Grandeza traída

 
 
 
 
 
René Magritte, Os Amantes
 
 
 
 
 
GRANDEZA TRAÍDA
 
 
 
 
Ouve:
o vento que há pouco soprou
 embaraçando de folhas
 o mar dos meus cabelos
 trazia-me ecos de ti
feitos perfumes e luz estonteante
 alimento dos sentidos lúcidos
 (apesar de tudo lúcidos)
 e abertos
 na temporalidade de um mar de improvisos
 onde nasceram pérolas iridescentes
 e navegaram suaves embarcações
 engrinaldadas de brilhos
 de oiro ou de magia
 
 
Ouve:
cada noite
traz diamantes em bruto
 cuja luz cintila
apesar de uma certa escória
 que a chuva acrescentou
 por debaixo das folhas deste verão outonal
 apesar do tumulto de muita encenação
 feita de ruídos dispersos
 (e outros segredos)
 mas o brilho
 havemos de vê-lo
 quando a lua abrir
 a cratera das nuvens

Ouve:
 estou a dar-te estas palavras
 (num improviso desajeitado)
 e troco as letras
 porque elas saem da ponta dos dedos
 e não vão direitas ao teu rosto
 mas sim a duras teclas
 de que não sinto calor ou meiguice
 perdoa se não são perfeitas
mas perfeito é o gesto que as leva
 daqui para aí
neste milagre de abundância
 que nos aconteceu

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