O Besta Célere

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Picasso, Les Demoiselles d’Avignon

 

 

 

 

Capítulo 94

 

 

 

 

Foi deste modo inesperado, no acto de escrever uma petição, texto estranhamente lúgubre pois precisou de relatar com minúcia todos os danos sofridos pela sua primeira cliente no acidente que a incapacitara para o trabalho de faxineira numa fábrica da região, que Besta Célere iniciou a sua carreira profissional de escrevedor de cartas. Profissional, não porque dessas duas horas lhe tivesse advindo qualquer remuneração, pois recusou sempre o dinheiro da sua primeira cliente, mesmo quando ela lhe agarrou a mão tentando passar-lhe duas notas em péssimo estado, mas na exacta medida em que sentiu no seu comportamento, atrás da secretária de mogno, uma dignidade absolutamente consentânea, assim lhe parecia, com tão digna tarefa. Soube, em todas as circunstâncias, manter a compostura, mesmo quando a filha da sua cliente, a jovem de cenho franzido e pose arrogante, tão pouco solidária antes com as dores maternas mas ali presente de olhos cintilantes de curiosidade perscrutando todos os ângulos do escritório improvisado se postou à sua frente seguindo, com um esgar de troça, o traçado da caligrafia no papel e a caneta antiquada que Besta Célere precisava de embeber regularmente no tinteiro. Nem um músculo lhe tremeu, nem um pingo de suor lhe escorreu pelas axilas, nem um fio de cabelo se mexeu na sua cabeleira crespa e aguentou-se com inteiro alinho quando informou a sua cliente de que infelizmente se via na necessidade de fechar aquele escritório e aquela casa, uma vez que terminara o contrato de arrendamento e ainda não sabia ao certo onde iria fixar-se em seguida. Esta ideia ocorrera-lhe ao despertar, pois havia percebido a sua imprudência ao dar o endereço da própria casa a uma mulher loquaz que certamente tinha falado já do caso a vizinhos e conhecidos, e não podia sequer conceber que começassem a aparecer-lhe à porta presumíveis clientes para novas epístolas. Evidentemente que Besta Célere não podia adivinhar se haveria mercado para a sua nova profissão, mas sentia a necessidade de manter o sigilo, apavorava-o pensar que lhe bateriam à porta ou que daí em diante teria que dar satisfações da sua vida fosse a quem fosse. Habituado à viver à margem, definia-se como anarquista, pois havia cortado todas as amarras com as burocracias, deixara caducar há muito o bilhete de identidade e nunca mais o renovara, não fazia declaração de rendimentos, não pagava impostos, nenhum bem no mundo estava registado em seu nome, nem aquela mansão semi-arruinada lhe pertencia legalmente, pois embora a tivesse herdado jamais a tinha de facto inscrito fosse em que conservatória notarial fosse, continuando em nome da senhora de óculos e mãos incrustadas de anéis que fora a sua bisavó. Era assim que ele queria viver ainda que por vezes percebesse algo de mórbido no seu comportamento, pois não raro dava consigo a tremer perante a expectativa de ter que entabular conversações sérias com alguém e quase desatava a correr quando lhe parecia que uma ou outra pessoa lhe dirigia um aceno ou esboçava um sorriso.

É claro que ele não saberia dizer ao certo se a anormalidade provinha dele ou se seriam todos os outros, os anormais, aquela gente meio arrebanhada atravessando as ruas pelos traços das passadeiras, aguardando molemente e em fila o autocarro, bocejando em restaurantes pejados e barulhentos, coçando o nariz em intermináveis carreiras de automóveis imundos e tantas outras situações de promiscuidade repugnante que ele não podia deixar de testemunhar pois vivia no meio da gente e dela dependia até certo ponto pois vendia-lhes os relógios e agora começara a escrever-lhes as cartas. Porém, há muito que deixara de se preocupar com definições de normalidade ou do seu contrário, percebia confusamente que essa questão era no fundo fútil como tantas outras que apesar disso constituíam a vida de todos, quanto a ele, Besta Célere de seu nome e apelido, descobrira a vocação da sua vida, ganhar o tempo perdido, vender relógios, essas metáforas da cronometria que ele construía com minúcia, e deste dia em diante servir de mensageiro oculto, mas presente nas cartas que muitos desejavam escrever em vão visto faltar-lhes o talento. Para além disso nada o interessava de facto pois não gostava de comer, nem de beber, nem de dormir, fazia tudo isso porque era o modo conhecido de se manter vivo e aos poucos deixara mesmo de gostar de sexo, isso mesmo Besta Célere não gostava das relações sexuais, não lhes via qualquer utilidade, beleza ou sentido pelo que prescindira desse acto imundo quase por completo e este quase que acabámos agora mesmo de escrever significa que de vez em quando, sei lá, duas vezes num ano ou mesmo três sentia crescer dentro de si um desejo ancestral que tentava de imediato reprimir mas que a contra gosto e para sua grande mágoa retornava algumas horas depois e no dia seguinte e no outro até que, furioso, com as horas os minutos e os segundos todos enredados uns nos outros, se punha a caminho procurando um modo célere de resolver o contratempo. Contratempo era exactamente deste jeito que Besta Célere definia o desejo que lhe nascia a espaços das entranhas habitualmente mudas e o levava até ao local que acabara por eleger como o mais apropriado para se livrar da tensão instalada.

Ora bem: foi exactamente na noite desse seu primeiro dia como escrevedor de cartas que sentiu, pela primeira vez nesse ano, o aguilhão da fúria sexual a arrebatar-lhe o organismo, e a intensidade com que ele se manifestou foi de tal modo imperiosa que nem lhe deu tempo a adiar ou a reprimir a satisfação do impulso, como de vez em quando fazia com algum sucesso, não, nesse dia Besta Célere percebeu que se não se pusesse imediatamente a caminho sofreria um sério transtorno durante a noite e eventualmente no dia seguinte.

Decidiu então preparar-se para sair procurando pelas gavetas do quarto de dormir, agora prejudicado com a clareira deixada pela ausência da secretária de mogno, os óculos escuros e a gabardina que usualmente lhe serviam de disfarce. Exactamente, de disfarce, pois Besta Célere envergonhava-se bastante de ter que sair assim pela noite e dar vazão de um modo abjecto a uma necessidade que ele reconhecia ser natural mas para a qual não lograra ainda encontrar uma justificação racional uma vez que não provinha de qualquer sentimento, não era dirigida a ninguém em especial embora lhe fosse necessário recorrer a uma pessoa do sexo feminino pois eram essas as suas tendências e o onanismo não lhe convinha nem um pouco. Depois de procurar algum tempo, descobrira uma casa nas imediações da mansão que prestava esse tipo de serviços e, desajeitadamente no início e com circunspecção e à vontade mais tarde, ali se dirigia invariavelmente quando o desejo o incomodava de tal modo que não encontrava maneira de se iludir, escapando-lhe.

Olhou os seus múltiplos relógios espalhados pelo aposento percebendo que todos eles marcavam as 21 horas e 33 minutos e que tinha exactamente 27 minutos até à hora que estipulara para dormir pelo que lhe era crucial tomar rapidamente o caminho e assim cumprir aquele dia, marcado pela excepcionalidade, mas a querer com urgência aceder à rotina estabelecida.

Saiu por isso de casa, quando a noite havia caído por completo, embrulhado numa gabardina larga de uma cor indecisa entre o cinzento e o castanho, e após uma dezena de passos estava em frente da porta de uma pequena casa de aspecto humilde, ostentando uma tabuleta reles gravada a letras vermelhas com a palavra Hospedaria. Bateu duas pancadas sóbrias com os nós dos dedos, assestou os óculos deixando de ver fosse o que fosse à sua frente e, quando a porta foi descerrada, esgueirou-se para o interior, com uma suavidade de felino.

Como já era conhecido, se bem que viesse ali muito poucas vezes, depressa o conduziram a um quarto através de um corredor esconso, frouxamente iluminado por uma luz alaranjada, e cedo também ouviu uma leve pancada na porta que se abriu para dar passagem a uma figura miúda de mulher sub nutrida.

Besta Célere imaginava que o seu comportamento deveria parecer fora do comum àquelas mulheres banais, atiradas para aquele canto sinistro nem ele saberia dizer como, na exacta medida em que nunca se havia detido em semelhante especulação, apenas se servia delas, pagava-lhes os serviços e depois partia sem nunca mais pensar no assunto. No entanto, fosse ou não considerado aberrante o modo sorrateiro como aparecia ali duas ou três vezes por ano, a verdade é que nunca sentiu qualquer reacção ao seu comportamento, nunca escutou uma palavra ou viu um gesto que lhe fizessem sentir que procedia de modo anormal, acabando por compreender que aquela casa não abrigava seres ou situações comuns, pelo que passou a considerar-se mais um e curiosamente essa sensação agradava-lhe, pois alimentava-lhe o sentimento de absoluta marginalização social a que tinha aderido e lhe convinha sobremaneira.

Foi rápido e certeiro como sempre, apenas despiu parcialmente as calças e não consentiu que a rapariga expusesse qualquer parte do seu corpo, cerrou os olhos por completo por baixo dos óculos escuros, para não ter qualquer vislumbre, por mais difuso, da expressão do rosto de quem assim lhe abria o corpo para que nele depositasse o que constituía naquela hora um peso insuportável no seu organismo, e em silêncio, dominando o estertor e a vibração corporal tanto quanto lhe foi possível, terminou a curta explosão sensorial e fisiológica, posto o que afastou delicadamente o corpo débil da mulher que permanecia deitada a seu lado ainda com a mão sobre o seu peito, ajeitou o vestuário, compôs os óculos, retirou da carteira o montante do pagamento que colocou sobre a mesa e abriu a porta.

Nesse exacto instante, com a mão ainda sobre a maçaneta, escutou uma voz que provinha, pareceu-lhe, do aposento vizinho daquele que estava prestes a abandonar. Em geral as suas visitas à Hospedaria decorriam no contexto de uma enorme carga de silêncio, talvez por mero acaso ou sorte ou circunstância já que naquela noite havia ruídos ou melhor sinais inequívocos de um diálogo angustiado. Percebeu que havia duas mulheres numa espécie de cubículo onde se reuniam para fumar ou descansar uns minutos das suas tarefas e, sem conseguir afastar-se, a tempo de não se imiscuir na intimidade de quem nem tão pouco queria conhecer, ouviu as palavras, preciso urgentemente de lhe escrever uma carta percebes, não tenho outro remédio, não posso adiar por mais tempo, e ouviu também a resposta, então porque não escreves e andas a adiar isso há semanas, não  sei escrever, ouviste, nunca aprendi, nem sequer entendo o que diz o cartão que ele te deixou a última vez que aqui esteve, e tu também não sabes não é, e a ninguém mais poderia contar esta história, por aqui podes ver o meu desespero.

Besta Célere começou a tremer e uma vez mais sentiu o suor a romper-lhe de todos os cantos do corpo, o suor, que nem lhe tinha aflorado a epiderme na curta explosão sexual de há momentos, deslizava agora sobre ele como um rio pegajoso e ele sentiu que estava ali outra oportunidade e que precisava de aproveitá-la, por isso recompôs-se o mais que pôde, deu graças nem sabia muito bem a quem por estar de óculos escuros e aflorou à porta do cubículo.

Eu sou escrevedor de cartas, posso resolver o seu problema, ouvi a vossa conversa, peço desculpa mas a porta estava aberta. Viu dois pares de olhos esborratados a fitarem-no com assombro, percebeu as olheiras profundas marcadas em ambas as faces escalavradas e sumidas e apressou-se a tranquilizá-las, eu sou discreto sabem podem confiar e afinal se repararem eu também confio em vós, Claro, claro disse uma delas, entre, desculpe termos ficado assim, mas é que não sabíamos que estava aí…não, não quero entrar, tenho que ir embora o que tenho a dizer posso fazê-lo mesmo daqui, diga-me onde posso encontrar-me consigo amanhã e a que horas e tenho a certeza que posso resolver o seu problema.

Contrariamente à reacção da mulher da petição, estas não estranharam em nada o facto de haver alguém que a si próprio chamava de escrevedor de cartas, nem sequer de o mesmo não referir qualquer escritório ou   endereço ou sequer ostentar um cartão. Pelo contrário, uma expressão de incontível alívio animou o rosto marcado por cosméticos e ansiedade das duas mulheres,  e uma delas, a mais magra e sumida de cabelo pintado de ruivo escuro e olhos muito grandes no fundo da face macilenta dirigiu-se para ele e sussurrou-lhe ao ouvido, amanhã na minha casa, na rua … às cinco da tarde pode ser?

 

                                                                                                        (continua)

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