PIRÂMIDE (segunda parte)

 

 

PIRÂMIDE

ALEGORIA FILOSÓFICA

 

TEATRO

 

 

                                                                                                           (Segunda Parte)

 

 

(Enquanto a Humanidade fala, entram a Razão e a Experiência e vão estendendo um tapete vermelho. Majestoso, Hegel avança sobre ele, mas detém-se, escutando, e faz um gesto à Razão e à Experiência para que parem.)

 

 

HEGEL (Para a Humanidade.) – Que língua é essa que tu falas? Que algaraviada horrível! O mundo perdeu a sua dignidade!

 

 

HUMANIDADE (Debatendo-se.) – O sonho! Deixem-me contar o meu sonho!

 

HEGEL (Avançando uns passos, depois de a Razão e a Experiência terem acabado de estender o tapete.) – Sonho? Bêbada, rastejando, tu representas a Humanidade decadente que urge suprimir… (Para o Polícia.) Prende-a, leva-a!

 

 

            (O Polícia força-a avançar para o seu canto, dá-lhe whisky. Ela debate-se.)

 

 

HEGEL (Avançando para o centro da cena, enquanto a Razão e a Experiência se colocam, como pajens, uma de cada lado de Hegel. Contempla todo o grupo com desprezo.) Deixa-me ver bem. (Olha para todos eles, atentamente.) Falta um, perdeu-se decerto nos torvelinhos da crítica. Ah! Ah! Ah! Que grupo miserável! Olhai o que fizestes da Humanidade, vede como ela se contorce no seu canto! (Descartes adianta-se, vai para falar, mas Hegel levanta a mão com autoridade e Descartes baixa a cabeça.) Tu ias abrir a boca? Não podes! O mundo deve falar alemão e tu, miserável cobarde, traíste tudo o que é vitorioso, enlameaste-te na dúvida de que nunca saíste!

 

 

            (As luzes apagam-se. À porta surge a figura cambaleante de Kant, com a vela na mão quase consumida.)

 

 

HEGEL (virando-se.) – Que significa isto agora? (Vendo Kant.) Ah! Calculava que não andasses longe! Mas porque apagaram as luzes? (Faz um gesto imperioso e as luzes acendem-se.) Apaga a vela! Acabas queimando os dedos, como aliás queimaste o cérebro!

 

 

KANT (Tímido, piscando os olhos.) – Perdão, não o conheço, não compreendo… (Apaga a vela.)

 

 

HEGEL – É claro que não compreendes: afinal, condenaste a razão à mediocridade, partiste-a inevitavelmente, impediste o espírito de ascender às regiões sublimes a que ele tem direito.

 

 

DESCARTES (Aproximando-se.) – Há então alguma possibilidade de penetrar o além pela razão?

 

 

HEGEL (Cínico.) – Que dizes tu? Ah! Reconheço que fizeste esforços, posso ver com facilidade os meandros sinuosos do teu cogito… Mas tinhas que perder. Embrenhada em corrupção, como podia não sucumbir a falsa doutrina apregoada pelos do teu tempo?

 

KANT (Que durante este diálogo se tinha colocado muito próximo de Descartes e o olhava fixamente. Bate na testa.) – Ah! Já sei de quem se trata! Finalmente lembrei-me! A sua obra…deixa-me ver… O Discurso do Método…um francês…Descartes! Aquele que dizia… o que dizia ele? Que o pensamento é a essência do homem…Deus, o suporte de toda a ciência…a metafísica, a mãe do conhecimento. (Recitando.) Deus é um ser perfeito, o perfeito tem que existir, logo Deus existe.

 

 

HEGEL (Interrompendo-o.) – É claro que houve falhas…é claro que a verdade foi miseravelmente torcida.

 

           

 

            (Neste momento, a Humanidade dá um berro, corre para o centro da cena, empurra Descartes e Hegel, arrasta atrás de si o Polícia, furioso, que esbraceja.)

 

 

HUMANIDADE – Eu! Só eu importo! Apenas eu! Torço-me de fome, morro de frio, apodreço na prisão, quase desapareci entre tantas torturas! E vós discutis temas inúteis que não resolvem qualquer problema. Olhai para mim: tenho fome! Cambaleio! Embranquecem-me os cabelos…A verdade…A verdade…Cuspo nas vossas teorias, condeno-vos ao esquecimento!

 

 

 

            (Apagam-se as luzes.)

 

 

VOZ – A Humanidade nega a sua própria consciência. Rejeita a vertigem do abismo do nada saber. Atira-se contra paredes que nada lhe devolvem. Escava buracos. Arrasta grilhetas. Pende, miserável, torturada, envelhecida, monstro de mil faces…Acéfala…Acéfala…Acéfala…

 

 

            (O Polícia leva a Humanidade que cobre o rosto com as mãos. Sai Sócrates, Platão e o grupo de jovens. No centro da cena, junto da coluna, ficam os três filósofos, Descartes, Kant e Hegel. A Razão e a Experiência colocam-se atrás deles, uma em cada extremo da cena. As luzes voltam a acender-se. Os filósofos olham uns para os outros.)

 

 

HEGEL (Orgulhoso) – É claro que eu represento o auge, eu sou o ponto de chegada, o pináculo, a perfeição, e vós… vós… (Queda-se, pensativo.)

 

KANT (Olhando, interdito, para os dois filósofos.) – Ora deixa-me ver. Ele diz que representa o auge, o ponto de chegada…mas o auge de quê? E a chegada… a quê?

 

HEGEL (Com desprezo.) – Tu, repara como te apresentas: afinal, estás a perverter a imagem com que o mundo te venera! Tu, o escravo do dever, a pontualidade personificada…Eis-te aqui, no centro do mundo, na ágora, ponto de partida de toda a Filosofia, em camisa de noite, com esse mísero barrete e essa expressão sonolenta! Em pleno dia, piscas os olhos e alumias o caminho com uma vela…como é possível?

 

KANT (Olhando para as vestes, um pouco confuso.) – Sabe, eu devia ofender-me pela forma como me trata…mas, afinal, a humildade é uma virtude filosófica. Confesso que eu próprio me sinto admirado por estar aqui, a estas horas, em tais atavios…Mas, elucide-me: com quem tenho a honra de falar?

 

HEGEL (Sem abandonar o tom de desprezo.) – Honra?! Dizes bem, é uma honra para ti falar comigo, o último dos grandes alemães, o pioneiro de uma nova era…

 

KANT – Ah, começo a compreender…Eu quis rever todo o meu sistema… quis realizar a crítica final que talvez resolvesse tudo! Apercebo-me das lacunas do meu pensamento…

 

HEGEL (Cínico.) – Ah, apercebes-te? Admites que partiste a razão em duas, condenando-a a uma impossibilidade total? Admites que ao desdobrá-la criaste as condições supremas para a dúvida, para a completa e total perplexidade?

 

DESCARTES (Que se mantivera à parte, seguindo o diálogo, atentamente.) – Desdobrar a razão, de que forma?

 

HEGEL – Ah, não sabes? Claro, claro… Acreditaste ter encontrado a verdade, não podes conceber o que se sucedeu à rua orgia filosófica!

 

DESCARTES (Melindrado) – Orgia? Pode explicar-me o que pretende dizer com essa palavra?

 

HEGEL – Que importa a palavra? O que quero dizer é que de nada serviu a tua metafísica…Ele (E aponta Kant.) escalpelizou-a.

 

DESCARTES – Quero saber como.

 

HEGEL – De que te servirá? Eu ultrapassei-vos a ambos.

 

KANT (Aproximando-se de Descartes.) – Eu conto-lhe. Afinal, formei-me na sua escola…

 

HEGEL (Interrompendo-os.) – Para quê? Para quê? Só eu importo, eu operei a grande síntese. A razão é dialéctica e a prática serve de mediação entre uma teoria abstracta, não consciencializada, e uma outra, de carácter mais vasto, pleno, absoluto. A metafísica é realizada na História, na vida, no tempo…E vós dois, que fizestes? Um (e aponta Descartes.) pendurou todo o pensamento nas nuvens, virando a sabedoria de cabeça para baixo; o outro (e aponta Kant.) fragmentou a razão, inviabilizando todo e qualquer saber absoluto.

 

KANT – Perdão: a minha ética representa o único caminho para o absoluto, a minha ética representa o assumir em pleno da dignidade humana.

 

HEGEL – Tens a coragem de falar na tua ética? Tens a coragem de fazer sequer referência à escola de hipocrisia a que se resume aquilo a que chamas ética?

 

 

DESCARTES – Deixe que ele me explique.

 

HEGEL – Que importa? Basta-te o meu pensamento, basta-te a luz dos meus escritos. Eu disse tudo, TUDO!

 

KANT (Á parte para Descartes.) – Quem é ele? Como se chama?

 

DESCARTES – Ignoro. Afinal, parti muito antes.

 

KANT – Claro, claro, eu entendo.

 

RAZÃO (Adiantando-se.) – Chama-se Hegel e restituiu-me a dignidade.

 

EXPERIÊNCIA (Adiantando-se.) – Sim, chama-se Hegel e colocou-me no lugar a que pertenço.

 

KANT (Encarando-as.) – Como? Vocês queixam-se de mim?

 

RAZÃO – E como não? Quem aguenta ver-se partido, limitado, irremediavelmente cindido?

 

EXPERIÊNCIA – Quem suportará ver-se privado de autonomia?

 

HEGEL (Aproximando-se.) – Que discutem vocês? Que querem?

 

 

RAZÃO, EXPERIÊNCIA – Render-te homenagem, apenas. (E curvam-se até ao chão.)

 

           

            (Neste momento, uma música forte toma conta da cena. Os três filósofos falam, altercam, gesticulam, mas nada se ouve. Entra a Humanidade, sozinha, sóbria. Detém-se a observar, por alguns instantes a discussão dos filósofos. A música pára. Os filósofos calam-se. Olham uns para os outros, intrigados.)

 

HUMANIDADE – Eu sabia! Sabia que o desentendimento é definitivo, que nenhum consenso é possível, que a única solução é o desacordo, o distúrbio, a guerra… (Cala-se, com ar pensativo.

 

VOZ – A GUERRA! Ponto de chegada da consciência, limite da racionalidade, sonho da Humanidade que, decadente, titubeante, mal ousa erguer o olhar macerado, entristecido. A guerra…a guerra… a guerra…

 

            (Entra Nietzsche e ouve ainda as últimas palavras da VOZ. Estaca, ao dar de caras com os três filósofos. Veste um fato escuro e traz alguns livros debaixo do braço dos quais se evidencia o Assim Falava Zaratustra. Fica em destaque, no centro da cena.)

 

NIETZSCHE – A guerra? Quem fala aqui em guerra? Quem, até ao dia de hoje, foi capaz de empreender a verdadeira, a única guerra?

 

HUMANIDADE (Com ar de esperança.) – Tu acreditas que a guerra é a única solução? Tu vês que é preciso destruir, para erguer, realmente, o verdadeiro mundo?

 

NIETZSCHE (Encarando-a, com desprezo.) – Sim, destruir…é preciso destruir… Mas agora te reconheço, a ti, Último Homem, aquele que conseguiu despertar a piedade em Zaratustra! Afasta-te, tu fizeste com que ele cometesse o pior dos pecados! O teu grito lamentoso, o teu estertor de bêbado revolvem-me ainda as entranhas… É a ti que a guerra tem que destruir… será que não vês?

 

HUMANIDADE (Rojando-se aos pés de Nietzsche.) – Perdoe-me! Prometo-lhe tudo o que quiser!

 

NIETZSCHE (Afastando-a com o pé.) – Não sou deus! Aliás, não ouviste dizer que deus morreu? Que o matou a sua piedade pelos homens? Agora há que destruir o homem, para que o Super-Homem viva!

 

 

            (Ouve-se uma música guerreira, sons semelhantes ao estrépito de soldados em marcha. Entra Hitler, em passo marcial.)

 

 

HITLER – Chamaram-me? Aqui estou, represento o apogeu da raça, estou pronto a combater por uma Alemanha triunfante!

 

NIETZSCHE – Ah não! Outra vez não! (Volta-se e vê Hitler em posição de sentido.)

 

HITLER – Aqui me tem. Pode contar comigo. Não terei descanso enquanto não eliminar a raça inferior! Confie. Porei em prática a sua doutrina. Olhe, vê, trago a sua bengala, foi-me dada como símbolo da nobre tarefa que a História me reserva… e a raça alemã…

 

NIETZSCHE (Que ouvia, horrorizado.) – Será que os meus ouvidos me devolvem o som das palavras com fidelidade? Ou estarei ainda mergulhado na loucura a que sucumbi? Vejam-no, esse aborto miserável esse espantalho arrogante… quem és e como te atreves a falar em meu nome?

 

HITLER (levantando a mão e fazendo a saudação nazi.) – Permita que me apresente: Adolf Hitler, o regenerador da Humanidade, o que se propôs eliminar a escória…pela guerra!

 

NIETZSCHE – Que representas tu? Quais são os teus ideais?

 

HITLER – Poder! Poder e mais poder para uma Alemanha triunfante!

 

NIETZSCHE (Deixando-se cair, desanimado, nos degraus.) – E qual a tua estratégia?

 

HITLER – Eliminar, destruir o falso homem, matar, um por um, todos os representantes da decadência, suprimir tudo o que não for ariano. Pelas armas, pela tortura, pela guerra!

 

NIETZSCHE (Deixando-se cair, desanimado, nos degraus.) – Como é possível tanta perversão? Como puderam torcer as minhas ideias de forma tão lamentável! (Para Hitler.) E quem, segundo a tua opinião, são esses representantes da decadência?

 

HITLER (Com raiva.) – Os judeus! Esse povo imundo que infestou a terra para fugir ao pecado mais maligno entre todos… É preciso irradiar da terra tudo o que cheirar a judeu!

 

NIETZSCHE (Desanimado.) – E o Super-Homem?

 

HITLER (Enchendo o peito.) – Ah! Eu represento-o bem, não acha?

 

 

            (Nietzsche tapa o rosto com as mãos e abre o Assim Falava Zaratustra.)

 

VOZ – «Em verdade, houve homens maiores e melhor nascidos que esses a que o povo chama salvadores, esses devastadores furacões. Mas se quereis encontrar o caminho da liberdade, necessário será que vos liberteis desses que são maiores ainda que todos os salvadores. Nunca, até ao dia de hoje, existiu um Super-Homem. A ambos os vi nus, ao maior e ao mais pequeno dos homens. Demasiado se assemelham ainda. Em verdade, mesmo o maior me pareceu – demasiado humano.»

 

HUMANIDADE – (Aproximando-se de Hitler. Traz, no peito, do lado esquerdo uma estrela judaica, do lado direito a cruz suástica.) Vais matar-me? Torturar-me? Mutilar a minha natureza?

 

HITLER (Orgulhoso.) – Tenho a bengala dele, não vês? Foi-me dada para que eu me tornasse o pioneiro da doutrina sublime da purificação da raça. Terei que partir-te ao meio, não tenho outro remédio senão amputar-te o lado esquerdo!

 

HUMANIDADE (Recuando.) – Amputar-me o lado esquerdo? E como poderei viver privada de coração?

 

HITLER – Coração?! Essa raça imunda, esses seres asquerosos têm acaso, coração?

 

 

            (Hitler tira o revólver e aponta-o ao coração da Humanidade. Nesse momento ouve-se um trovão; Hitler deixa cair o revólver, a Humanidade cai de joelhos. Sopra o vento. Entram Marx e Freud. Ambos trazem estrelas judaicas no peito. Dirigem-se rapidamente aos degraus, onde Nietzsche continua com a cabeça entre as mãos, lendo o Zaratustra. Pegam-lhe no braço, fazem-no levantar e dirigem se os três a Hitler. Marx amarra-o com a ajuda de Freud. Hitler resiste, embora se mostre apavorado. A tempestade pára. Lentamente, todas as personagens entram em cena, desfilando: Sócrates e o grupo de jovens, Platão, Descartes…etc. Passam pela frente das personagens que estão em cena. Aparecem mascarados: um Arlequim, um Bobo, um Palhaço etc. O Polícia entra, agarra a Humanidade e leva-a. Juntam-se todos no fundo da cena. Marx, Freud e Nietzsche adiantam-se.)

 

MARX – Nós representamos o século XX. Somos a utopia regeneradora, a semente da verdade. Não que estejamos de acordo…

 

NIETZSCHE – «Houve até ao dia de hoje milhares de fins, porque houve milhares de povos. O que falta é a corrente unindo essas mil nucas. A Humanidade não tem ainda um fim.»

 

FREUD – Nas brumas do inconsciente agita-se isso, a que chamaste, semente da verdade. Era preciso que o povo sondasse o inconsciente para se auto-libertar. Mas enquanto os neuróticos (E aponta Hitler.) continuarem dominando as multidões, nenhuma liberdade será possível.

 

 

MARX – Mas não é a liberdade uma conquista? O reino da liberdade adivinha-se, lá, onde o homem não precisará de depender do homem.

 

FREUD – Esqueces-te da doença do poder. Esqueces-te da impotência dos fracos cujo recalcamento profundo levará às mais ferozes atrocidades. Esqueces-te que todo o mal, mas todo o mesmo, tem que ver com profundas frustrações, com impulsos sexuais reprimidos… e que só libertando o ego a Humanidade poderá afastar de si a pressão.

 

MARX – Sim. Mas só o vigor revolucionário conduzirá a Humanidade à sua verdadeira e digna dimensão.

 

FREUD – Esqueces-te da tendência para a orgia que subverte todo e qualquer ideal. Vê-os a eles, os desbravadores da Filosofia, os arautos da verdade: olha como surgem mascarados, grotescos! Ah, não confies nos homens enquanto não for eliminada a neurose, a corrupção…

 

 

NIETZSCHE – «Mas dizei-me, meus irmãos, se a Humanidade sofre por lhe faltar um fim, não será o caso que não existe ainda Humanidade. Se queremos construir, é preciso começar por destruir.»

 

MARX – Só extremizando o mal, só levando as contradições ao rubro, poderemos finalmente extirpá-las. É preciso patentear ao Homem o seu horror, para que ele sinta vergonha de si próprio e queira regenerar-se!

 

FREUD – E como sabes que ele tem olhos capazes de ver o seu próprio horror?

 

 

MARX – É que os filósofos, até ao dia de hoje, limitaram-se a interpretar o mundo de diversas maneiras, iludindo a realidade das coisas. O que importa, porém é transformá-lo.

 

NIETZSCHE (adiantando-se, em tom profético, lê, do Assim Falava Zaratustra, o discurso «Das Três Metamorfoses», até «Porque deverá o leão roubador tornar-se criança?»

           

 

 

Vou contar-vos as três metamorfoses do espírito: como o espírito se transforma em camelo, o camelo em leão,  e o leão em criança para acabar.

Muitas são as coisas que parecem pesadas ao espírito, ao espírito robusto e paciente, e todo imbuído de respeito; a sua força reclama pesados fardos, os mais pesados que existam no mundo.

«Que há de pesado para transportar?» diz o espírito transformado em besta de carga, e logo ajoelha, tal como o camelo e deseja ser bem carregado.

«Qual é a mais pesada das  tarefas, ó herói, pergunta o espírito tornado besta de carga, eu a quero assumir, a fim de gozar da minha força.

Será essa tarefa o humilhar-me para mortificar o orgulho? Dar livre curso à loucura para ridicularizar a sabedoria?

Será abandonar uma causa triunfante? Escalar altas montanhas a fim de tentar o Tentador?

Será alimentar-se das glandes e da erva do conhecimento, e fazer jejuar a alma por amor da verdade?

Será, estando doente, expulsar os consoladores e fazer amizade com surdos que nunca ouvem o que pretendemos?

Ou descer a uma água lamacenta, se for a água da verdade, e não afastar de si as frias rãs e os cáusticos sapos?

Ou ainda amar aqueles que nos desprezam e estender a mão ao fantasma que tenta assustar-nos?»

Mas docilmente, o espírito toma sobre si todos estes pesados fardos; semelhante ao camelo carregado que se apressa a alcançar o deserto, também ele se apressa a alcançar o seu deserto.

E aí, nessa extrema solidão, se produz a segunda metamorfose: o espírito torna-se leão. Decide conquistar a sua liberdade e ser o rei do seu próprio deserto.

Busca um último senhor; ele será o inimigo desse último senhor e do seu derradeiro Deus; ele quer medir-se com o grande dragão e vencê-lo.

Mas o que é esse grande dragão que, doravante, o espírito recusa chamar seu senhor e seu Deus? O nome do dragão é «Tu-deves». Mas a alma do leão diz: «Eu quero!»

«Tu deves» barra-lhe o caminho, brilhando de oiro, coberto de escamas, e, sobre cada uma dessas escamas brilham, em letras de oiro, estas palavras: «Tu-deves».

Valores milenários brilham sobre essas escamas, e assim fala o mais poderoso de todos os dragões: Todos os valores das coisas brilham sobre o meu corpo.

Todos os valores foram criados no passado e a soma de todos os valores criados sou eu. Em verdade, não deverá mais existir qualquer «eu quero»!… Assim fala o dragão.

Meus irmãos, para que serve ter este leão no espírito? Porque não será suficiente o animal paciente, resignado e respeitoso?

O próprio leão não está ainda preparado para criar  novos valores; mas liberta-se a fim de se tornar apto a criar novos valores, eis o que pode a força do leão.

Para conquistar a sua própria liberdade e o sagrado direito de dizer não, mesmo ao dever, para isso, meus irmãos, é necessário ser leão.

Conquistar o direito a novos valores é para um espírito paciente e laborioso a mais temível das empresas. E por certo que ele vê nela um acto de banditismo e de rapina.

O que ele outrora amava como o seu bem mais sagrado é o «Tu-deves». Deve agora descobrir a ilusão e a arbitrariedade na própria base do que de mais sagrado existe no mundo, e conquistar assim, pela violência, o direito a libertar-se dessa prisão; para exercer uma tal violência, é necessário ser leão.

 

 

            (Entra uma criança. Dirige-se ao fundo onde se perfilam as personagens mascaradas. Pega na mão da Humanidade e trá-la para o centro.)

 

CRIANÇA – «É que a criança é inocência e olvido, novo começar, jogo, roda que se move por si própria, primeiro móvel afirmação santa. Na verdade, meus irmãos, para jogar o jogo dos criadores é necessário ser uma afirmação santa; o espírito quer agora o seu próprio querer; tendo perdido o mundo ele conquista o seu próprio mundo.

 

 

            (As personagens mascaradas vão tirando as máscaras e levantando a cabeça enquanto ouvem as palavras da criança. Lentamente, saem, com a criança e a Humanidade na frente. Apagam-se as luzes.)

 

 

 

 

FIM

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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