O Estádio Religioso da Existência

           

 

 

 

                                                                   

 

 

 

                                                                       

 

 

 

 

 

                                                            O ESTÁDIO RELIGIOSO DA EXISTÊNCIA

 

          

 

 

            Descobri que atingira o estádio religioso da existência, uma certa manhã em que assistia ao filme A Última Tentação de Cristo de Martin Scorsese, baseado na obra homónima de Nikos Kazantzakis. Estava a vê-lo com os meus alunos de Filosofia e pretendia, ao mostrar-lho, que eles entendessem, de um modo, simultaneamente estético e lúdico, os estádios da existência do filósofo dinamarquês, Sören Kierkegaard.

 

            Escreve Nikos Kazantzakis:

 

            «A dupla substância de Cristo foi sempre, para mim, um mistério profundo e impenetrável: o desejo apaixonado dos homens, tão humano, tão sobre-humano de chegar até Deus – ou, mais exactamente de voltar a Deus e de se identificarem com Ele. Essa nostalgia, umas vezes tão misteriosa, outras tão real, abriu em mim feridas, grandes feridas.

            Desde a minha juventude que a minha maior angústia, a fonte de todas as minhas alegrias e amarguras tem sido esta: a luta incessante e impiedosa entre a carne e o espírito.

            Dentro de mim, as forças tenebrosas do demónio, antiquíssimas, também elas tão velhas e mais velhas do que o homem. E a minha alma era campo de batalha onde se afrontavam esses dois exércitos.

            Todo o homem é um homem-Deus, carne e espírito. Eis porque o mistério de Cristo não é somente o mistério de um culto particular, mas diz respeito a todos os homens. Em cada homem explode a luta de Deus e do homem, inseparável dos seus desejos de reconciliação.

            Cada momento da vida de Cristo é uma luta e uma vitória. Ele triunfou do irresistível encanto das simples alegrias humanas, ele triunfou da tentação; transformou sem cessar, a carne em espírito, e prosseguiu a sua ascemsão; chegou ao alto do Gólgota e subiu à cruz.

            Mas o seu combate não acabou ali; na cruz esperava-O outra tentação, a última. Num clarão rápido, o espírito do mal colocou perante os olhos desfalecidos do Crucificado a visão pérfida de uma vida pacífica e feliz; enveredara – foi a visão que teve – pelo caminho uniforme e fácil do homem, casara, tivera filhos, os homens amavam-n’O e estimavam-n’O; e agora, já velho, estava sentado em frente da Sua casa, lembrando-se das paixões da juventude e sorrindo satisfeito. Como procedera bem! Que sensatez, a de ter seguido o caminho dos homens, e que loucura se tivesse querido salvar o Mundo! Que alegria o ter escapado aos sofrimentos, ao martírio e à cruz!

            Foi esta a última tentação que, pelo espaço de um relâmpago, perturbou os derradeiros instantes do Salvador.

            Mas, bruscamente, Jesus sacudiu a cabeça, abriu os olhos e viu claro; não, não tinha traído, louvado seja Deus, não havia desertado, tinha cumprido a missão que Deus lhe confiara, não se casara, não vivera feliz, chegara ao cimo do sacrifício e estava pregado na cruz.

            Fechou os olhos, satisfeito. Então, ouviu-se o grito triunfal: Tudo se cumpriu!

            Foi para dar um exemplo supremo ao homem que luta, para lhe mostrar que não deve recear o sofrimento, a tentação e a morte, porque tudo isso pode ser vencido e foi já vencido, que este livro foi escrito. Cristo foi crucificado e, então, também a morte foi vencida.

            Este livro não é uma biografia, é a confissão de um homem que luta. Publicando-o, cumpro o meu dever.»

 

Nikos Kazantzakis, A Última Tentação de Cristo, Círculo de Leitores

 

           

 

            Esta história, exploradora da dualidade presente em cada um e, por isso, possivelmente, também presente em Jesus Cristo que era um homem, sujeito às tentações da carne, fez-me entender a impossibilidade de recusar a missão suprema, a partir do momento em que ela se revela, fez-me sentir que uma vez dado o salto numa certa dimensão, todo o recuo traz imponderáveis prejuízos e atrasos lamentáveis.

            E foi nesse momento que eu soube que tinha dado, em definitivo, o salto para fora da existência concreta, vivida na dimensão ética, de que fala Kierkegaard, que estava sozinha comigo mesma, sem ligações carnais ou de comunhão de vida com ninguém, para aceder, em pleno, à minha missão no mundo. Soube-o e emocionei-me, sem ninguém perceber, na obscuridade propícia da sala, soube que havia para mim uma missão superior e que a ela deveria devotar-me, daí em diante, sem quebras ou desalentos. Foi uma tão poderosa evidência, que não me ocorreu questionar aquela espécie de mandamento, simultaneamente interior e exterior, pois, nascido do fundo de mim, encontrava eco na vida que levava então, envolvida em tarefas de carácter mais amplo, viradas para as obras, para o mundo, para uma espécie de desejo redentor de mim, dissolvida nos outros. Soube, ali mesmo, que estava tudo certo, que não iria daí para a frente deter-me no envolvimento com um outro eu, nem constituir família, nem ceder a nenhum dos compromissos habituais. Aliás, tudo isso já me havia acontecido; e, se chegara até ali, sozinha, de laços cortados com os companheiros do passado, era para me voltar, inteira, para uma tarefa maior, ainda que solitária.

            Kierkegaard chama a este estádio de religioso e ele próprio o alcançou, após uma existência vivida, primeiro, no delírio da sedução descomprometida – o estádio estético – depois, na assumpção do noivado e, por isso, imerso no compromisso – o estádio ético – e, por fim, rompido o noivado que não pudera nunca consumar em casamento, a chegada ao auge da existência. Religioso, não porque necessitasse de tornar-se membro de qualquer religião, não porque necessitasse de vestir um hábito e partir para um convento, mas porque a sua tarefa de escritor e panfletário lhe exigia devotação extrema, sem outras interferências.

            Sem imitar o filósofo dinamarquês, mas conhecendo-lhe o pensamento existencial, de uma forma exterior, entendi, ali, nas imagens extraordinárias do filme de Scorsese, o sentido íntimo do paradigma daqueles estádios existenciais. Soube que, atingido a auge, na fruição dos compromissos éticos da família e dos liames sociais, só teria, daí em diante, que enveredar por uma existência rectilínea, virada para a minha tarefa adiada de seguir a minha vocação mais nobre. Tornar-me-ia verdadeiramente escritora, faria das minhas obras monumentos de significado humano e existencial e nenhuma outra paixão poderia, doravante, turvar o lago pacífico dos meus dias.

            Consegui viver assim durante seis anos, iniciei a minha carreira literária com uma obra que – eu sei-o bem – dará frutos abundantes em tempo propício. Mas não descansei por aí, e outras nasceram, vindas de outras fontes do meu eu e estão prontas para acorreram, a cumprir o seu papel. Dispus-me mesmo a permanecer póstuma, pois pouco importa que não me queiram ou não me entendam neste tempo: eu sei que a perenidade está ali, presente nas páginas dos meus livros – quer os que já viram a luz, quer os outros, que ainda dormem numa existência penúmbrica.

            Eis-me, pois, imersa no estádio religioso, eis-me virada por completo para um objectivo radioso, onde as obras têm que ser o fim e o meio…

            Quando alguém aparece e deseja viver comigo outro tipo de existência, eu não posso aceitar e viro as costas, afastando o tentador; mas, se acaso me surgir alguém que traga impressa nos sinais uma idêntica missão, ele terá que percebê-lo em si, primeiro, ouvir a história que tenho para contar-lhe, acreditar em cada um dos seus episódios e saber que, a partir do momento em que aceite comprometer-se comigo, penetrou, também ele, na esfera religiosa…à maneira kierkegaardiana, é claro.

            Se assim não for, os equívocos virão, num crescendo de episódios míseros, a raiva e a incompreensão terão que intrometer-se no âmago de uma união, urdida em desigualdade de critérios. E pode ser que alguém se fira e nunca venha a entender que cruzou com uma personagem imbuída de uma tarefa sagrada e que necessitará estar à altura de semelhante padrão, para que não sejam cometidos sacrilégios deploráveis.

 

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: