Um Homem Morre

 
 
                                                                                                                                                     
                                            
 
 
 
 
                                                    
 
                                                                                          KLIMT, LIFE AND DEATH
 
 
 
 
Um homem morre um certo dia e leva consigo o segredo da vida ninguém jamais poderá equacionar o peso dos momentos decisivos ou adivinhar os pensamentos fugidios que lhe perpassam a mente no segundo derradeiro Dizemos derradeiro e nem tão pouco sabemos se este derradeiro será de facto derradeiro para aquele que morre escapa-nos essa dimensão intangível escapa-nos esse suspiro final esse parar lento do coração esse balbucio lento do cérebro que talvez não seja capaz de registar o instante final e  se achamos que existe um depois um para além das fronteiras do corpo e das energias palpáveis da matéria é na exacta medida em que a racionalidade quantas vezes disfarçada de crença ou de religiosidade recusa a finitude e prende-se de modo obsessivo ao prodígio da eternidade feita espírito esvoaçando etereamente na dimensão do infinito Conceptualizar a morte não é possível nunca e por isso quedamo-nos perplexos defronte desses umbrais misteriosos para nós e no entanto naturais na dialéctica da existência e da vida antítese propulsora de uma síntese criadora em que da terra nasce vida e da vida nasce terra Acrescentamento decerto chegará a haver ou talvez o próprio acrescentamento a que chamamos muitas vezes evolução não passe do ciclo vicioso dos acontecimentos terrenos esses que se desdobram à superfície de um planeta rolante incansavelmente rolante em torno de si mesmo incansavelmente rolante em torno do astro de onde recebe a luz e a seiva
Um homem morre e passa a ser um rasto de memória uma poeira de tempo um pequeno traço entre  duas datas limites um intervalo sempre considerado curto por mais extensa que tenha sido a duração medida em anos desse lapso de respiração desses batimentos compassados de um músculo propulsor corrente de vida marcador de emoções
Um homem morre e escrevemos uma espécie de murmúrio reminiscente onde as palavras são ecos de sons que ouvimos de latejar de pulsos de olhares derradeiros desse que outrora se ergueu impante para o âmago das coisas terrenas e acabou perdido de si como despojo para a terra e para os outros Nada mais pode acrescentar-se já que a dialéctica se cumpriu

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