Perfumar os versos

 

PERFUMAR  OS  VERSOS

 

 

 

 

Esboços

tufos amarelos de pó

 feitos pedaços de matéria perfumada

 aí estão eles

 sobre os caminhos

 varrendo o chão

 libertos

 qual milagre

 do húmus nublosoo

 que o inverno talhou

 e dando-nos as primícias

 de novos despertares

 

 

Chamam-lhes

 acacia dealbata

 essas árvores

 tecidas em verde cinzento

 bruscamente enfeitiçadas

no ápice amarelo 

de uma luz improvável

 

 

 

Acacia dealbata

 com sinais de alba

 ou talvez de madrugada

 porque surgem

 de rompante

 nos dias gélidos

 e inundam de perfume

 os ares ensombrados

 

 

E são também

 as mimosas

 metáforas de um sol

 embebido em nuvens

 mimos

 de uma natureza esplendente

 e depois enregelada

 emanações da pujança

 obliterada por baixo da leiva

 

 

Amemo-las

enquanto duram

essas acacias dealbata

ou  mimosas flores

feitas anúncio

de suaves madrugadas

e róseos poentes

e enquanto dormimos

deixemos que elas velem

os sonhos e o sono

feitos sortilégio 

cor

e algum perfume 

 

 

 

 

 

(Quis escrever uns versos perfumados porque, mais do que a visão, um pouco dispersa no labirinto da urbe, é o perfume que me ronda as narinas e com ele quis ungir (em vão) esta página, impregnada à revelia do meu gosto, de outras emanações. Possa a inocência de um ou dois leitores tornar sensível  o odor  sublime da mimosa e preencher a lacuna dos meus versos que não pude perfumar!)

 

 

 

 

 

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