Contas de Vidro

 
 
 
 
                                                                                              

      
 
 
CONTAS DE VIDRO
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Acordou sobressaltada. A luz, acesa, os lençóis em desalinho, a roupa espalhada no chão, as gavetas abertas…esfregou os olhos e ergueu-se um pouco.
Eram duas horas da noite (Pablo Neruda ajudou-me  a perceber o equívoco de dizermos duas da madrugada) e aquele silêncio não enganava os sentidos despertos de Sofia: alguma coisa acontecera.
Levantou-se, devagar, e saiu do quarto: a casa estava deserta e fria, embora  vestígios da batalha recente perpassassem na penumbra do corredor. Dirigiu-se para a luz, filtrada pela porta da sala, e entrou. Sobre a mesa, nua, o pequeno anel de ouro, símbolo da união, da nobreza e da força, igual ao que usava no dedo médio da mão esquerda (um pequeno círculo duplo conduz a duas argolas unidas por uma corrente) jazia, humílimo e, pareceu-lhe, profundamente triste. Pegou-lhe e afagou os contornos do aro minúsculo… em seguida, deixou-o cair de mansinho.
Sentou-se na cadeira e pensou:
– Finalmente, ele assumiu o fim.
Só então reparou no molho de chaves que avultava, disperso, no desenho da alcatifa. Viu-as e, de imediato, lembrou uma frase solta da última conversa.
Com um ar agastado ( o habitual) Flávio quisera "acertar alguns pontos". Sofia dispôs-se a ouvi-lo, pensando no "acerto de contas" e no regresso à paz. E ouviu.
Os conflitos do passado emergiram todos uma vez e outra e outra. Ela percebeu que tudo era idêntico: apenas uma leve capa tapara o imenso rol que os havia desencontrado.
Então, disse apenas isto:
– Não, recuso esta conversa enterrada, esconjurei definitivamente o tempo que passou.
Quando fugia, com as mãos nos ouvidos para escapar à indignidade dos impropérios, teve tempo de ouvir o cinismo:
– Pois é…tu procuras príncipes e só encontras súbditos…
A frase fê-la estremecer e virou-se:
– Tu leste o meu diário?!…Não tinhas esse direito…
-Porque não? Há segredos? Se estava ali, pousado, era para que eu lesse…
Então, Sofia desistiu de vez, porque os impropérios cresciam na atmosfera  tranquila, a indignidade anunciava-se de novo…a indignidade da violência, da agressão e do equívoco.
O  Jogo das Contas de Vidro, aberto sobre a cama, absorveu-a. Lá dentro fizera-se silêncio; mais tarde, o sono quebrou-lhe a consciência. Um pouco antes de adormecer pensou que, à semelhança de outros dias, Flávio iria dormir no sofá, para, na manhã seguinte, retomarem a vida; depois, bruscamente, o sono levou-a e pôde esquecer a agonia emergente do recomeço, a ignomínia do jogo de palavras e dos gestos escusos.
Flávio, porém, partira e, no seu lugar morno, os símbolos do abandono marcavam uma nova era.
Encolheu os ombros, apagou a luz e regressou à cama.
Hermann Hesse olhava-a com os seus olhos envidraçados: leu um pouco, mas as palavras enredavam-se todas e O Jogo das Contas de Vidro tardava a revelar o segredo.
Salvou-lhe a noite a biografia de Aristóteles – o estagirita que foge para Eubeia. Quando acordou, de manhã, quis registar o acontecimento no diário, mas verificou que se fizera um inenarrável vazio.

2 Respostas to “Contas de Vidro”

  1. Alcyone Says:

     
    O «trágico quotidiano» ( vide MAETERLINK ) é apenas isto: «a porção de perigo e de risco que nos acompanha, por cada passo que damos e até por cada passo
    que não damos»!…
     
    …REGINA, como se exprime tão bem!…

  2. Alcyone Says:

     

    Fernando Pessoa 
    Grandes mistérios habitam
     

    O limiar do meu ser, O limiar onde hesitam Grandes pássaros que fitam Meu transpor tardo de os ver. 
    São aves cheias de abismo, Como nos sonhos as há. Hesito se sondo e cismo, E à minha alma é cataclismo O limiar onde está. 
    Então desperto do sonho E sou alegre da luz, Inda que em dia tristonho; Porque o limiar é medonho E todo passo é uma cruz.   

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