O Besta Célere

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Salvador Dalí, Paul Éluard

 

 

 

 

 

 

 

 

Capítulo 97

 

Honesta e bem calendarizada profissão, assim tinha que ser, Besta Célere não entendia outro modo de estar na vida que não passasse por estes três conceitos, a saber, a honestidade, o profissionalismo e acima de tudo a calendarização. É certo que deixara os empregos com que foi ganhando a vida até enriquecer, não apenas pelo facto de a riqueza em si mesma o livrar de semelhante prisão mas porque detestava horários impostos pelos outros e isso pode parecer estranho agora que sabemos quão célere o Besta Célere se tornara. Talvez deixe de parecer tão extravagante se nos debruçarmos um pouco sobre o carácter deste homem o que ainda não fizemos embora o conheçamos intimamente o que prova se provasse que conhecer intimamente é muitas vezes uma espécie de rasteira que para nada vale quando decidimos traçar um carácter ou definir uma personalidade.

Besta Célere detestava ser dominado, odiava que lhe dessem ordens, abominava regulamentos e se todos os humanos assim são no fundo pois pertencendo à animalidade todos são bestas e elas as verdadeiras passeiam-se soberanamente pelo planeta desconhecendo códigos morais e não procurando realizar objectivos, a verdade é que a maior parte de nós insiste em lutar por certas recompensas quase sempre de carácter monetário e às vezes concernentes à fama ou ao prestígio político-social ou estritamente mundano e é por causa dessas ninharias ou porque constituímos família e depois precisamos de alimentá-la e educá-la e tudo o mais que daí decorre que, enquanto bestas humanas, aceitamos servir os outros servindo-nos o melhor possível a nós mesmos. Porém, Besta Célere era em tudo indiferente a esta espécie de fatalismo humano e se trabalhara em profissões desinteressantes e monótonas cumprindo os horários e as tarefas quase em estado de sonambulismo ininterrupto, fora apenas para poder sobreviver num mundo onde bruscamente se viu absolutamente só: tinha pouco mais de dezoito anos e percebeu que morreria de fome, caso não se decidisse a procurar um emprego. Morrer de fome é uma metáfora, não era a fome em si que o atormentava, Besta Célere não gostava de comer (e se gostasse como poderia ele vir a contentar-se com a papa execrável que o vimos a consumir naquela manhã em que o despertador lhe roubou trinta e três segundos de um tempo tornado precioso?) morrer de fome é sinónimo neste caso de nem sequer conseguir fazer fosse o que fosse num mundo comandado pelo dinheiro e o certo é que Besta Célere um belo dia se viu no meio da rua num entardecer húmido e frio de Inverno, com um fato puído em cima do corpo, uma mala cheia de trastes velhos e uma carteira mísera com duas ou três notas de banco que cedo se converteriam em ninharias porque de ninharias vive exclusivamente o ser humano. Ainda pensou não fazer nada ou então mendigar mas cedo percebeu que não conseguiria deixar-se morrer de inanição (o seu íntimo apelava à vida fosse ela qual fosse) e postar-se na rua estendendo a mão à caridade parecia-lhe uma reles insolência de si para si mesmo que ele não seria capaz de suportar. Depois de passear durante algumas horas cheio de frio pelas ruas da cidade decidiu gastar o dinheiro numa sopa quente e no aluguer de um alojamento e é claro num jornal onde poderia pesquisar anúncios de empregos.

Alugou um quarto de exíguas mas suficientes dimensões e passou mais de uma semana até que acedeu ao seu primeiro trabalho remunerado, que não profissão, pois nunca poderia conceber que aquele cubículo onde começou a passar o dia a fazer pouco mais que nada (era recepcionista ou porteiro ou tudo junto de um hotel de quinta categoria) tivesse ou pudesse vir a ter o crédito necessário para fazer dele profissional. Com efeito o profissionalismo para Besta Célere (e isto ele só foi entendendo no correr dos anos quando de porteiro passou a amanuense de amanuense a ferroviário de ferroviário a carteiro de carteiro a criado de mesa e por aí adiante e percebeu que não punha nada de realmente seu nas funções que desempenhava correctamente mas sem qualquer entusiasmo) estava intimamente relacionado com o desempenho de uma tarefa útil em primeiro lugar a si próprio mas útil por si mesma não pela remuneração e ele nem saberia muito bem explicá-lo mas o certo é que uma profissão só teria poder para merecer semelhante designação se fosse capaz de lhe dar prazer mesmo que não fizesse sentido para o resto da humanidade.

Besta Célere não era letrado, ainda que tivesse conseguido tornar-se escrevedor de cartas e os textos dessas epístolas fossem extraordinariamente bem urdidos, mas isso é uma outra história relacionada com os genes ou com outro tipo de herança que não a genética obtida enquanto espreitava por cima do ombro da avó, também ela escrevedora de cartas se bem que nunca tivesse usado tal epíteto para caracterizar o que fazia na secretária de mogno enquanto o povo aguardava à sombra das suas árvores. Mas apesar de nunca ter estudado muito, pois era lento e nunca fora além de uma escolaridade pouco mais do que básica, Besta Célere interessava-se pelas palavras e foi assim que descobriu um dia que a palavra profissão que é comum associar ao desempenho de uma tarefa remunerada, seja ela qual, for pouco ou nada tinha a ver no fundo com essas circunstâncias.

O caso é que um dia leu, por acidente, num fascículo que alguém deixara abandonado num banco do jardim (onde por vezes se detinha a meditar quando ainda era empregado e por isso o tempo livre lhe pertencia) e naquilo que lhe pareceu ser o resumo de uma aula de catequese, a expressão profissão de fé, e de imediato a inteligência lhe despertou ali mesmo e começou a pensar o que seria isso de profissão de fé, como é que a fé podia ser uma profissão e se não podia que outro significado atribuir a semelhante palavra em semelhante contexto? Foi então que entendeu que profissão de fé dizia respeito a uma espécie de revalidação da fé levada a cabo através de certas cerimónias católicas onde uma oração, o Credo, convinha a semelhante efeito. Profissão de fé no sentido de professar e não na outra acepção profissional de realizar um trabalho remunerado, professar significa propagar ideias, abraçar uma crença, praticar uma ideologia ou, neste caso concreto do folheto, uma religião…Besta Célere não podia estar mais de acordo e por isso viu logo que os trabalhos que desempenhara desde que fora obrigado pelas circunstâncias a ganhar a vida não eram profissões, não lhe diziam respeito enquanto crença nem sequer podia propagar com o seu trabalho fosse que ideia fosse (nem uma única sequer) e por isso, embora tivesse aprendido a fazer muitas coisas, isso não o transformara em profissional de coisa nenhuma. Se já vivia desgostoso ainda mais ficou ao perceber que estava absolutamente em desajuste com qualquer dos trabalhos que tinha realizado até ao momento e que esse desajuste era por assim dizer conceptual e íntimo, pois afinal possuía em si o sentido de uma designação que em nada correspondia ao que ele e muitas outras pessoas executavam no seu dia a dia (talvez todas, pois raramente encontrara alguém satisfeito com aquilo a que chamavam ufanamente a sua profissão).

A honestidade também lhe estava no carácter e só por isso os desaires da sua vida não tiveram poder para transformá-lo em mendigo ou em ladrão.

Mas ser honesto no seu caso era apenas agir em função do seu interesse pois não mantinha relação alguma fosse com quem fosse que o obrigasse a compromissos e essa era a maior vantagem da sua libertinagem profissional. Claro que só a palavra libertinagem poderia assentar-lhe nesta questão e fazer jus à peculiar noção de honestidade de Besta Célere. Por causa dessa honestidade tinha transformado a sua existência numa desenfreada correria, pois entendia perfeitamente o modo absurdo com que desperdiçara o tempo antes de ser rico, durante a prosperidade, em que tinha sido medíocre de um modo gigante na exacta medida em que antes o havia sido de modo modesto. E então para poder exercer a profissão ou as profissões que acabara elegendo como únicos motores da sua vida ele sentiu-se impelido a nunca desperdiçar qualquer segundo pois fazê-lo implicaria jamais recuperar o tempo que dantes perdera. Vemos bem que este raciocínio é complexo todos sabemos que o tempo não pode recuperar-se uma vez escoado mas a verdade é que Besta Célere acreditava piamente que se fosse capaz de viver a uma impressionante celeridade o tempo de vida que lhe restava seria capaz de anular ou ao menos atenuar em elevado grau a inércia e o desperdício dos anos já transcorridos. E era esta absolutamente espantosa noção de honestidade, a que presidia ao apertado calendário que para si criara nos tempos já bastante longínquos se atendermos à variável celeridade que ele imprimira ao uso do seu tempo que lhe fazia erguer a cabeça e avançar o braço em jeito cativante quando se postava atrás de um qualquer banco do jardim para vender os seus relógios.

Como decorre destas duas anteriores qualidades do trabalho do Besta Célere vemos com inteira justeza a premência da calendarização. Pouco importava que o trabalho ou os trabalhos por ele transformados em profissões honestas não fizessem o mínimo sentido ou fossem totalmente dispensáveis para o mundo, eles eram importantes em si mesmos, os relógios cronometram o mundo, as cartas são ainda o veiculo privilegiado da comunicação e nem todos sabem escrevê-las, e então constituíam o sentido pleno tal como outras funções dispensáveis e contudo persistentemente mantidas no mundo pelo ardor profissional de quem ama fazê-las. Calendarizar era pois absolutamente necessário, calendarizar de modo absolutamente rigoroso, medindo não apenas as horas como é usual fazer-se nas profissões correntes mas apanhando o minuto e processando em rigor cada segundo. Recuperar o tempo perdido talvez não fosse possível de maneira real, mas na virtualidade do seu calendário minucioso Besta Célere tencionava ganhar os anos que se permitira deixar escoar, no tempo em que era inconsciente dos seus dois únicos poderes.

 

 

 

                                                                                                                                                                     (continua)

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