O Besta Célere

 

 

 

 

Hieronymus  Bosch , O Jardim das Delícias (detalhe)

 

 

 

 

CAPÍTULO 99

 

O Besta Célere tinha duas profissões nas quais trabalhava por conta própria e ainda que nos possa parecer confusa a relação de complementaridade que ele estabelecia entre ambas o certo é que a regularidade que imprimia à sua vida e da qual já demos uma ponta de testemunho conseguiu o impossível para o comum dos mortais e eis que o nosso herói célere e prático até mais não era simultaneamente vendedor de relógios e escrevedor de cartas. Isso mesmo, vendedor de relógios e escrevedor de cartas, e todo o material de que necessitava para o exercício do seu mister cabia numa mala de quarenta centímetros de comprimento por trinta de largura com uma altura de exactamente vinte e oito centímetros e cinquenta. Era uma mala usada mas robusta de couro negro atada com duas correias que ele usava a tiracolo para poder ter livres as mãos e em cujo interior cuidadosamente forrado a cetim azul claro e dividido em duas partes separadas por uma espécie de tabique de couro também preto guardava o mostruário de relógios de todas as formas e tamanhos e os maços brilhantes de papel de seda e de envelopes assim como um estojo de canetas especialíssimas. Ele próprio tinha inventado o papel e concebido as canetas e orgulhava-se muito da sua inspiração naquele dia já longínquo em que descobrira a vocação de escrevedor.

            Foi um extraordinário amanhecer o domingo de Páscoa de há quatro anos antes quando o Besta Célere ainda não era tão célere pois o seu plano de celeridade não estava ainda aperfeiçoado e não se levantava tão cedo e dormia no quarto da falecida bisavó no segundo andar da antiquada mansão que dela havia herdado nem sabia quando. Estava a preguiçar um pouco (afinal era domingo e nesse tempo permitia-se algumas fugas à rotina) e começou de repente a divagar, meu amor como eu adivinho as covas do teu rosto mergulhadas numa suave epiderme de veludo como eu gostaria de te ter aqui para depositar beijos castos na curva do teu queixo e apanhar na ponta dos dedos a orla da tua pálpebra…e sentindo-se estranho pois não havia qualquer amor na sua vida nem sequer conhecia nenhuma face de veludo ou fosse o que fosse de semelhante levantou-se e ali mesmo sentado à mesa de pau preto que mais tarde transformaria em oratório como já vimos redigiu a primeira das suas epístolas de escrevedor de cartas. Extasiado demorou-se a reler e a reler corrigindo aqui aumentando acolá acrescentando uma vírgula substituindo um adjectivo e embora o resultado final fosse um amontoado de rasuras em papel ordinário numa caligrafia sofrível o que ele leu para si próprio a meia voz merecia um destinatário. Não se demorou muito a pensar quem poderia ser tal predestinado ou talvez predestinada de tão extraordinária missiva (afinal ele já fazia jus ao apelido Célere do seu nome Besta e não se permitia perder tempo, se bem que fosse domingo) e foi vender relógios com alguma nostalgia naquele dia de repique de sinos pelas praças e avenidas soalheiras. Nos dez minutos que então costumava dedicar a meditações em coisas novas retomou o papel que levara dobrado no bolso do casaco e uma vez mais se deleitou no primeiro verdadeiro acto criativo da sua vida já longa. 

 

Meu amor:

 Como eu adivinho as covas do teu rosto mergulhadas numa suave epiderme de veludo, como eu gostaria de te ter aqui para depositar beijos castos na curva do teu queixo e apanhar na ponta dos dedos a orla da tua pálpebra! Deixa-me ouvir as batidas ternas do teu coração amante e enlevar-me nelas como se fossem música. Já compus sinfonias, acredita, meu anjo, já as compus como se fossem ecos desvanecidos que da caixa do teu peito casto se evolaram até aos meus dedos ditando-me a ondulação da pauta, os ritmos, os acordes e todos os sinais. Agora, só falta que chegues, para que tudo aquilo que imagino traga os toques do fascínio feitas primaveras ou, quem sabe, os prenúncios alucinantes do verão. Até lá serei para sempre o teu (..)

 

Besta Célere tinha duas grossas lágrimas prestes a desprenderem-se dos olhos semicerrados quando acabou de ler estas palavras cuja destinatária não conhecia. E se quase chorava ele que em nada era atreito a semelhantes manifestações emotivas, se as lágrimas lhe escorriam mesmo dos olhos estarrecidos fazendo regos de imprecisão na tinta do manuscrito ah não seria por causa daquele parênteses e daquelas reticências que lhe diziam à saciedade não poder ser ele o signatário de tais enlevos amorosos?

Porém, cedo limpou as lágrimas duas vezes importunas pois lhe estragaram a primeira das muitas epístolas que haveria de fabricar e lhe fizeram ultrapassar em sete segundos os dez minutos de meditação metafísica daquele inusitado domingo de Páscoa.

Guardou no bolso a folha humedecida pelo pranto e abriu ali mesmo a mala da sua profissão de vendedor de relógios, a única que na altura lhe dava a um só tempo ocupação para os dias e sustento para a vida.

Irritado com o incidente das lágrimas pois, inversamente ao pensamento comum, segundo o qual o pranto lava a alma, o choro em nada o aliviava mas antes lhe punha no ser uma profunda impressão de quebranto, de frustração e de agonia. Ora num estado desses como iria vender os seus belos relógios e assim garantir o ganho daquele domingo de Páscoa em que se permitia trabalhar apenas algumas horas?

Naquele tempo, o Besta Célere não era religioso, embora desconfiasse que um belo dia, alguns meses depois de ter nascido talvez o tivessem baptizado às pressas numa igreja de uma aldeia serrana. Desconfiava apenas nem saberia dizer porquê, talvez alguém lhe tivesse mostrado a certidão de baptismo quem sabe essa mãe de quem um dia nascera e que não conseguia nunca recordar? Ora, não tendo a certeza absoluta da sua filiação religiosa não podia em consciência respeitar ou celebrar os domingos de Páscoa cujo significado conhecia apenas de uma forma teórica. Por isso, trabalhava também naqueles dias chamados santos pois para a sua consciência de Besta Célere a santidade da Páscoa ou de outro dia qualquer não fazia o mínimo sentido.

Abriu a mala sobre o banco do jardim onde se sentara e acabara cedendo à emoção e duas dezenas de relógios perfeitamente alinhados e muito bem presos nas pequenas alças que ele tinha costurado no forro acetinado mostraram as suas cores esplêndidas aos raros transeuntes. Ele próprio montava os relógios, aprendera a fazê-lo com o avô, exímio artesão, e na altura nem pela cabeça lhe passava que viria a fazer de tal arte ocasião de labor voltado para a sobrevivência. Nem sabia muito bem que tinha aprendido pois na época era uma criança e apenas a curiosidade o fazia seguir os movimentos precisos do velho senhor com as suas pinças e os seus pequenos instrumentos de que jamais veio a conhecer os nomes. O certo é que certas circunstâncias (a que foi chegando quando a idade adulta lhe aconteceu e as marcas de outras actividades se lhe esfumaram de todo) levaram-no a outros caminhos e viu-se um certo dia de verão extraordinariamente quente deitado na cama de pau preto da bisavó rodeado de oratórios e escapulários imagens de santos e grossas velas apagadas à mistura com uma colecção extraordinária de modelos bizarros de relógios que acabara herdando juntamente com a mansão dessa bisavó ignota e a já referida geringonça de fazer café mais tarde posta de lado dada a celeridade da vida a que viria em definitivo a aderir. Besta Célere levantou-se empapado em suor e sem qualquer esboço de celeridade foi observar os pequenos engenhos um a um com intensa curiosidade e interesse. De um momento para o outro estava a desmontar o primeiro, depois o segundo, e daí a pouco sobre a cómoda de pau preto que fora da bisavó e agora lhe pertencia, nem sabia muito bem porque artes mágicas, estendia-se uma profusão incrível de minúsculas e engenhosas rodas, de insignificantes parafusos e porcas, e outras mesquinhas peças, tão mesquinhas e anónimas que lhe parecia impossível servirem fosse para que tarefa fosse, quanto mais para dar vida às delicadas máquinas do avô! O certo é que começou a manipulá-las e, a princípio desajeitadamente mas, cada vez com mais eficácia e celeridade, não só remontou todos os relógios que havia esventrado como percebeu que podia começar a construí-los ele próprio! Sentiu-se uma espécie de Mozart da engenharia relojoeira ou lá como se chamava a arte de montar relógios nem isso lhe importava muito pois sabia que daí em diante ocuparia o seu tempo a inventar e construir essas fantásticas máquinas de medir o tempo, ele que decidira romper para sempre com os horários quando abandonara o último dos seus empregos!

Foi aí que começou a fazer jus ao apelido herdado de um antepassado quem sabe o trisavô pai da bisavó da mansão da geringonça do café e da cómoda de pau preto e para ganhar o tempo que sentira ter perdido em toda a sua vida pretérita embora soubesse vagamente ser tal pretensão uma quimera, mas que seria do homem sem quimeras, começou de imediato a engendrar o plano da celeridade já em pleno vigor quando demos com ele na esteira esgarçada da sua cama ao lado do fogão e em fúria porque um reles mecanismo electrónico que absurdamente ele o célere montador de relógios não tinha construído mas comprado celeremente numa loja do bairro lhe tinha feito perder três preciosos segundos! Mais tarde entenderemos por que razão o Besta Célere tivera necessidade de recorrer a semelhante aberração em termos de medidor do tempo mas não agora que assistimos pela primeira vez ao exercício da profissão do Besta Célere ali, num banco de jardim em soalheiro domingo de Páscoa.

Aberta então a mala de couro preto sobre o banco verde de madeira onde se sentara e exibindo ali de imediato duas dezenas de relógios alinhados e presos suavemente no suave cetim azul claro, Besta Célere levantou-se e deu alguns passos por detrás do banco até que definitivamente se postou aí, de um modo simultaneamente cândido e apelativo atitude que ele treinara dezenas de vezes ao espelho grandioso da bisavó por entender que fazia dimanar da sua figura assim transfigurado uma grande atracção sobre ao passantes. Com efeito, tal como estava, vestido sobriamente de fato escuro completo, camisa branca e gravata discreta, com um chapéu cinzento ornado de uma pena de não sei que exótico pássaro pois tinha todas as cores do arco-íris, era impossível não chamar as atenções, tanto mais que colocava os braços estendidos sobre o banco e apoiava nele as mãos de um modo cativante. Com aquela expressão no rosto a um tempo repleta de dignidade humana e da necessidade urgente de estabelecer comunicação cedo viu aproximar-se um casal ainda jovem da mala aberta e reluzente. Não disse nada não era esse o seu método, deixou-se ficar uns instantes como se fosse uma estátua mas foi percebendo e anotando mentalmente toda a gama das expressões dos seus dois hipotéticos compradores. A mulher, um tudo-nada roliça para o seu gosto mas de face saudável e limpa dava o braço a um matulão moreno de ar grave não isento contudo de bonomia. Pelas roupas que ambos usavam Besta Célere percebeu não só que acabavam de regressar da igreja mas também que pertenciam a uma certa classe média o que o encheu de esperança: acabados de sair do serviço religioso, embora naquele tempo Besta Célere não participasse nele e apenas pudesse suspeitar do tipo de atitude que acontecerá a pessoas honestas que vão à missa em dia de Páscoa, aquelas só poderiam estar animados das mais puras intenções. Afinando um pouco o olfacto apercebeu-se mesmo de um discreto odor a incenso à mistura com os perfumes simples de corpos recém-lavados e foi nesse exacto momento que a mulher ergueu os olhos do mostruário e encarou Besta Célere com uma luminosidade muito peculiar nos olhos grandes e negros. De imediato ele abandonou o seu jeito de estátua e dando a volta ao banco aproximou-se do par, sem dizer uma palavra mas alterando a sua postura apelativa e cândida para um ar de receptividade inquisitorial que também lhe fizera gastar algumas horas à frente do espelho dourado do quarto da bisavó. A mulher levantou os dedos roliços, com um anel de oiro reluzente enterrado na carne avermelhada e apontou um delicado relógio em forma de coração, todo ornamentado de grinaldas floridas em tons rosados e verdes. Sem esperar qualquer outro sinal e antes que fosse tarde demais Besta Célere desprendeu o mecanismo da sua argola acetinada e colocou-o celeremente mas com suavidade na mão que permanecia estendida. A mulher olhou-o com enlevo, analisou com a ponta do dedo a textura da pulseira tecida em seda com um desenho esbatido que semelhava uma corda e pediu para experimentá-lo. Besta Célere acorreu a auxiliar a manobra seguido pelo olhar grave do matulão e conseguiu fazê-lo com tanta eficácia que nem de leve tocou a epiderme do pulso da criatura encantada e até encantadora que de repente tinha à sua frente. Percebeu com toda a facilidade que aquele relógio não se adequava nada às formas robustas da mulher e que à semelhança do que já acontecia com o anel afundado nos dedos papudos também a corrente do relógio acabaria abrindo um rego no pulso bem nutrido. Não lhe cabia contudo fazer apreciações do género a menos que lhas pedissem e permaneceu em silêncio enquanto o casal trocava impressões a meia voz tornando-se claro para a perspicácia do Besta Célere que a mulher desejava tanto o relógio cintilante no pulso e radioso nas suas cores primaveris absolutamente análogo ao vestido de ramagens em fundo rosa pálido que ela usava, que já não havia modo de o desprender do corpo e que o matulão teria que desembolsar ali mesmo a quantia necessária para a sua aquisição. Não que isso interessasse particularmente ao rapagão, havia nos modos do homem uma brusquidão atenciosa uma ternura disfarçada de rudeza o que significava que ele não saberia recusar nada à mulher mas também que não era capaz de se dispor a oferecer fosse o que fosse sem ela lho pedir com o veludo quase orvalhado dos olhos negros. E foi assim que Besta Célere vendeu o seu primeiro relógio naquela manhã ensolarada de Abril, por sinal domingo de Páscoa.

A partir daí foi um autêntico corrupio pois o dia estava convidativo e muita gente veio passear-se no jardim e, a maior parte delas, detinha-se junto de Besta Célere na sua posição de manequim por detrás do banco, olhando e tecendo considerações. De vez em quando era forçado a passar à segunda atitude, nem sempre com boa vontade mas seguindo à risca a encenação, porque tinha invariavelmente a percepção de quem seriam os verdadeiros compradores e aqueles que só queriam passar o tempo, mexendo e satisfazendo a curiosidade sem a menor intenção de adquirir a peça.

Quando os seus relógios marcavam com uma regularidade impressionante, e em todos os tons e feitios possíveis, o meio dia, Besta Célere saiu da sua postura com os membros doridos e os músculos faciais quase anestesiados, acedeu celeremente à caixa ainda aberta mas com alguns vazios no mostruário o que significava que a manhã fora boa, fechou-a e abandonou o jardim.

 

 

                                                                                                                                                                 (continua)

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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