O Rochedo de Sísifo ou o Condenado Feliz

 
 
 
 
 
Ticiano, Sísifo
 
 
 
 
 
O ROCHEDO DE SÍSiFO OU O CONDENADO FELIZ
 
 
 
 
 
Sísifo
 afinal
 é feliz
 
 
Sísifo empurra o rochedo pela montanha bravia até ao topo
Sisifo bem sabe que  o suor lhe inunda o corpo todo
Sisifo arranha os membros e corcova  o dorso todos os dias
todos os anos
todos os séculos
e contudo
Sísifo é feliz
 
 
Quando chega ao alto da montanha
o rochedo solta-se da terra
e rola
e rola
e rola
e Sísifo ri
 braviamente ri
enlouquecido ri
 
 
Sísifo vê o rochedo partir
das suas costas corcovadas 
mas rijas
vê o rochedo
romper caminho
entre arbustos e dejectos
e solta gargalhadas estrepitosas
enquanto mergulha na fonte
e refresca a pele gretada
 
 
Sísifo
depois
ergue os ombros
levanta o rosto para os céus
em desafio
e começa a descida
sempre a mesma
desde há séculos
 
 
Como é curta essa caminhada invertida
mas como é diferente a montanha
agora
que pode caminhar com leveza,
agora
que pode ouvir o canto dos pássaros
sentir a carícia das ervas rasteiras
nas pernas nuas
aspirar a fragrância da terra
e o odor melífluo das flores
 
 
Sísifo conhece bem o seu destino
Sísifo bem sabe
que o rochedo tem que ser carregado
uma vez mais
até ao topo da montanha
Mas
enquanto desce
não pensa nisso
 
 
Deleita-se
Embriaga-se
Extasia-se
 
 
Sísifo desce a montanha quase a correr
pois o declive é grande
e o tempo curto
O trabalho da sua condenação
tem um prazo rígido
uma hora certa
Mas enquanto desce
leve
solto
bravio
com os cabelos ao vento
e os braços bem levantados para o alto
Sísifo é feliz
 
(Pudéssemos nós ser felizes como Sísifo, condenado por toda a eternidade a um trabalho sem sentido, e no entanto capaz de, no breve intervalo que a descida lhe permite, sorver a vida em plenos haustos de prazer.)
 

2 Respostas to “O Rochedo de Sísifo ou o Condenado Feliz”

  1. Knulp Says:

    Penso que o verdadeiro drama de Sísifo acontece quando ele desce, sem a carga da subida.
    Ao descer ,tem tempo para pensar na sua condição, e o verdadeiro drama sobe-lhe ao coração: aperceber-se da inutilidade dos seus esforços e contudo, repeti-los incessantemente.
    Sísifo, o homem dos nossos dias…

  2. Knulp Says:

    Uma bela e poética perspectiva, a tua, sobre o condenado.
    Gostava de ter esse optimismo, mas tenho que continuar a ver Sísifo como um escravo moderno.
    Na realidade não me posso esquecer que ele foi condenado pelo seu amor.
    Não estaremos nós a ser condenados pela nossa humanidade?
    Mas enfim, é o meu pessimismo que dá vida e calor ao teu maravilhoso optimismo.
    knulp 

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: