O Besta Célere

 

Hieronymus Bosch, Pecado Capital  (detalhe)

 

 

 

(Nota: Esta é uma obra de ficção, original e inédita, que será publicada nesta página, por capítulos, sem prejuízo da sua edição posterior em livro.Qualquer semelhança com factos e pessoas reais deverá ser considerada mera coincidência.)

 

 

 

 

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CAPÍTULO 100

 

 

 

Eram seis horas e trinta e três minutos de uma espécie de madrugada invernosa quando o Besta Célere abriu os olhos estremunhado. Levantou-se de supetão da enxerga onde se enrodilhara toda a noite e já vermelho de fúria apesar do frio ou talvez por causa dele pois o vermelho pode acossar o rosto por via do frio ou do calor ou por nenhum deles, mas isso não sabemos pois estamos a olhá-lo pela primeira vez (ainda que o conheçamos intimamente) agarrou o despertador electrónico e agitou-o com fúria. Mais uma vez a estúpida da máquina o traíra, estorvando a rigidez automática dos seus horários e já lá iam um trinta e cinco segundos de atraso que (ele sabia-o bem) iria pagar caro daí a pouco ou quem sabe mais para o fim do dia.

Entretanto percebeu outra coisa e ficou ainda mais enfurecido: viu que aquelas reflexões prematuras (só se permitia pensar depois das oito da manhã) lhe tinham extorquido mais alguns segundos o que constituía uma autêntica tragédia.

Como já dormia meio vestido para não perder tempo de manhã e apenas tomava banho aos sábados, pois ao fazer uma análise exaustiva das suas secreções corporais diárias percebera que não só lhe era essencial como alimento a camada de gordura depositada à superfície da pele, podendo comer menos e assim ganhar tempo, mas ainda que esfregar demasiado o corpo lhe consumia a epiderme frágil. Ora ele precisava de viver celeremente todos os segundos que numa espécie de vertigem iam correndo no carrilhão oculto dos confins do seu cérebro.

Calçar os sapatos, de cujos atacadores prescindira uma vez que era lento a apertá-los, dado o esmero que usava aplicar nesse gesto (muitas vezes os fios embaraçavam-se e davam nós pelo que despendia ainda mais tempo na operação) costumava ser um acto rápido pois deixava-os na linha e orientação exactas da descida da cama bastando-lhe pôr os pés no chão para os ter de imediato enfiados nos pés. Naquele dia, nervoso por causa do despertador outra vez avariado (não dispunha de tempo, no seu apertado e célere horário para investigar as causas desse embaraço electrónico) aflito com a perda de segundos na fúria inicial do dia, só encontrou os sapatos à segunda tentativa percebendo que já se haviam escoado mais cinco segundos de modo absolutamente despropositado.

Tinha colocado a cama na cozinha, quase ao lado da mesa e a dois passos do fogão, e assim bastava-lhe um pequeníssimo movimento do corpo para aceder aos utensílios necessários ao pequeno-almoço que aos poucos reduzira a um ritual mínimo de onde excluíra primeiro as torradas, pelo tempo que demoravam a ficar a seu gosto, depois o café pois apreciava-o moído no momento e coado gota a gota numa geringonça herdada da bisavó e em seguida o leite que jamais conseguia beber antes de o ferver duas vezes com um pavor quase irracional das bactérias e do vírus tremendo causador da encefalopatia espongiforme bovina, as primeiras responsáveis por incómodas diarreias que o compeliam a gastar demasiados minutos em torno da sanita ou, uma vez na rua, a procurar com aflição os quase sempre imundos lavabos públicos, o segundo ainda mais apavorante pois tremendo e oscilando como uma vaca louca de que modo poderia aproveitar o tempo com a precisão rígida do seu sistema cronometrado ao milésimo de segundo?

Por isso, acabara concebendo uma espécie de papa feita essencialmente com aveia a que juntava sumo de fruta a qual lhe dava para três dias; estava no entanto a congeminar (embora só se permitisse gastar nessa congeminação dois segundos por dia) um plano para armazenar sem riscos uma maior quantidade do produto e não ter necessidade de perder cerca de vinte e três minutos de três em três dias na elaboração da mixórdia.

Retirou para o prato as cinco colheres do preparado com que costumava alimentar-se todas as manhãs não só porque chegara à conclusão que tal porção lhe era suficiente do ponto de vista calórico, dada a sua baixa estatura e a sua compleição quase esquelética, mas essencialmente porque os segundos que demorava a deglutir a substância, exactamente quarenta e cinco e três décimas, lhe davam a satisfação do cumprimento de tempo exacto para tão trivial ocupação.

Ele sabia que embora fosse Besta Célere de seu nome próprio e apelido era, no fundo, um homem e, como tal alimentar-se ainda lhe era indispensável; mas a sua experiência de vivente racional ensinara-lhe que as esquisitices do paladar não faziam o mínimo sentido e que qualquer mistura de ingredientes desde que previamente pesados e analisados quanto às suas propriedades nutrientes servem à manutenção do corpo e não lhe pareciam dignas de sujeitos pensantes preocupações excessivas com semelhantes matérias.

Depois de comer e em passo acelerado, subiu dois lanços de escadas o que era um incómodo insolúvel já que não conseguira ainda maneira de instalar o quarto de banho mais próximo do espaço onde dormia e se alimentava, dada a panóplia de canos antigos e outros mecanismos ali instalados há décadas (herdara a casa da bisavó, a mesma que lhe deixara a tornada inútil geringonça do café) e sem se preocupar com as teias de aranha e a poeira acumuladas pelos tectos e corredores acedeu a um imaculado espaço onde de imediato baixou as calças que também não tinham fecho ou botões mas apenas um cómodo elástico e que costurara às cuecas para não necessitar de executar duas vezes um gesto tão inútil quanto fastidioso e demorado (por vezes os elásticos não deslizavam pelas nádegas ossudas logo à primeira e Besta Célere desesperava na luta com os defeitos do vestuário vendo os segundos a escoar-se sem apelo ou remissão possíveis) e com rigor e precisão urinou e defecou em simultâneo permitindo-se nessa operação dez segundos inteiros os primeiros de verdadeiro prazer do dia emergente.

Celeremente, e após executada aquela função biológica escassa mas satisfatória dada a exiguidade e fácil digestão dos alimentos que seleccionara para a sua manutenção física, lavou as mãos e a cara, esfregou com uma esponja as partes baixas e outra vez em passadas rápidas, saltando as escadas duas a duas desceu ao rés-do-chão.

Nunca fazia a cama, quer dizer, não precisava pois há muito pusera de lado lençóis e cobertores usando para dormir um velho mas confortável saco-cama no qual se enfiava e do qual aprendera a sair sem sequer desapertar o fecho; também não lavava a loiça pois usava utensílios descartáveis que armazenava em enormes quantidades e dos quais se desfazia com toda a celeridade no primeiro contentor do lixo que encontrava no caminho, logo que saía de casa.

Ainda não era o tempo de começar a tarefa do pensamento, se bem que naquele dia houvesse infringido por alguns segundos essa regra de ouro: o relógio da parede dizia-lhe que eram exactamente sete horas e doze segundos o que significava um atraso de apenas um minuto o que era muito bom podendo ainda ser recuperado de forma satisfatória.

Besta Célere era muito religioso podemos mesmo dizer que era devoto até praticamente beato e, como não tinha tempo para rezar durante as suas ocupadíssimas vinte e quatro horas e sem rezar jamais conseguia fazer fosse o que fosse de jeito (desconfiava, aliás, que o atraso matinal se devia em grande parte ao facto de ter estado pouco atento nas orações do dia anterior pois sem o desejar certos pensamentos lhe chegaram antes do tempo marcado) era aquele o horário adequado às únicas e suficientes rezas do dia.

Entre a cama e o armário onde guardava as peças de vestuário essenciais à sua célere existência tinha instalado uma espécie de oratório numa mesa de pau-preto também herdada da bisavó, peça muito rara e valiosa talvez a única que se permitia utilizar pois dedicava-a aos seus diálogos com Deus e na sua predisposição de quase teólogo considerava que, mais do que ele ou qualquer outro homem, a divindade merecia essa consideração se bem que fosse apenas um luxo material e talvez Deus ou os santos pouco ligassem a semelhantes favores. De qualquer modo a mesa de pau-preto com as suas pernas trabalhadas e o brilho da cera que ele mantinha escrupulosamente radioso parecia-lhe por enquanto uma forma de homenagem. Deu um jeito com a mão aos cabelos crespos e negros, alisou a barba que usava comprida (desistira há tempos do inútil e moroso acto de barbear-se e aparava os pêlos em crescimento contínuo no último sábado de cada mês) endireitou as calças, meteu a camisa por dentro e alisou a camisola, retirou do armário um casaco de corte clássico vestiu-o apertando o único botão e ajoelhou-se com uma vénia e uma persignação célere numa puída almofada de veludo vermelho, outra herança da velha e há muito falecida bisavó.

A princípio, quando estabelecera para seu uso de Besta Célere (e este epíteto convinha-lhe tanto enquanto designação onomástica como em termos de carácter e de comportamento o que iremos vendo aos poucos à medida que o formos conhecendo) o horário e o modo de o viver em cada dia, costumava dar ao seu particular culto religioso o tempo de rezar um terço, embora tudo isto só pudesse ter acontecido quando decidiu converter-se ao catolicismo e aprender as orações respectivas. Aos poucos, porém, naquele tempo que ainda não chegara neste dia em que nos é apresentada tão peculiar personagem, e que dedicava a pensamentos de ordem prática ou minúsculas cogitações metafísicas, decidira abreviar a reza pois ao fazê-la seguindo as contas todas do rosário não só despendia um tempo considerável, muito mais do que podia permitir-se, como a repetição de tantas ave-marias e padres-nossos lhe parecia não só um desperdício como um encadeamento mecânico de palavras e de sons cedo esvaziados de sentido. E assim reduzira o terço a cinco ave-marias cinco pais-nossos e cinco glórias rematando a reza com uma salve rainha e o credo, oração que ele considerava imprescindível no reafirmar diário da crença. Tal devoção que ele se permitia fazer com tempo, se bem que condensado como já dissemos pois não rezava o terço inteiro, demorava-lhe exactamente trinta e três minutos o que é considerável mas temos que atender ao facto de o Besta Célere ser mesmo devoto e consciente, quase beato quase teólogo e quem sabe um dia padre quando tivesse tempo; por isso meditava cada uma das ave marias cujas palavras soletrava, cujo espírito tentava acompanhar reflexivamente, cuja importância salvadora tentava assimilar na mesma proporção com que assimilara antes as papas de aveia.

Dava-lhe um especial prazer repetir as palavras do pai-nosso.

Nem ele saberia explicar muito bem a si mesmo as razões da preferência por uma tal prece mas sempre que começava a recitar com uma voz suave e cava (rezava sempre em voz alta) Padrenosso que estais no céu, e ele dizia sempre padre (e não pai) à maneira antiga, subia-lhe uma onda de calor e tinha que fechar os olhos por instantes no mais absoluto dos deleites. A seguir vinha a parte reflexiva, seja feita a vossa vontade assim na terra como no céu, e ele achava extraordinário dar a outrem com tantos e tão grandiosos poderes o direito sagrado de decidir sobre tudo na terra e no céu e por isso sobre ele próprio Besta Célere ali rojado numa almofada vinda de outras macerações mas repleta de metafísica. Porém, a segunda parte do pai-nosso aquela referência singela ao pão-nosso quotidiano, aquele modo subtil em que o pai se faz pão e o divino se torna humano percorriam-no de um frémito extremo e ele bem via que fora abençoado pois esse pão metafórico era-lhe dado na labuta diária com que ia existindo celeremente. Chorava sempre no auge do perdoai-nos as nossas ofensas assim como nós perdoamos a quem nos têm ofendido, ele bem via que deus lhe perdoava, mais que deus o privilegiava diariamente e esse privilégio esse perdão haviam conduzido ao esvaziamento completo de toda a mágoa que pudesse ainda restar no fundo de si quanto às ofensas alheias. Nem nelas pensava já há vários anos aceitava tudo o que lhe haviam feito como dádivas como bênçãos desse pai a quem devia muito mais do que alguma vez pensara ser possível. Pai com maiúscula entenda-se o pai do padre-nosso que quanto ao outro não se permitia sequer dedicar-lhe o mais ínfimo dos pensamentos. Perdoamos a quem nos tem ofendido e isto parecia-lhe uma troca tão bela com deus que nos perdoava a nós enquanto nós perdoamos aos outros e assim tudo se esvaziava de ofensas, para sempre um reinado sem ofensas sem ofendidos sem ofensores tudo por via desta espécie de negócio com o grande pai ou padre aquele que ele imaginava no seu arroubo místico muito parecido com ele Besta Célere de barba negra e cerrada de cabelos crespos e compridos de vida organizada e proficiente. As ave-marias não lhe mereciam tanta emoção reflexiva apenas se curvava mais e mais quase até tocar o azulejo frio da cozinha perante esse prodígio virginal capaz de engendrar uma criatura predestinada pensando uma e muitas vezes na própria mãe que nunca vira mas que revestia com as cores azuis e brancas dessa virgem apesar de tudo mãe. As restantes orações eram complementos destas duas jaculatórias ou recitativos com que louvava as virtudes celestiais e assim chegava ao auge, o credo, aquela reafirmação contínua da crença que não lhe fora incutida por ninguém mas a que chegara por circunstâncias inefáveis que a seu tempo narraremos.

Depois da longa meditação que se permitia em torno destas extraordinárias orações só tinha o tempo suficiente para se levantar e, com celeridade, agarrar os instrumentos de trabalho que já tinha acondicionados junto à maciça porta de entrada para sair de casa aonde só regressaria doze horas depois.

 

 

 

                                                                                                                                                                                                                    (continua)

 

 

 

Uma resposta to “O Besta Célere”

  1. Alcyone Says:

     
    Excelente metáfora, que nos permite entender o Deus á imagem do Homem, tão bem descrita por
    Feuerbach, do que Marx disse: «A religião é o ópio do povo», daquilo que repugnava ao ilustre Fr.
    Nietzshe, e, fnalmente da célebre frase de B. Brecht: «A missa é o teatro da burguesia»!…
     
    Deus foi de tal modo «instrumentalizado» por gente abjecta que acabou por invetar um Deus, pura
    projecção, que por sua vez permitiu ao homem tornar-se «lobo do homem», retirar na prática toda
    a «humanidade ao humano» e, assim, fazer do homem um abominável bicho, que procura atrvés de
    artimanhas pseudo-teóricas ser muito pior do que Saturno-Kronos…
     

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