PIRÂMIDE

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

PIRÂMIDE

ALEGORIA FILOSÓFICA

 

TEATRO

 

 

 

 

  «Se os animais são como circunferências que tentam fechar o espaço, o homem é uma pirâmide que aspira a ultrapassá-lo.»

 

Teixeira de Pascoaes, A Minha Cartilha 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

                                                                                                    ACTO ÚNICO

 

 

(Noite. A Humanidade está rojada no chão, dobrada sobre si própria, em posição fetal. Silêncio. Uma luz acende-se, forte, brutal. A Humanidade começa a erguer-se; a custo levanta o rosto, a luz fere-lhe os olhos, ela tapa-os com os braços. Recua.)

 

 

 

 

 

 

 

  HUMANIDADE – Apaguem a luz!                        

 

 

 

           

(Esconde-se num canto, fora do alcance do foco luminoso que se apaga. Volta a encolher-se na posição inicial. De repente, outra luz acende-se sobre ela. A Humanidade dá um salto.)

 

 

 

HUMANIDADE – Apaguem a luz!

 

 

 

 

(Foge. A luz apaga-se. Silêncio.)

 

 

VOZ – A Humanidade não quer nascer! Tem medo da luz. Melhor se quadra com ela a sombra de qualquer canto. Dobrada sobre si própria, vê a verdade no chão que pisa. A Humanidade é o eterno feto, repudiando a saída, martirizando a natureza grávida que se auto-dilacera.

 

 

 

            (A cena ilumina-se. Umas colunas gregas, uns degraus simbolizam a ágora ateniense. Entra Sócrates, acompanhado de um grupo de jovens. Sócrates encosta-se a uma coluna e os amigos rodeiam-no.)

 

 

 

PRIMEIRO JOVEM – Já ouviste falar, ó Sócrates, de alguém que se tenha deixado morrer por um ideal? Que preferisse passar fome a lutar pela vida?

 

 

SÓCRATES – Estás a pensar ainda nos cépticos? Mas como podem eles sustentar as suas teses, se o mínimo gesto é uma auto-traição? Apesar disso há uma certa coerência nessa atitude…

 

 

SEGUNDO JOVEM – Como assim?

 

SÓCRATES –  Repara: não procuravam eles a verdade lá fora, no mundo? Não buscavam a explicação das coisas?

 

 

PRIMEIRO JOVEM – E então?

 

 

SÓCRATES – Se em lugar disso, voltassem os olhos para dentro de si próprios, se deixassem de perseguir o inatingível, por certo a Humanidade deixaria de andar às voltas em torno da luz que rejeita…

 

 

            (Enquanto Sócrates fala, entra um Polícia dos nossos dias, arrastando a Humanidade com as mãos atadas. De olhos baixos, ela não opõe resistência. Ao chegarem á frente do grupo, param.)

 

 

SÓCRATES (com ar calmo) – Certamente ouvistes dizer que tomei como divisa o que gravaram no templo de Apolo…

 

 

OS JOVENS (em coro) – Conhece-te a ti próprio!!!!

 

           

(A Humanidade, aterrorizada, desmaia, enquanto o Polícia tenta agarrá-la.)

 

 

POLÍCIA (apontando o dedo a Sócrates.) – Tu, tu corruptor da juventude: não vês que é proibido o que ordenas? Não vês que a Humanidade não suporta a verdade? Pega, toma mais uma vez a cicuta e deixe-me prosseguir viagem!

 

 

 

            (Estende uma garrafa de Coca-Cola a Sócrates, com uma palhinha. Sócrates senta-se num degrau, bebe um trago e vai passando a bebida aos jovens que se sentam, em círculo, ao seu redor. Bebem, deliciados, e vão adormecendo, lentamente. A cena escurece. Entretanto, o Polícia reanima a Humanidade e arrasta-a consigo. Sentam-se ambos num canto. O Polícia tira um cigarro do bolso e acende-o. Fuma um pouco. Depois, mete o cigarro na boca da Humanidade que estremece, mas que o agarra logo com prazer. O Polícia ri. Fumam à vez. Em seguida, o Polícia tira do bolso uma garrafa de whisky e bebe um grande trago; passa a garrafa à companheira que bebe sofregamente. Vão-se embriagando.

            Entretanto, a cena ilumina-se. Entra Platão, acompanhado de Descartes: Platão traz o seu livro A República debaixo do braço e Descartes empunha O Discurso do Método. Chegam junto do grupo formado por Sócrates e pelos jovens adormecidos.)

 

           

PLATÃO – Aí está o que acontece a quem se atreve a dizer a verdade! … Pobre mestre!

 

DESCARTES – Mas ouvi dizer que foste o seu discípulo predilecto…Que seguiste exemplarmente todos os seus ensinamentos…

 

PLATÃO – Sim, mas não ousei enfrentar a ágora, não fui direito ao cidadão…limitei-me a escrever…

 

DESCARTES – E não é perigoso escrever? Eu próprio tive que caminhar escondido…

 

PLATÃO – E eu, não me escondi também? Nas alegorias, nos diálogos, sempre me escondi, nunca disse a verdade toda…

 

DESCARTES (com esperança) – E sabia-la?

 

 

(Uma grande gargalhada da Humanidade ébria, obriga-os a interromper o diálogo e a procurar a origem do som.)

 

 

HUMANIDADE (cambaleante, agarrada ao Polícia, dirigindo-se até junto deles.) – A verdade! Ah! Ah! Ah! Quem se preocupa com isso, quando o vinho aquece o corpo, quando os sentidos vibram…Ah! Ah! Ah! Bebam também e esqueçam, façam como eles! (E aponta Sócrates e os jovens adormecidos.)

 

DESCARTES (recuando, horrorizado.) – Foi para este ser horrível que escrevi as minhas obras? Foi por ele que me sacrifiquei no exílio?

 

PLATÃO (conciliador, agarrando no braço de Descartes.) – Anda, vamos.

 

 

            (Afastam-se para o lado. Descartes abre o Discurso do Método e mostra passagens a Platão que concorda, abanando afirmativamente a cabeça, enquanto, por seu turno abre a República. Conversam em voz baixa.

            Entram a Razão e a Experiência. A Razão é jovem e usa vestes claras; a Experiência é um velho de barbas brancas e apoia-se a uma bengala. Param à entrada. Ninguém repara nelas. Olham, como quem procura. Descobrem Descartes e apontam.)

 

 

EXPERIÊNCIA – Ali está ele! Vamos.

 

 

            (Chegam ambas junto de Descartes, que não se tinha apercebido de nada e a Experiência obriga-o a voltar-se com um puxão da bengala. Descartes vira-se, espantado.)

 

           

DESCARTES (fechando o livro e tentando ocultá-lo.) – Que é? Quem sois?

 

EXPERIÊNCIA – Ah! Ousas dizer que não me reconheces? A mim, à tua própria experiência, aos teus sentidos?

 

            (Descartes encolhe-se, aterrorizado. Platão fica na sombra.)

 

           

RAZÃO – E eu? Também não sabes quem sou? Também não te lembras das injúrias a que me submeteste? À tua própria razão?

 

 

DESCARTES – Mas…eu penso…logo…existo…

 

RAZÃO – Pensa…Que ultraje! E como sabes que pensas, se negas os teus próprios sentidos?

 

DESCARTES – Eu existo…

 

EXPERIÊNCIA – E como sabes que existes, se destruíste o valor da tua própria razão?

 

DESCARTES – Deus existe…

 

 

RAZÃO, EXPERIÊNCIA – Como sabes?!

 

            (Entra a figura dilacerada de Cristo com a cruz às costas e pára, de cabeça baixa, no centro da cena. Calam-se todos. Saem a Razão e a Experiência. O Polícia adianta-se, mal firme nas pernas, com a garrafa na mão e arrastando a Humanidade, aos tropeções.)

 

 

POLÍCIA – Ah! Com que então, matam-te outra vez! (Puxa a Humanidade, que se deixara cair.) Vamos, leva-lhe a cruz!

 

           

(A Humanidade não dá acordo de si.)

 

 

VOZ – Mas o reino d’Ele não é deste mundo! E como pode a Humanidade levar-lhe a cruz, se, afinal, ela é a própria cruz?

 

 

            (Cristo, que se mantivera parado durante este diálogo, de olhos baixos, retira-se para o fundo da cena e deixa-se cair junto do grupo formado por Sócrates e os jovens adormecidos. Platão e Descartes apontam para o grupo e falam em voz baixa. O Polícia arrasta a Humanidade, que permanecia imóvel e, com uma gargalhada, estende-lhe a garrafa e obriga-a a beber.)

 

POLÍCIA – Anda, bebe! Para quê esse arrependimento tardio, esse baixar de olhos submisso? Só tens um caminho: beber!

 

 

 

            (Consegue arrastá-la para um canto e, de novo, se embriagam juntos. Platão e Descartes aproximam-se.)

 

 

PLATÃO – Afinal, quem é aquele que carregava uma cruz? Porque tem na cabeça aquela coroa horrível? Porque passou sem dizer palavra?

 

DESCARTES – Poucos O conhecem. E no entanto, há verdade nos seus ensinamentos…

 

           

PLATÃO – Que ensinamentos são esses?

 

 

DESCARTES – Não sabes? Então a imortalidade não te deu ainda a chave do mistério? Tu, que proclamavas a superioridade do Empíreo…

 

 

PLATÃO – Espera…não é ele o próprio Cristo? Outro, cuja verdade a Humanidade ludibriou…

 

 

DESCARTES – Vês? Também ele se expôs na praça pública…

 

 

 

            (A Humanidade solta uma gargalhada.)

 

 

VOZ – Ai dos que descem à praça pública e mostram a verdade à gentalha! Ai dois que fazem abater os ídolos que a populaça adora! Olhai como os escorraçam e envenenam, olhai como os dilaceram! Antes caminhar na sombra e salvar a pele…e algum dia a verdade pôde suprir as necessidades do estômago?

 

 

            (Ouve-se um trovão. A luz apaga-se. Entra Kant, em camisa de noite, com barrete de dormir. Traz uma vela acesa na mão e, debaixo do braço, a obra Crítica da Razão Pura. Um relógio bate sete badaladas. A Humanidade soergue a cabeça, consulta o relógio do Polícia e acena aprovadoramente.)

 

 

POLÍCIA (acotovelando-a.) – Que é?

 

HUMANIDADE – O velho professor continua pontual… (e adormece.)

 

 

           

            (Kant é um velho de setenta anos. Avança, curvado, trémulo, levanta a vela, pára, vendo os que dormem junto da coluna.)

 

 

           

KANT (Abanando a cabeça.) – Como ousam adormecer, deste modo impúdico, em plena praça pública? Que lamentável espectáculo! (Olha o relógio de bolso que traz pendurado na camisa de noite, aproxima-o muito dos olhos e, ao mesmo tempo, levanta a vela. Queima-se.) Ai! Que fraca natureza a minha!

 

 

            (Vai a afastar-se e esbarra com Descartes, que se tinha aproximado, curioso.)

 

 

KANT – Perdão! Os meus olhos, sabe…

 

 

DESCARTES – Porque apagaram as luzes?

 

 

KANT (Com expressão confusa) – Eu conheço-o, não é verdade? A sua aparência lembra-me qualquer coisa!…

 

 

DESCARTES – Porque apagaram as luzes? (Abana-lhe o braço.) Que vens aqui fazer com essa vela? Quem és?

 

 

KANT – Eu conheço-o… lembro-me de si… (Olha o relógio, vê as horas. Depois, aflito, solta-se da mão de Descartes.) Não tenho tempo, chama-me o dever… é preciso agora que eu vá. (Afasta-se alguns passos. Depois pára, olha para trás.) Mas tenho a certeza que já o vi em qualquer sítio…(Sai)

 

 

            (A cena fica às escuras. Silêncio. De repente, a Humanidade, que se mantinha adormecida, dá um salto, com tanta violência, que arrasta o Polícia, ébrio, com ela. Acendem-se as luzes.)

 

 

HUMANIDADE – Tive um sonho! Um sonho maravilhoso!…

 

 

            (Ouve-se um trovão. Os adormecidos despertam. Todos se acercam da Humanidade que não dá por eles, como que em êxtase.)

 

 

POLÍCIA – Anda para o teu canto! Continuas bêbada!

 

HUMANIDADE (repelindo-o e conseguindo soltar-se.) – Sim, bêbada de felicidade…Vi tudo, tudo destruído, só cinzas, poeira, pedaços de membros, sangue…

 

                                

 

 

 

                                                                                           (Fim da Primeira Parte)

           

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