O fim há-de anunciar-se de outra maneira

       

                                              

                                   

 

                                      O FIM HÁ-DE ANUNCIAR-SE DE OUTRA MANEIRA

 

 

 

 

        Seguia pela rua, com as mãos nos bolsos, obstinadamente de cabeça baixa. Várias vezes foi acotovelado pelos transeuntes apressados mas não se dispôs a reagir.         Habitualmente era muito sensível aos atropelos da multidão mas, naquele dia, caminhava cego e surdo, numa apatia cansada.

        Quando ouviu as horas, compassadas e antigas, levantou a cabeça e vislumbrou à sua frente a mole compacta da catedral. Foi a primeira vez que reagiu, despertando, ao ritmo das pancadas, do torpor insensato que o prendia a uma espécie de inferno ou de delírio.

        Entrou na igreja, sumptuosa e hierática, e encostou-se a uma coluna.

        -Não, não é o fim da minha vida. – Pensou. – O fim há-de anunciar-se de outra maneira.

        É certo que abandonara a família, de vez. A devastação que havia deixado nas pessoas e nas coisas não lhe permitiria regressar nunca mais. Mas aquilo não tinha um sabor de fim.

        Num gesto mecânico e habitual afagou o anel. Estremeceu e olhou o dedo: àquela luz pareceu-lhe queimado e disforme e o aro de oiro uma chama viva. Arrancou-o e ficou a pensar como iria livrar-se daquela memória.

        – Ah, a caixa das esmolas! – Murmurou.

        E, com um sorriso algo demente, no rosto vincado, fê-lo passar pela ranhura e ouviu-o misturar-se, tilintando, com as moedas da caixa.

        O acto aliviou-lhe a tensão e saiu, quase desenvolto, da catedral.

        A manhã resplandecia por toda a cidade e, ao fundo, a foz do rio, com algumas velas brancas, em suave crispação fê-lo encher de ar o peito encovado.

        Mas, não foi capaz de descer a rua e partir ao encontro do chamamento azul. Agora gostaria de voltar atrás, deitar-se na cama onde espalhara a ruína havia pouco, para sentir, nem que fosse uma vez só, o afagar da mão onde brilhava um anel gémeo do seu.

        – Do anel? Do meu anel?! – Gritou, aflito, no espanto confuso de quem já se perdeu.

        Rompeu a muralha humana que assistia à missa e voltou a entrar na catedral.         Sufocado pela ansiedade, aos tropeções, alcançou a caixa das esmolas, empurrou uma velha mulher que ali orava baixinho e desferiu um murro.

        A madeira despedaçou-se e centenas de moedas rolaram na laje. Pôs-se de joelhos e, na semi-obscuridade, tacteou desesperadamente durante alguns segundos.

        Quando levantou o olhar não viu os homens fardados que o observavam severamente, na ânsia em que estava de recuperar um gesto.

        Um suporte de velas votivas pareceu-lhe a salvação: arrastou-o, a custo, como se fosse uma arma, entre os gritos dos devotos e o ruído abafado das velas que tombavam e, de novo junto da caixa aos pedaços, pôs-se à procura.

        Foi então que lhe agarraram violentamente o corpo e o fizeram erguer-se: viu um homem austero, e depois outro, sentiu os pulsos apertados por dois anéis frios. Sorriu e deixou-se levar.

        – Não, não é o fim da minha vida. – Pensou outra vez. – O fim há-de anunciar-se de outra maneira.

 

 

 

2 Respostas to “O fim há-de anunciar-se de outra maneira”

  1. Alcyone Says:

     

    Fernando Pessoa
    Poesias Inéditas
     
    Vou com um passo como de ir parar
     
     

    Vou com um passo como de ir parar  Pela rua vazia  Nem sinto como um mal ou mal-\’star  A vaga chuva fria…
    Vou pela noite da indistinta rua  Alheio a andar e a ser  E a chuva leve em minha face nua  Orvalha de esquecer … 
    Sim, tudo esqueço.Pela noite sou  Noite também  E vagaroso eu                    …] vou,  Fantasma de magia. 
    No vácuo que se forma de eu ser eu  E da noite ser triste  Meu ser existe sem que seja meu  E anônimo persiste … 
    Qual é o instinto que fica esquecido  Entre o passeio e a rua?  Vou sob a chuva, amargo e diluído  E tenho a face nua.   

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