Para lá dos mares para lá das pedras para lá do tempo

 
 
 
 
 
 
PABLO PICASSO, VELHO GUITARRISTA
 
 
 
 
 
PARA LÁ DOS MARES PARA LÁ DAS PEDRAS PARA LÁ DO TEMPO
 
 
 
 
 
Feito aos ares
como intrépido meteoro
partiu o pensamento
com as asas em longo desfraldar
o  pensamento
emergente das nuvens
o pensamento
solto das amarras
o pensamento
 
 
Metáforas menores
estas
que nos fazem elevar
até aos cumes
a promessa do silêncio
e fazer
da casa da nossa luz
a morada resplandecente
dos sonhos  e das celebrações
onde ousamos
sempre 
flutuar
 
E no  entanto
quão  pouco sabemos
do voo  e do  ar
por onde rompem
em quilha
os ventres das aves
por  onde pairam insectos
e rodopiam as folhas
ou então 
o pólen crepitante da vida
a iniciar-se
 
 
Ah
os insectos
que na imprudência das sua cabeças de alfinete
se atiram 
com denodo
para as pétalas marcadas
pelo odor da Primavera
esses
que nunca vemos
a menos que zumbam 
nas nossas vidraças 
e as aves
gaivotas ou andorinhas
em ávido esvoaçar
ou em franca brincadeira
elas e o pó
lançam-se
enredados num unissono
em que nem soam espirros
nem jorram gargalhadas
 
 
E o ar
recolhe-os todos
como quem ama
como quem protege
como quem dá vida
 
 
Temos pés
e os pés  arrastam
pesados
um corpo erecto
que se esquece de fluir
somos filhos da terra
e nada sabemos
do ímpeto do vento
a não ser
que  nos levanta os cabelos
e nos enfuna  as vestes
e às vezes
em dias de acalmia
suspeitamos
que sem essa corrente viva 
que nos rodeia  o ser
não teríamos
como estar vivos
nem saberíamos
como estremecer
 
 
Façamos
uma espécie de oração ritmada
ao fluido pneumático
que  nos cinge
sem dele darmos conta
e ousemos flutuar
no pico da consciência solta
para lá dos mares
para lá das pedras
para lá do tempo

2 Respostas to “Para lá dos mares para lá das pedras para lá do tempo”

  1. Joaquim Says:

    Quantas vezes deveríamos adormecer para então sim nos tornarmos conscientes?E a Terra é um elemento vivo neste universo, e precisa ser lavrada, remexida, imploradamente…

  2. moisés Says:

    Olá,
     
    Para lá do tempo somos cristais voláteis intemporais. Aqui, a irrefreada consciência do sentir, arrasta-nos no bulício dos elementos e nesse rodopiar sem tréguas, conscientes ou sugestionados, esboçamos os traços das nossas miragens.
     
    Um abraço
     
    Moisés Salgado

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