Ouve

 

 

 

 

 

GOYA, Colosso

 

  

 

OUVE

 

 

 

 

 

 

 Ouve:

pode ser que não entendas

mas ao menos tens ouvidos

e neles cabe

o sopro da minha voz

 

 

Digo-te que havia amarras

no tempo das origens

quando éramos prisioneiros de  castelos fortificados

e  levantáramos  pontes levadiças sobre  fossos

onde lançáramos os nossos dragões

 

 

Não deixávamos que entrasse ninguém

embora víssemos

de um lado para o outro da paisagem

outros castelos

outras pontes

outros fossos

e outros animais

 igualmente iracundos

 

 

Mas agora ouve:

esse tempo deixou de ser

porque o não-ser se interpôs

na sua obscena crueldade

e fez ruir a montanha

 e com ela as pedras dos castelos

a solidez das pontes

e até

o bafejo rouco das feras pestilentas

 

Ouve:

agora é a aurora do mundo

o esplendor da vida

o campo está semeado

a relva agita-se

na brisa da manhã

temos um regato e pombas

e tanto quanto vêem

os olhos que também temos

nenhuma muralha  esconde

o esplendor do sol em ascensão ininterrupta

 

 

Por isso

ergue-te da esteira

em que te encolhes

como se tivesses gelado

o sangue que te cria

e ouve:

 

 

Há um prado verdejante

na luz do nosso olhar

e mais do que uma andorinha

nos sobrevoou a cabeça imóvel

pedindo que a seguíssemos

num rasto de azul

 

Anda:

já é tempo

 

 
 
 
 
 
 
 
 
 
 

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