O Besta Célere

 

 

 

 

Henri Toulouse-Lautrec, Le Baiser

 

 

 

 

 

 

Capítulo 91

 

 

 

Era uma carta de engate e não de amor pois o objectivo do pedreiro de mãos estranhamente delicadas para tão dura profissão cingia-se a levar para a cama a jovem estudante do liceu romântica e sedenta de um maço de cartas perfumadas atadas por um lacinho. Besta Célere detestou ouvir os pormenores da história, tanto mais que a carta teria que ser de amor verdadeiro e lamechas (ainda que o jovem grosseiro não fosse capaz de sentir, ao menos pela espalhafatosa rapariga, sentimentos delicados compatíveis com o perfume quase sufocante do papel de carta rosado) e o estilo necessitaria de ser romântico e cheio de arabescos.

Não  sei se estás a ver, o jovem pedreiro, fumador e boçal, desatou a tratá-lo por tu logo no segundo encontro sem a menor hesitação, quando se sentaram numa espécie de taberna à saída da cidade e ele pediu cerveja atrás de cerveja enquanto Besta Célere se acomodava à mesa de madeira repleta de nódoas e círculos esverdeados deixados pelos fundo das canecas e garrafas, a gaja é boa, e ainda por cima deita-me cá uns olhos! Mas eu sei que ela não vai com facilidade precisa de namoro e eu já tenho namorada não posso comprometer-me duas vezes percebes?  E olhava-o com olhos um pouco vítreos da bebida, e então o nosso escrevedor de cartas, de seu nome e apelido Besta Célere, já preocupado com o tempo que iria demorar-lhe a escrever a carta se não começasse logo, tanto mais que tinha alguns rascunhos que poderiam servir à pretensão do sedutor, desdobrou sobre a mesa o seu material de escrita perante o jeito trocista do cliente que deu uma sonora gargalhada enquanto batia com as mãos nas coxas, Escrevedor de cartas, não é? E eu que nunca tinha ouvido falar dessa profissão… Mas já Besta Célere começava Meu amor, percebo muito bem que não queiras nada comigo por enquanto, afinal és uma flor preciosa, uma pequena haste mal desabrochada na primavera com que a terra se enfeita e eu não passo de um homem desajeitado incapaz de me chegar junto de ti sem antes ter a certeza que é esse o teu desejo. Não rejeites contudo esta minha carta que eu fui pedir de empréstimo às rosas do jardim e que escrevo com as letras dos meus anseios. Falo de rosas porque sei que são as tuas flores predilectas e eu, se fosse mais delicado, havia de apanhar do jardim um grande ramo para te cobrir por inteiro e depois tirar os espinhos um a um para que em nenhum momento pudesse ser ferida essa tua pele de nácar capaz de fazer tremer de inveja o próprio cetim. Depositarei esta carta à porta da tua casa, e com ela  a fita de seda para poderes ir atando o ramalhete das missivas pelas quais louvarei a tua beleza.

Quando acabou de escrever, Besta Célere percebeu que estava quase ébrio, não porque tivesse acompanhado o seu cliente na sucessão prodigiosa de cervejas que ele ia engolindo ficando progressivamente atordoado se tal fosse possível, pois a capacidade de beber e ficar sóbrio parecia inesgotável para aquele estranho espécimen, mas na exacta medida em que lhe começaram a despertar pruridos morais, parecia-lhe injusto para a estudante de liceu tramar aquela perfídia embora percebesse algo de impudico no desejo de ter um pacote de cartas perfumadas atadas com um lacinho. Acabou encolhendo os ombros, que sabia ele dessa mulherzinha enfatuada e devoradora de romances baratos ou de telenovelas doentias e no entanto estudante de liceu, decerto merecia ser enganada por aquele pervertido ou perverso ou decerto normalíssimo exemplar do sexo masculino e se acaso desse certo o truque das cartas perfumadas talvez se merecessem um ao outro e ele Besta Célere, escrevedor de cartas e relojoeiro ou vendedor de relógios ou tudo junto começava a desconfiar cada vez mais da sua lucidez e parecia-lhe em definitivo que acabara bêbado de cerveja por osmose já que a taberna toda fedia àquele malte barato. Entregou a carta ao pedreiro depois de lha ler e ali mesmo combinaram nova entrevista para daí a quinze dias caso a rapariga respondesse à carta e ele necessitasse de novo serviço.

Saiu dali cambaleante e como era praticamente noite, tendo o crepúsculo uma luminosidade perigosa pois confunde as formas e é como se os transeuntes vogassem numa espécie de mar de cristal, acabou por perder-se no caminho deixou de conhecer a cidade onde vivia já nem se lembrava há quanto tempo. Percebeu que nunca mais chegaria à mansão a tempo de cumprir os seus apertados e rígidos horários pois ainda tinha que comer isso mesmo comer, essa actividade ridícula que o obrigava a sentar-se quotidianamente em mesas esconsas de restaurantes baratos, pois não conseguia perceber a vantagem de gastar dinheiro em comida a bem dizer não via proveito em gastar dinheiro fosse no que fosse tudo era insípido banal fastidioso e se não tivesse estabelecido uma meta pessoal que era viver celeremente e demonstrar a si próprio que o valor de cada micro segundo poderia ser elevado até às alturas de uma prodigiosa celebração, sem dúvida naquele preciso crepúsculo teria acabado com a sua até ao momento reles existência.

Besta Célere nem sempre fora assim, há muito tempo atrás, enquanto ainda bastante jovem poderia quase considerar-se um ser humano normal, vivendo a sua vida pacífica como os outros adolescentes entre a casa paterna e a escola. Paterna, ou não, já que as pessoas com quem vivia antes de atingir a maioridade e se emancipar em absoluto poderiam perfeitamente não ser os seus pais ele até achava que não eram, visto não sentir por eles a menor sombra de afecto e perceber que do lado deles o sentimento era recíproco. De qualquer maneira a existência ia-lhe decorrendo normalmente ainda que de modo insípido mas atentando bem nos afazeres dos que o rodeavam ora na escola ora na rua ora nos jardins na praia no cinema enfim na esmagadora maioria dos locais por onde acontecia passar nada de interessante acontecia a seus olhos.

A sua existência actual, e este actual tem um sentido de contemporaneidade não de momento preciso, tinha vindo a justificar o enorme tédio sentido ou pressentido nos seus verdes anos e embora poucas reminiscências se permitisse visto não ter agendado um horário para tal ocupação o certo é que naquele início de noite enquanto numa fúria insensata tentava descobrir onde estava e que caminho seguir para chegar a casa foi acometido de uma sensação aflitiva de nostalgia. Porém, como se um deus ou um demónio ou fosse o que fosse de invisível que lhe comandava os passos naquela hora de embriaguez por osmose estivesse finalmente do seu lado, viu com um impacto súbito o candeeiro antiquado que alumiava a entrada da sua mansão e  suspirando de alívio correu para a porta abriu-a e depositou-se a si mesmo como um fardo numa das poltronas de veludo púrpura que ainda conservava na saleta de que fizera escritório aquando da sua primeira entrevista como escrevedor de cartas.

            Olhando o relógio percebeu que a hora de dormir se aproximava velozmente restavam-lhe uns escassos 23 minutos e ainda não tinha jantado e foi então que decidiu procurar fosse o que fosse nos armários da cozinha e elaborar a primeira das muitas refeições que viria a fazer com rigor e mestria daí para a frente, a partir do momento em que conseguiu criar a receita adequada. Animado, por fim, com o modo como estava a terminar aquele dia e já restabelecido das horas de transtorno que o haviam feito vaguear estupidamente por ruas e becos em vez de caminhar com passo decidido como era seu hábito foi dormir serenamente sem sonhos ou estremunhares até o relógio electrónico o despertar pontualmente no dia seguinte.

            A partir daí foi aperfeiçoando os seus horários e adaptou-se com mestria às exigências das suas profissões. Todos os dias guardava o final do dia alternadamente, ora para escrever novos rascunhos à medida que lhe iam surgindo clientes com diferentes e muitas vezes inverosímeis temas de epístolas ora para atender esta ou aquela necessidade súbita de redigir cartas para gente com prazos a cumprir ou simplesmente em grande aflição comunicativa.

Poderá parecer extraordinário neste tempo de correio célere feito de um modo instantâneo, nesta sociedade que é nossa e que também é a dele Besta Célere, neste mundo em que se enviam emails ou se escrevem sms de qualquer maneira em qualquer língua e com as mais aberrantes abreviaturas haver um mercado assim tão prolixo para um escrevedor de cartas ainda por cima redigidas utilizando canetas de tinta mergulhadas espaçadamente num tinteiro de vidro, poderá parecer absurdo fazer desta actividade profissão e a ela dedicar uma parte considerável do tempo disponível. No entanto a experiência de Besta Célere levou-o a entender mais do mundo em que vivia do que se compactuasse com a sociedade tecnológica e houvesse prescindido de ouvir os outros ouvindo-se a si mesmo pois de facto ele criara os modelos das cartas em primeiro lugar num momento prodigioso de libertação do estro que tinha sem saber que tinha e por fim soubera de um modo muito introspectivo mas nem por isso menos adequado adaptar o seu  instinto aos rumores do mundo em que vivia e só assim pôde encontrar clientes e aplicar o seu talento.

Escreveu seis cartas para o pedreiro, as três primeiras espaçadas de quinze dias e as últimas de apenas uns escassos três, e quando o rapaz não apareceu ao sétimo encontro Besta Célere entendeu que finalmente ele e a sua conquista tinham conseguido os seus intentos a saber um alcançara satisfazer a necessidade de engatar (a palavra era do pedreiro e não dele Besta Célere) e levar para a cama a estudantezinha romântica e por seu lado a moça podia guardar na gaveta um belo maço de cartas perfumadas atadas com uma fita de seda já que era esse o seu principal anelo romântico. Depois foi encontrando clientes por toda a parte, percebeu que as pessoas dos mais diversos estratos sociais económicos e culturais por muito bem que soubessem desempenhar profissões tão díspares como cozinheira, dentista, advogado, professora, farmacêutico, médico jardineiro polícia investigador bailarina coreógrafo e praticamente tudo o que era actividade na cidade onde vivia Besta Célere, sentiam um enorme aperto perante a brusca necessidade de escrever uma carta às vezes porque tinham vergonha de falar directamente, outras porque o destinatário estava muito longe e era de uma condição social superior e a carta necessitava ser escrita à mão e havia gente que já mal sabia usar papel e caneta, outras porque o assunto era confidencial e nunca poderia ficar gravado num disco rígido de computador, outras apenas porque era obrigatório, enfim, escrever cartas à mão ainda era necessário e difícil, tão difícil mas ao mesmo tempo tão comum, que bastava estar atento e logo alguém manifestava essa necessidade imperiosa normalmente usando a expressão, preciso de escrever uma carta.

Não pensemos que Besta Célere teve sempre sucesso nas suas abordagens após aquilo que ele passou a considerar a sua deixa, já que de vez em quando era olhado com desprezo de alto a baixo ou então com uma gargalhada de puro escárnio, mas com soberana e autêntica indiferença ele aprendeu a desculpar-se polidamente e a abandonar o local com dignidade, nunca se permitindo esmorecer ou consentir que o revés lhe afectasse a regularidade dos dias e das noites.

Um dia porém um episódio veio trazer-lhe memórias imprevistas e ele viu-se mergulhado, sem possibilidade de fuga, no seu passado mais longínquo parecia-lhe em que era ainda um jovem e sonhava levar uma vida feliz como todos os outros, ou quem sabe apenas como alguns, pois ele bem via que a felicidade não andava por aí em qualquer esquina pronta a ser agarrada facilmente por quem quer que fosse.

 

 

                                                                                                                                                                      (continua)

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