Transformar o mundo

                                           

                                          

 

                                                      DOMINGOS ALVAREZ

 

 

 

 

 

 

 

 

                                        TRANSFORMAR O MUNDO

 

 

           

 

            Os filósofos limitaram-se a interpretar o mundo; o que importa, porém, é transformá-lo.

            Tentarei analisar esta frase, a XI Tese sobre Feuerbach de Karl Marx, a uma luz um pouco diferente daquela que eu própria já empreendi em tempos, e fá-lo-ei apelando à minha experiência, não apenas de professora de Filosofia, mas também de filósofa.

            Marx  afirma que os filósofos se limitaram a interpretar o mundo e eu oponho que, se assim o tivessem feito, invariavelmente, nada de novo teria acontecido no campo do conhecimento e da acção, pois é sabido, ou pelo menos devia sê-lo, que a filosofia é uma busca empenhada e incessante dos caminhos da verdade e dos rumos a seguir na vida. O problema advém do uso que se faz da teoria, o problema reside no modo frouxo como os leitores de todos os tempos interpretam as sentenças gravadas em páginas de livros, o problema  não decorre, pois, da interpretação das verdades  registadas, em geral assentes em pressupostos de experiência ou de acuidade existencial dos seus autores, mas no jeito frívolo com que são avaliadas e no modo pouco pragmático com que são estudadas ou meramente lidas.     O próprio Marx foi um filósofo, enfileira como todos os outros na galeria dos intérpretes do mundo e, se a sua acção de escritor se articulou sempre com uma prática revolucionária, o certo é que hoje toda a sua teoria filosófica e económica não encontra, aparentemente, a sombra de um acolhimento.

            Estabelecendo um paralelismo com outras metodologias filosóficas, eu diria que Descartes, por exemplo, escreveu no seu tempo e no seu espaço – a Europa do século XVII – um manual de experiência existencial, O Discurso do Método, que, se alguma vez tivesse sido posto em prática, a não ser por ele próprio, bem poderia ter resolvido grandes problemas dos tempos futuros. Trata-se de uma obra simples, escrita em vernáculo, dirigida a um público não erudito e o seu teor é bem mais o de uma filosofia profundamente prática do que o de uma  teoria desarreigada da vida. Curiosamente, quatro séculos volvidos, O Discurso do Método de Descartes, enquanto autobiografia e logo a narração do método (caminho de vida) que conduziu o seu autor a certos percursos cuja finalidade foi, ao que tudo indica, coroada de êxito, podendo transformar-se  em  modelo para o leitor, nada perdeu da sua actualidade, e as quatro regras de precisão matemática aí consignadas revelar-se-iam,   hoje, como no século XVII, absolutamente suficientes para orientar qualquer um  na vida.

            Cito Descartes apenas, mas poderia acrescentar outros nomes à lista, e provavelmente virei a fazê-lo um dia, já que a verdadeira vocação da Filosofia sempre foi, e continua sendo, a aplicação, a relação com o mundo prático… pois não é o próprio Marx que diz, numa outra obra, que os filósofos não brotam da terra como os cogumelos, que eles são fruto da sua época e mais que representam a quintessência lúcida do seu tempo sem os quais faltaria à revolução a sua arma intelectual? Nessa medida, se formos capazes de ler os filósofos, expurgando da sua possível verborreia – e eu não creio que o genuíno filósofo se paute pela verborreia – a sentença, o plano de acção, o método, enfim, teremos em mãos todos os instrumentos capazes de operar a transformação de que fala Marx.

            A verdade, porém, é que a frase em epígrafe é uma tese sobre Feuerbach, e um relance sobre o pensamento deste alemão contemporâneo de Karl Marx mostra que, pese embora a influência que os seus conceitos, nomeadamente o de alienação, exerceram sobre Marx, ele se enredou nos caminhos abstractos da teoria, não conseguindo superar essa condição pelo que mereceu as críticas do discípulo, que, por outro lado, pode bem ser considerado seu continuador.

            Ora bem: os filósofos nunca se limitaram a interpretar o mundo, como quer Marx, os filósofos sempre foram a consciência lúcida e teórico-prática do seu tempo. O problema reside na análise, no vício interpretativo, na panóplia de teorias enredadas noutras teorias e quantas vezes parafraseando-as apenas, capazes de obliterar, do genuíno vigor da genuína filosofia, a sua corrente vital, a sua essência profundamente empenhada, não na mera interpretação, mas na construção do mundo.

            Concordo com a XI Tese sobre Feuerbach, é claro, mas também concordo com Feuerbach, do mesmo modo que Marx também concordou, e concordo de igual jeito com Sócrates e Platão e até com Buda ou Jesus Cristo. O importante não é negar e fazer da negação um ponto de partida para a construção de coisa nenhuma, o essencial é desentranhar da quintessência lúcida deste tempo e de todos os outros a base de sustentação capaz de nos fazer saltar os obstáculos do tempo e, se podemos ser obreiros da nossa própria vida, não curemos de inventar tudo de novo, pois o essencial está dito e foi escrito… mas ainda não foi realizado.

 

Uma resposta to “Transformar o mundo”

  1. Alcyone Says:

     Claro que não podemos fazer do «momento negativo» uma espécie de «alibi» para não fazer nada!
     Seria tanto ou mais grave do que pensar com os «heguelianos de estrita observância», que a Prússia
     era a «sintese» final do processo histórico!
     Mas impõe-se uma reflexão feita a partir das categorias de MARX, com todas as suas possibilidades
     de abertura e, ao mesmo tempo, um esfôrço para definir o  homem enquanto pensamento-acção!
     LOGOS E PRAXIS como dizia o F. Chatelet…
     Posso garantir-lhe que apesar do «RESTAURACIONISMO» a que se assiste na IGEJA CATÓLICA des-
     de JOÃO-PAULO II, muita reflexão continua a fazer-se na TEOLOGIA DA LIBERTAÇÃO!…
     
    – Mas oh ALTÍSSIMO-EL SHADAÏ quem é esta mulher, que mais parece lava a brotar de um vulcão que
     me PRO-VOCA e me induz a revolver aquilo que me parecia pura «ARQUEOLOGIA», quer em sentido
     platónico, quer em sentido de escavar para retirar do meu passado «COISAS NOVAS E VELHAS» ( NO-
     VA ET VETERA )-  «SALVE REGINA SPES…» – Em francês existe a distinção ESPÉRANCE-ESPOIR…
     Cá para mim, faço a síntese!
     

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