O Último Mensageiro

 

 

 

 

 

 

 

 

                                                                               

 

William Turner,The Festival upon the Opening of the Vintage at Macon

 

 

 

 

 

 

O Último Mensageiro

 

 

             Havia montanhas por detrás da imaginação cansada, atirada  de uma para outra  janela, e só os cortinados espessos tiveram poder para suster os golpes do vento, nesse  dia túrgidos de folhas verdes, porque há muito a primavera ditava as suas regras de plena floração e só o rigor impreciso das nuvens violeta, por cima do  telhado, fazia temer  o recuo improvável do tempo.

            Era a hora, e ele bem o sabia, a  hora de sair e levar  as cartas para os marcos distantes, onde a surpresa poderia abrir-se em sorrisos ou em lágrimas, mas sempre numa contradição  de espanto e aventura.

           Cartas, apenas cartas – essa raridade –  cartas de papel, no tempo em que ninguém usa caneta e os envelopes amarelecem na escuridão das gavetas fechadas.

          Mas ele queria partir bem cedo, antes  do anoitecer, não fosse o vento bravio a repuxar fiapos de maresia, essa corrente dispersa, olvidada na distância,  e contudo suspensa no intervalo de alguns passos, perdida no  côncavo encrispado  da montanha: porque ali era sempre montanha e praia e também prado  verdejante, ponteado de rubras corolas, talvez papoilas ou rosas silvestres, cujos espinhos se adoçaram no esplendor magnífico da relva.

         Era preciso arrancar-se dali, enfrentar as bátegas violentas de um súbito aguaceiro, mas ele bem via a nesga azul profundo que se abrira em torno de uma nuvem e lhe anunciava o advento  de mais do que uma estrela.

       A porta tinha rijos batentes; e com um tinir de ferros, como  se soltasse as grilhetas de uma prisão, abriu-a e deixou que o ar lavado  lhe inundasse a face afogueada, enquanto protegia com unção paternal  o saco de coiro, guardião das surpresas e dos segredos dos outros.

       Arrancou-se do limiar, subiu a gola da  capa, e bem depressa os seus passos ritmados deram corpo ao destino.

      Mensageiro, eis o que ele sempre fora, mensageiro dos homens para outros homens, mensageiro de certezas, de sonhos, de esperanças e de dúvidas.

     Nunca soubemos se ele chegou ao destino, apenas podemos crer que para lá do caminho fechado, uma clareira lhe mostrou o rumo certo  e a corporeidade das mensagens urdidas em papel, na estranheza de um tempo em que todos haviam esquecido a possibilidade de usar mensageiros lentos, enfrentando tempestades e marés certas, mãos sedentas do perfume exótico da viagem soltaram sorrisos ou lágrimas, perante  a surpresa do vulto  enigmático do último mensageiro.

 

Uma resposta to “O Último Mensageiro”

  1. moisés Says:

     
    Perderam-se os mensageiros e extraviaram-se os rectângulos manuscritos em papel, com um selo decorativo carimbado, vindo de um remetente que bem poderia ser prenúncio de felicidade. O perfume do papel, pardo ou requintado, perdeu-se nos labirintos dos impulsos da tecnologia, que frequentemente, em vez de alegrias, nos enebriam de dúvidas e receios. Uma missiva era um apostolado e denotava atenção.
    Que saudades guardo de todas as que ficaram por escrever!
     
    Um abraço
     
    Moisés Salgado

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