Besta Célere

 

 

 

 

 

 

 

 

SALVADOR DALÍ, EXPLOSÃO

 

 

 

 

 

 

Capítulo 98

 

Besta Célere aprendera a elegância, tinha ele absoluta noção desse facto, embora não possamos ter a certeza de que era um autêntico modelo de boas maneiras ao tempo em que o encontrámos a dormir na enxerga dura da cama encostada à mesa da cozinha. Antes disso tinha uns modos grosseiros pois, que ele se lembrasse, nunca ninguém lhe ensinara como proceder na vida social, nascera em berço pobre, supunha, e passara fome e frio nas trapeiras de certas cidades por onde o fizeram vaguear durante toda a infância. Valeu-lhe a bisavó, não porque fosse de uma educação primorosa, naquela época não se gastava grande tempo com a educação das mulheres, mas o dinheiro trazido por um casamento de amor não correspondido (quem amava era ele porque ela apenas se acomodou) foi fazendo o milagre, e uma vez entre cristais, porcelanas e brocados, passeando em avenidas e viajando pelos locais mais recônditos na companhia do cavalheiro garboso que a amava nem ela saberia dizer porquê, acabou muito educada e perfeitamente capaz de dominar uma legião de criados, várias propriedades e aquela mesma mansão por onde se espojava o Besta Célere em solitária e anónima existência.

Foi através dela que aprendeu tudo o que sabia e quando chegou a casa nesse extravagante domingo de Páscoa nem pensou em almoçar de tal modo lhe fervia a cabeça agitada por um tumulto extraordinário de palavras.

Com uma celeridade própria dos seus hábitos engendrados na nomenclatura com que se enunciava perante o mundo, mas desta vez sem a prisão habitual às rotinas da sua vida tornada cada vez mais estreita com o passar dos anos, subiu os degraus até ao quarto onde costumava dormir e pertencera à bisavó no tempo em que já era viúva e gostava de se rodear de uma autêntica panóplia de peças e objectos, os mais díspares, e sentou-se à mesa de pau preto.

Abriu uma gaveta e encontrou, porque sabia que semelhante material ali existia, um tinteiro antigo e uma pena de pato ao lado de um livro amarelado praticamente inviolado, pois apenas uma ou duas páginas havia sido engalanada com uns desenhos ténues e inexpressivos de flores e pequenos símbolos, nem ele saberia nunca dizer quem teria sido o autor de tais insignificâncias. Desajeitadamente, a princípio, mas cedo familiarizado com aqueles antiquados instrumentos de escrita, escreveu durante umas boas duas horas uma sequência de cartas, primeiro eivadas de um romantismo que lhe fazia suspirar amiúde, mas paulatinamente mudando de temática ao sabor de uma inusitada inspiração em que os termos fluíam e o discurso se alterava ao mesmo tempo que o estilo, pois escreveu cartas de pai para filho, de filho para mãe, de irmão para irmã, de padre para bispo e de freira para madre, de advogado para cliente, de mestre para discípulo e sempre o eterno mote do amor apaixonado ou da ruptura, e ora escrevia como homem ora como mulher, ora lhe nasciam dos dedos cartas lúgubres de ruptura e desencanto ora urdia pedidos de casamento e de noivado e logo a seguir uma mãe apostrofava o filho ingrato porque lhe gastara o dinheiro em vida dissoluta e uma filha confessava ao pai que perdera a virgindade com um vagabundo e precisava urgentemente de dinheiro, e com os dedos dormentes, como antes tinha os músculos da cara, e o tinteiro vazio viu-se com um conjunto impressionante de epístolas próprias para quase tudo, aptas para resolverem quase todos os problemas, adequadas a todas as necessidades e feitios possíveis.

A seguir foi estender-se na cama e deu-se tempo para divagar uns minutos e mais permitiu-se o enlevo de uns momentos de êxtase perante si próprio e esse novo talento que lhe jorrava dos dedos e da mente a uma velocidade aterradora.

Nos arcanos da memória desentranhou a figura da avó, a companheira do avô responsável pela sua paixão relojoeira, e entendeu que do mesmo modo que contemplara o avô a montar e desmontar os mecanismos prodigiosos das pequenas máquinas do tempo, também se entretivera a seguir os gestos da avó, que num tempo e numa povoação de analfabetos lia as cartas de toda a comunidade sentando-se a seguir a uma secretária de mogno na varanda da casa a responder-lhes, enquanto uma fila de homens mulheres e crianças aguardava a sua ocasião.

Pela segunda vez na sua vida (já medianamente longa e até então desprovida de interesse) o Besta Célere percebeu que tinha em si genialidades ignotas, talvez não originais porque as reconhecia herdadas ou assimiladas num certo tempo e espaço, mas de qualquer modo sua inextrincável pertença.

Foi postar-se em frente do enorme espelho emoldurado pesadamente com arabescos de ouro velho numa pretensão barroca não destituída de beleza e percebeu que o seu aspecto podia convir perfeitamente a um vendedor de relógios em jardins suburbanos por onde deslizava uma espécie de turba de classe média baixa, mas seria adequado logo que ele decidisse assumir a vocação recém-encontrada de epistológrafo?

Besta Célere tinha um rosto banal, mas usava um bigode ainda negro com as pontas ligeiramente reviradas e essa característica dava-lhe um ar afadistado quase marialva, principalmente quando punha o chapéu com a pena multicolor e o atirava um pouco para trás. Sentiu-se bruscamente indigno e reles, reparou que as calças estavam amarrotadas e com lustro e tombavam sem graça sobre os sapatos usados, viu o seu casaco decididamente com um péssimo cair, já que fazia um largo fole imediatamente por debaixo dos bolsos e no fundo das costas, e a partir desse momento deixou de se sentir seguro de si vendo a impossibilidade de continuar a sair de casa e a postar-se por trás do banco de jardim com aquele aspecto ridículo e tristemente amaneirado. Quando esboçou um sorriso, apareceram os dentes, mas não alvejaram na luz difusa do aposento como deviam, antes lhe figuraram horrivelmente manchados de nicotina, quase castanhos e escalavrados rompendo a boca e os lábios pálidos num esgar medonho. Como era possível que ele, Besta Célere, nunca houvesse reparado que, afinal tinha o mais miserável dos aspectos e assim continuasse a ousar plantar-se em frente das pessoas e desempenhar aquilo a que chamava, com garbo e pundonor, a sua profissão? Aquela espécie de espantalho escanzelado com o fato no fio a baloiçar-lhe à volta do corpo era uma tragédia! E ele entendeu de supetão que afinal a responsabilidade pela sensação de desgosto de si mesmo, na aparência insípida e confrangedora que o espelho lhe mostrava, tinha uma única origem: ele encarnava agora uma outra dignidade, de relojoeiro ou vendedor de relógios (ou nem ele sabia bem o quê) passara a escritor de cartas, tornara-se quase um intelectual e os pergaminhos apostos a semelhantes personagens, segundo o que ele poderia suspeitar de um tal assunto, não se compadeciam com ares afadistados, jeitos de marialva ou dentes estragados de anos a fio de nicotina a deslizar-lhes pelo meio. Começou a meditar no assunto enquanto se virava e revirava em frente ao espelho até que entendeu que a palavra e o conceito de escritor não lhe convinham nem um pouco. Ele não era muito dado a ler livros, na vida toda tinham-lhe passado pelos olhos menos de uma dezena de títulos e já nem se lembrava do último enredo dos romances baratos que lia de vez em quando, no tempo remoto em que não vivia tão amarfanhado pelo rígido cronómetro da sua celeridade. Apesar disso conseguia perceber à saciedade que escrever cartas não faria dele escritor de jeito nenhum, se bem que elas, as cartas, fossem todas ficcionadas pois não haveria, ou pelo menos ainda não havia, qualquer destinatário ou mesmo remetente à vista.

Regressou à cama, sem mesmo tirar o casaco ou o chapéu, folheou o livro da bisavó repleto de palavras e alguns borrões e pensou como classificaria aquele seu novo talento e de que modo poderia designar a sua nova profissão, pois Besta Célere não era palerma nenhum e apressava-se sempre a transformar qualquer uma das suas habilidades numa forma de ocupar os dias, ganhando a vida honestamente, como ele costumava dizer a si mesmo, quotidianamente, quando saía da casa da bisavó com a mala de couro a tiracolo.

Besta Célere tinha sido muito rico durante dois ou três anos, exactamente depois de herdar aquela casa e todo o seu recheio, juntamente com algumas acções e títulos vindos dessa antepassada já morta há muito tempo mas cuja fortuna estivera envolvida em processos judiciais complexos movidos pelos descendentes ávidos e interesseiros mas excluídos dos diversos testamentos por querelas que ele desconhecia, e por isso passaram muitos anos até que a justiça cumprisse o seu papel, os requerentes fossem absolutamente arredados das pretensões a herdeiros ou então enterrados no mausoléu da família e por isso definitivamente mudos. E então Besta Célere foi convocado, e sem perceber muito bem como, viu-se herdeiro de toda aquela fortuna ao mesmo tempo que descobria que não tinha família sendo por isso, à época, o único Célere existente à face da terra.

Uma vez rico a aparvalhado com semelhante condição, decidiu gastar o dinheiro realizando em pouco tempo todas os mesquinhos desejos recalcados numa vida de parcimónia e restrições tais como, comer em restaurantes razoáveis nunca se permitindo os mais caros e requintados por vergonha, ir a espectáculos de teatro de segunda categoria, porque desconhecia a existência dos de primeira, comprar roupa em lojas de pronto-a-vestir que se habituara a cobiçar gulosamente nos tempos de mediocridade económica, nem lhe passando pela cabeça que podia mandar fazer os fatos à medida desenhados por estilistas de renome (acho que ele nem sabia que existiam estilistas) e obtendo a baixo preço a satisfação da carne em casas de mulheres de fama duvidosa, pois ignorava que todas se podem comprar principalmente as esposas. Besta Célere era mesquinho e mesquinho continuou sendo apesar de rico e por isso nunca viajou, não achava importante conhecer outras terras, parecia-lhe tudo igual quando via televisão e não o fascinavam museus ou monumentos, nunca se requintou nas boas maneiras e nem pela cabeça lhe passou usar a mansão barroca da bisavó mais que centenária para dar festas ou mesmo realizar algumas orgias.

Porém, a primeira coisa que Besta Célere fez, naquele dia já um pouco longínquo em que descobriu com pasmo que se tornara muito rico, foi largar o emprego que aprendera a detestar mais do que alguma coisa na vida, e passar as manhãs na cama entre os lençóis adamascados e os edredões de penas da velha senhora, ora dormindo, ora fumando grossos charutos, antes de descer ao restaurante da rua para comer todas as refeições de todos os dias. À parte isso pouco mais fez nos anos em que durou a sua vida abastada, ainda que mediocremente abastada porque medíocres foram sempre os seus mais profundos anelos e continuaram sendo apesar dos milhões.

Pode parecer que uma vez rico um homem tem o dever de permanecer para sempre rico, mas esta não é uma verdade absoluta pois é necessário que a riqueza venha acompanhada de alguma dose de talento que contagie o seu possuidor ou que a próprio riqueza engendre no seu dono o espírito necessário para multiplicar milhões e assim prolongar o estado adquirido por um lampejo da sorte. Ora Besta Célere para além dos dois talentos que acabou transformando em profissões que celeremente desempenhava, ocupando todos os segundos dos seus dias, não tinha inteligência capaz de desentranhar nenhuma outra aptidão e por isso, ao tempo em que demos com ele angustiado e em absoluto descontrolo porque a avaria do despertador lhe tinha feito perder trinta e três irrecuperáveis segundos, era ele simultaneamente vendedor de relógios e escrevedor de cartas. Assim mesmo, escrevedor, foi a essa conclusão que Besta Célere chegou, rojado no veludo da colcha escarlate da bisavó naquele célebre domingo de Páscoa quase ao escurecer, quando pensou, pensou e voltou a pensar na tarefa que tinha entre mãos, essa de redigir epístolas que nunca fariam dele um escritor mas que fariam jus ao título recém-inventado – parecia-lhe – de escrevedor de cartas.

Passaram, porém algumas semanas, semanas complexas, pois necessitava escapar-se mais cedo da sua ocupação, única na altura (a de vendedor de relógios) para reflectir na maneira de passar da teoria à prática e assim transformar um simples devaneio matinal e depois um passatempo nascido de uma crise inesperada de criatividade no caderno da bisavó, em honesta e bem calendarizada profissão.

 

 

 

 

                                                                                                                                                                            (Continua)

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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