Albatrozes perdidos em marés adversas

 
 
 
 
 
 
 
 
 
Edvard Munch, O Grito
 
 
 
 
 
ALBATROZES PERDIDOS EM MARÉS ADVERSAS
 
 
 
 
Os langores do estio
arrebatam vapores
no ar trementes como mãos eremitas
enquanto ondas de frio se expandem
por entre  nuvens violeta profundo
e o vento empurra as folhas enfermas
pelo pó dos caminhos
pela alma das gentes
 
 
Por um curto instante
o tempo parou
e nem um sopro ousou responder
à intimação sonora da energia dos ares
e logo se aquietou
a ânsia de outrora
pois  a cratera impante 
cedo se rompeu
 
Nesse mesmo segundo
 das cavernas terrosas
 ergueram-se os seres em recolhimento
temerosos da ameaça
do incêndio solar
pois uma gota e outra
quentes e vivas
se lançaram à  terra
e logo  
em cascata
um jorro vibrante
se abateu no solo
uma sinfonia brusca
ecoou na treva
saída do sol em crepúsculo denso
 
 
E pelo solo bravio
crestado e aberto
cedo  jorraram curvas de riachos
da cor da fuligem
da cor do ferrugem
moldados em barro
que não ousa enrijar
 
Gotas de espanto
torrentes aflitas
pequenas lagoas
vertidas em mar
eis o delírio da chuva estival
arrebatando preces
na surdez contida
dos pios das aves
dos esquilos sedentos
dos albatrozes perdidos em marés adversas
 
E eis o homem à porta de si
clamando aos céus
o sinal da bonança
e abrindo os braços
em cruz de tortura
nunca sabendo o que quer
o que quis
descrente do rio
agnóstico do pó
pisando a erva
e erguendo-a do solo
tremendo sempre
tremendo sempre

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