Comentário filosófico

 

 

                                                     

                                          Retrato de Miguel Torga a carvão de Isolino Vaz

 

 

 

 

 

                                                              Comentário filosófico

 

«A minha luta é para encontrar o centro, o núcleo de toda uma infinidade de justificações, que superficialmente parecem satisfazer-me e são, afinal, folhas caducas do meu tronco. Determinar, numa palavra, que causa última me conduz, que força polariza os meus actos. Mas estou longe dessa descoberta. Eliminei o divino, porque era divino e eu sou humano; superei o pecado porque viver sem pecado é um absurdo moral; e consegui perceber que a vida não é trágica por estar balizada pelo nascimento e pela morte, que são condições da existência e não negação dela.»

 

Miguel Torga, Diário IV, Coimbra

 

 

 

 

Segundo o ponto de vista do autor e segundo a sua experiência de ser pensante, a luta pela definição dos fins últimos da sua existência, capazes de lhe orientarem os passos na vida, só superficialmente o satisfaz, dados os permanentes conflitos do próprio pensamento e os perpétuos antagonismos entre o divino e o humano, a moral e o pecado, a vida e a morte.

Mas, ao eliminar o divino, manifestando, neste contexto, uma posição ateísta e, ao justificar essa eliminação declarando-se humano por exclusão do divino, o autor não consegue de modo nenhum afastar da mente o problema da existência de Deus. Com efeito, ser ateu ou “eliminar o divino” é negar Deus; e esta mesma palavra – ateu – constitui o próprio cerne do que se pretende negar. Como é possível negar a existência seja do que for, sem a ela ter aderido, ao menos enquanto ideia? Esta adesão a um Deus conceptual encontra-se presente, aliás, na primeira parte do texto, quando o autor afirma que a sua luta é “para encontrar o centro”, “o núcleo de todas as justificações”, “ a causa última que me conduz”,“ a força que me polariza”. Retirando de si, enquanto humano, a componente divina que o tornaria espírito, o autor poderia resolver com toda a facilidade os problemas provenientes da sua luta para encontrar o próprio centro, já que o humano, desarreigado do divino, é um mero animal em luta pela sobrevivência. Aliás, essa mesma dedução está implícita no modo como Miguel Torga afirma ter superado o pecado: considerando que viver sem pecado é um absurdo moral, o autor destaca-se e descompromete-se das noções vigentes de Bem e de Mal, que desde sempre nortearam todo e qualquer comportamento moral. Assume-se como amoral – ou seja, sem moral – como se assumiu ateu – ou seja, sem Deus.

Mais próxima da animalidade simples e desprovida de razão do que da humanidade complexa, porque racional, a posição de Torga desafia os alicerces de toda a cultura ocidental, centrada num dualismo fundador, que faz do homem a integração harmoniosa da alma e do corpo.

Por fim, e como corolário das afirmações precedentes, o autor analisa uma das mais antigas perplexidades do homem, essa inevitabilidade da morte que está impressa em cada um na hora do nascimento e lhe aponta o limite para o qual vai, inexoravelmente, tendendo.

Miguel Torga afirma que a vida não é trágica, pelo simples facto de se conter, inteira, naquele pequeno traço que estabelece a união entre as duas datas-limite: a do nascimento e a da morte. Ao reiterar esta conclusão, entra em choque com os valores cristãos, por exemplo, que ostentam, como visão trágica, o sofrimento de Jesus Cristo na cruz, sofrimento predestinado e consentido, dada a certeza, garantida pela crença, de uma ressurreição, tornada possibilidade redentora dessa mesma tragédia. A tragédia de Cristo é, não apenas a vida, mas o seu desenlace terrível no alto do Calvário; e a essa visão trágica corresponderá, segundo a crença, a nossa própria trajectória de humanos, feitos à semelhança de Deus, irmãos de Cristo, Ele próprio filho de Deus e, portanto, sujeitos como Ele foi ao sofrimento, à dor e à expiação do sofrimento consumada na morte. Mas, à semelhança do que aconteceu no acto da ressurreição de Jesus, também nós ressurgiremos após o fim da existência terrena, para assim nos redimirmos da tragédia de viver.

Miguel Torga não considera trágica a existência humana pelo facto banal de conduzir necessariamente à morte, visto ser essa a própria razão de ser de tudo o que existe na natureza, fora e dentro de nós. A morte não nega a vida, sendo antes a sua condição e, para chegarmos a tal conclusão, basta observarmos o desenvolvimento de uma planta, cujas fases sucessivas desde a raiz ao fruto se vão continuamente excluindo e, mesmo o fruto, necessita atingir a maturação e abrir-se, pela auto-destruição, a fim de libertar sementes, condição de novas plantas e de novos frutos. E assim, o ser humano, sendo natureza, não escapa a idêntico destino e apenas o apego a uma existência, da qual seremos inelutavelmente excluídos um dia, nos faz sentir a morte como uma tragédia negadora da vida, através da qual nos afirmamos e à qual queremos dar continuidade para além da fronteira da data-limite.

Em conclusão: os argumentos negadores do divino e da moral e afirmadores da morte, como componente intrínseca da vida apontam todos para uma noção ateísta da existência em que o autor desarreiga de si, enquanto homem, a componente divina reivindicada pela crença cristã. Todavia, não há dúvida que a sua característica de ser racional e, por isso, pensante, o conduz, inevitavelmente, a levantar semelhantes questões e, nessa medida, a não ter alternativa a não ser admiti-las, pelo menos enquanto conceitos.

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