O Besta Célere

 

 

 

 

 

René Magritte, O Regresso da Chama

 

 

 

 

 

 

 

Capítulo 96

 

 

 

 

Alguns dias depois do para sempre memorável domingo de Páscoa em que Besta Célere teve a brusca percepção do seu talento de escrevedor de cartas e quando ainda não tinha por completo assimilado ou sequer congeminado a rigor os requisitos da profissão a que tencionava aderir com zelo, aconteceu-lhe passar uns minutos do seu dia, aqueles que, na altura, ainda se permitia utilizar como lazer, sentado numa esplanada da cidade onde vivia, não muito longe da mansão da falecida bisavó. Se bem que aqueles minutos lhe pertencessem para fruição de uns momentos de descanso ou até de eventual divertimento, o certo é que naquele fim de tarde já ameno, pois o verão anunciava-se, o seu espírito não estava predisposto ao devaneio, à preguiça ou mesmo ao ligeiro adormecimento que de vez em quando lhe acontecia após toda uma jornada de venda de relógios num parque mais ou menos afastado da cidade. Tumultuava-lhe no cérebro uma avalanche prodigiosa de dúvidas e Besta Célere torcia-se e retorcia-se na cadeira, esfregava o nariz, coçava a cabeça, suspirava e não havia processo capaz de lhe serenar o ânimo exaltado, nem ele saberia explicar porquê. Foi então que se apercebeu de um ruído de vozes, vindo de uma mesa próxima e, quando se preparava para abandonar a esplanada, pois os nervos tensos não aguentavam nenhuma espécie de distúrbio, ouviu pronunciar as palavras escrever uma carta, isso mesmo, alguém dizia necessitar urgentemente de escrever uma carta e proferia a frase num tom angustiado, como se um tal acto fosse penoso, como se escrever uma carta, naquele momento e para aquela pessoa que assim lhe interferia nos pensamentos moles, representasse uma extraordinária e inenarrável proeza intelectual. Besta Célere suspendeu de imediato o gesto de arrumar a cadeira e voltou a sentar-se, apurando o ouvido na direcção de quem assim conversava, em agonia e com urgência, sobre a necessidade de redigir uma epístola. A princípio sentiu-se mal, pois ele bem via que prestar atenção a conversas alheias era uma tremenda indelicadeza, mas cedo recuperou a compostura uma vez que, na verdade, a pessoa falava alto e não parecia ter qualquer necessidade de fazer segredo do que dizia. Vê lá tu, dizia ela, uma mulher de uns trinta anos, vestida com simplicidade, voltada para uma rapariga de uns dezasseis, de olhar duro e cenho franzido, que para me darem o subsídio por invalidez tenho que escrever uma carta, onde explique tudo o que me aconteceu! Não lhes bastam os papéis que demorei um mês a tirar, agora também é preciso uma carta! A rapariga encolheu os ombros, vociferou uns monossílabos e a outra continuou, Pois é, a ti pouco importa afinal não foste tu que desabaste das escadas quando limpavas os vidros da fábrica e fracturaste a anca, Pois não, respondeu a visada, não fui eu que caiu tem razão, portanto o melhor é escrever a carta, tem um prazo a cumprir não é? E agarrando num bloco e numa caneta colocou-os debaixo dos olhos da mulher acidentada. Mas o que queres que eu faça se pouco mais aprendi do que a escrever o meu nome, se ao menos ajudasses… a rapariga soltou uma gargalhada, Eu?, olhe, mal apareça ali o Filipe, e apontava a paragem do autocarro a alguns metros de distância, vou embora e não quero saber de cartas para nada. A outra suspirou e fixou o papel em branco num desespero visível, ao mesmo tempo que olhava à volta esperando não se sabia o quê.

Besta Célere passara da modorra inquieta que o acometera naquele fim de tarde, e que ele chegara a atribuir ao bafo morno do dia de Abril, para um estado vizinho do paroxismo e o coração batia-lhe no peito de modo tão acelerado que lhe parecia ser capaz de explodir a breve trecho. Via com toda a clareza que a sua oportunidade de iniciar a carreira de escrevedor acabara de anunciar-se e mal resistia à enorme força interior que lhe lançava os olhos primeiro, e todo o corpo depois, em direcção à mesa onde se sentavam aquelas duas mulheres, ambas atormentadas, uma pela espera do namorado atrasado, outra pela impossibilidade de alinhar duas palavras coesas numa folha branca e nenhuma preocupada com o drama pessoal da outra. Quando deu conta estava a puxar uma cadeira e a sentar-se, sem tão pouco ser convidado ou pedir licença, no meio das duas mulheres. Eu sou escrevedor de cartas, anunciou, ouvi a vossa conversa e posso ajudá-la se quiser, alarmou-se com o som da própria voz e com o modo convicto, a destacar rigorosamente as sílabas, como pronunciou a expressão, nunca antes proferida em voz alta, eu sou escrevedor de cartas. A mulher mais velha levantou os olhos rasos de lágrimas e encarou-o com assombro, enquanto a outra deu uma espécie de grito e se escapou a toda a velocidade para a paragem do autocarro onde uma figura masculina acabava de emergir. Escrevedor de cartas, tartamudeou, o que é isso? Bem, eu escrevo cartas, tenho muitos modelos já elaborados é só fazer algumas alterações e tem o problema resolvido! A mulher suspirou, desta vez com uma espécie de alívio mas ao mesmo tempo fez um gesto de repúdio, e quanto me vai custar isso? Sabe, eu não tenho muito dinheiro, a carta é mesmo por causa disso…Besta Célere interrompeu-a celeremente, eu ouvi a conversa não se preocupe, hoje já ganhei o dia faço-lhe isso sem cobrar nada, não tem com que se mortificar. Num ápice, abriu a mala dos relógios com o máximo de discrição que conseguiu perante o olhar assombrado da mulher e retirou, dum pequeno recanto oculto no forro (na altura ainda não tinha adaptado a mala às duas funções pois era ainda e apenas vendedor de relógios) uma pasta onde acabara por guardar os modelos de epístolas que escrevera alguns dias antes  e a que não pudera ainda dar destino. Ora bem, trata-se então de um pedido de subsídio por acidente de trabalho, não é? Desculpe mas tive a oportunidade de ouvir a conversa toda, a senhora falava alto, É isso, sabe, caí de uma escada quando limpava os vidros de uma fábrica é o meu trabalho, faço limpezas, parti uns ossos, nunca mais fiquei bem, os médicos, sabe, o hospital(…), fui mal curada e agora não posso trabalhar tenho uma filha e mais dois rapazes, a filha é aquela que saiu daqui a correr, e se não ganho não sei como fazer.

Besta Célere não estava habituado a semelhantes conversas a bem dizer não estava habituado a nenhumas, há tempos que não conversava com ninguém a não ser para vender os seus relógios, se é que isso chegava a poder considerar-se conversa, e então ao ouvir os lamentos daquela mulher de mãos gretadas e rugas prematuras no canto dos olhos, começou a sentir um suor frio a nascer-lhe na fronte a gotejar-lhe das axilas a descer-lhe por entre as pernas como se estivesse a ponto de se desfazer num fluido gelatinoso, teve que usar de toda a energia psíquica disponível para não desfalecer ali mesmo, no exacto instante em que a sua carreira de escrevedor de cartas parecia ter iniciado um rumo. Felizmente a mulher desatara a falar ininterruptamente e a exibir um conjunto impressionante de papelada o que lhe deu tempo para se recompor, tentando ao mesmo tempo apanhar o fio da verborreia, De modo que, dizia ela, se não escrevo uma carta, chamam-lhe eles deixe-me ver aqui, petição, nunca mais recebo o meu dinheiro e já lá vão seis meses… Besta Célere sentiu que precisava de interrompê-la, desejou que a voz lhe saísse normal pois os suores frios persistiam e então sem pensar agarrou-lhe no braço, ajudou-a a arrumar os papéis que ameaçavam voar pois levantara-se uma espécie de vento, e começou a balbuciar, Vamos lá, acalme-se, acho que tenho aqui a solução para o seu problema, mas o melhor é combinarmos uma reunião para amanhã, se percebi bem ainda tem dois dias de prazo para remeter a carta, Uma reunião, onde, como, a mulher estava desorientada quase chorava e Besta Célere começou a sentir-se estranhamente calmo sem pinga de suor frio e tomou conta da situação, Tenho um escritório nesta morada, e escreveu o endereço da mansão num pedaço de papel, venha ter comigo às 18 horas e resolvemos tudo!

Sem tão pouco lhe dizer boa tarde abandonou precipitadamente a esplanada, quase correu para dobrar a esquina que o levaria directo à mansão tomado de um pavor súbito de que aquela mulher desesperada o seguisse e viesse a descobrir que ele não tinha qualquer escritório, nem nisso chegara a pensar, pois havia apenas uns dias que ele experimentara a revelação do seu talento epistolográfico.

 

 

 

                                                                                                                                      (continua)

 

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