A Máscara

 
 
 
 
 
                    
 Salvador Dalí, Canibalismo no Outono
                                                                                                                 
 
 
 
A MÁSCARA
 
Estou-me a ver como num sonho: o mundo é uma cidade ao sol poente, uma cidade com uma enorme avenida que a corta de ponta a ponta.
Estranho!…Estou sozinha nesta cidade, no crepúsculo silente deste dia eterno. Os meus passos ressoam no pavimento lajeado, a minha sombra adensa-se, esfumada na luz moribunda, e nem um corpo se move comigo nesta rua estranhamente morta. Cheira a morte, o silêncio é tétrico.
No entanto, os últimos raios de sol fazem cintilações no mármore polido do solo que piso, o oiro e os cristais brilham nas fachadas ricas, há em todo o lado um sinal inequívoco de vida. Mas porque estou só? Que cidade é esta, que mundo é este, em que nem uma flor cresce nos muros, nem um pássaro canta, nem uma árvore estende os braços para o céu?
Apenas a rua polida e brilhante e as casas, alinhadas e rígidas, de austeras fachadas cintilantes.
Subitamente, um golpe de vento, quando o sol se esconde de todo, faz mover uma porta rangente. Volto-me. É a mais alta das fachadas, tão alta, tão alta, que as suas torres pontiagudas perdem-se no infinito e o seu porte majestoso parece desafiar qualquer intempérie. Mas a porta pende, como que arrancada dos seus gonzos, e é tão frágil que qualquer criança débil a pode arrancar dali sem esforço.
Aproximo-me, receosa, de olhos presos no mistério da luz baça que se coa do interior. À medida que me aproximo, um cheiro acre, um cheiro fétido, vai-me chegando e envolvendo. Cambaleio, agarro-me à porta numa vertigem de horror. Solto um grito. Aos meus pés, com um esgar terrível, de olhos vítreos e corpo retorcido, jaz um cadáver tumefacto. Forço a entrada, sedenta de descobrir  o mistério da cidade adormecida. A porta cai apodrecida e…oh visão inesquecível… por detrás da fachada de torres pontiagudas nada existe, apenas trevas e cadáveres putrefactos, ruínas bolorentas, vermes que rastejam. Saio a correr, abro, uma após outra, todas as casas da brilhante rua. E sempre o nada, pior que o nada, sempre a morte, a ruína, o nojo, sempre as trevas, a solidão, o silêncio…
Com o peito a arfar, chego ao fim da avenida: as casas brilham, agora ao clarão da lua, parecem espectros e têm a morte estampada no rosto.
Mas… lá ao longe, um ponto desloca-se, um ponto que vai crescendo e arrasta os passos pelo pavimento liso.
Esbugalho os olhos, ainda sem ver, mas um raio de lua atinge o meu alvo e eu, quase exangue, contemplo o mais horrível de todos os seres.
Com passinhos miúdos, melífluos, ele limpa a rua por onde arrasta os passos, pendura-se nas casas e dá brilho aos batentes metálicos, faz nascer a ordem na cidade morta.
Aproximo-me. Quero falar-lhe, pedir-lhe que desvende  o segredo mas – visão inominável! – aquele ser terrível não tem cara, é a ausência total de todas as expressões e, no entanto, em amálgama indiscernível, parece-me possuir todos os mistérios. Não me vê: continua arrastando pés que não são pés e, com mãos que não são mãos, vai varrendo e limpando incansavelmente.

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