano de espingarda apontado na direcção do sol. E quando eu me aproximei vi apenas farrapos que eram  as cadeiras de braços de todos os vagabundos.

No meio do caos, entre tíbias desemparelhadas e córneas retorcidas, o fantasma desejou-me boa-noite e eu soube que  fazia anos, pois nunca antes ele me tinha dito fosse o que fosse através da orla indecisa do lençol esburacado. Atrás dele caminhavam pedaços dispersos de estrelas cadentes e um orvalho matinal descerrava as trevas no céu aberto pelas tempestades crepusculares de muitos outonos acumulados, despedindo chispas contra os relógios de bolso dos peralvilhos ensonados. Cedo  se ouviu o silvo hiante de um comboio e, por entre a planície desmascarada à frente do seu único farol, como se fosse dia e não a mais cerrada das noites, um monstro de aço ferrugento ergueu as mandíbulas e tragou de uma só vez tudo o que afinal vivia nas trevas do acaso.

Deus navegava numa arca minúscula e o seu ventre, nutrido de muitas refeições opíparas, escorregava dos assentos demasiado gastos para que ele se debruçasse da janela e atirasse flores aos vampiros descobertos.

Não sei dizer o que aconteceu, mas, bruscamente, a terra girou como se fosse um pião: eu vi, eu soube, porque aquilo não podia ser o vento, e os terramotos têm um aroma diferente quando rasam as manhãs claras no meio dos gerânios;agarrei-me a ele enquanto as paredes se contorciam animalescamente e percebi que os vulcões da lua são régias catedrais onde os salteadores depositam os tesouros e as burlas.

E, no meio do silêncio, entre armaduras reluzentes e botas esburacadas, o grito soou numa rédea solta de ecos sinfónicos, por entre as trevas embrutecidas e os silêncios desmentidos em palavreado acre.

 

ECCE HOMO!

 

E foi assim que soubemos que se cumprira o rito bárbaro das urdiduras satânicas, apesar de tudo estridentes como coros de anjos loiros, essas crianças prodígio inventadas pelas rãs e mistificadas nas aventuras da espuma e do segredo.

 

 

 

 

Uma resposta to “Urdiduras satânicas”

  1. Alcyone Says:

    «DICHTER» e «DENKER» caminham a par…Belo e profundo!

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