O Besta Célere

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

René Magritte

 

 

 

 

 

 

Capítulo 90

 

 

Era um dia comum para Besta Célere não porque tencionasse partilhá-lo fosse com quem fosse e esta expressão talvez denuncie a ambiguidade aterradora de certas palavras o atoleiro onde nos precipitamos sempre que queremos escrever ou falar porque comum significa em comunhão ainda que neste contexto passe a significar vulgar banal igual a qualquer outro e portanto em comunhão não com alguém não com esta ou aquela pessoa mas de facto em uníssono ou perfeita concordância com o trivial e a palavra com que tantas vezes escrevemos neste já longo parágrafo, e cabe agora dizer que pouco nos importam parágrafos pontuações etc e que só os fazemos em função do sentido psicológico, que é subjectivo, da escrita e que esse sentido psicológico e subjectivo da escrita ao dirigir-se a outrem comunicando (e reparem como o com e o comum continuam a fazer parte do comunicando) visa atingir o campo psicológico e subjectivo do outro e nessa medida tornar-se universal e objectivo e aqui está o difícil e aparentemente contraditório sentido do juízo estético para Imannuel Kant a saber subjectividade e universalidade a um só tempo e eu direi que, por exemplo, Fernando Pessoa ao falar sempre de si para si próprio mas por via de um desdobramento cruel ou divino ou ambas as coisas não sabemos conseguiu expandir a sua subjectividade de tal maneira e com tanta mestria que logrou alcançar o universal escrevendo poesia objectiva mesmo parecendo que é o fundo do seu eu que ele vai desentranhando verso após verso e mesmo sendo mas há de facto poetas que ultrapassam a fronteira da mesquinhez formidável do lugar-comum e comezinho das ocorrências misérrimas da particularidade indo direitos ao todo, e então voltemos ao princípio para reflectirmos sobre esse dia comum de há muitos anos atrás em que Besta Célere era um jovem de aspecto senão brilhante pelo menos aceitável e este adjectivo pode ser superlativado ou não à medida de quem o usa ou de quem o topa no caminho.

O Verão atingira o auge era dia 15 de Julho não havia aulas nem trabalho nem coisa nenhuma e ele, Besta Célere ainda pouco treinado na qualidade adstrita ao seu apelido mas já consciente da sua qualidade de Besta ou animal, se bem que à luz dos conceitos humanos feito racional e portanto superior às outras bestas desprovidas de razão, mas nem por isso melhor do que elas, decidiu passear e os passos (de passear, registe-se) acabaram por levá-lo até uma praia. Mal chegou apeteceu-lhe de imediato entrar de novo no autocarro ainda na paragem visto que a praia regurgitava de gente a ponto de não conseguir vislumbrar-se um mísero local para sentar e observar o mar também ele absolutamente pejado de banhistas e Besta Célere nem tão pouco trazia fato de banho apenas se lembrou de passear sem perceber que ir à praia em Julho era o mesmo que partilhar o caos e aceder à promiscuidade o que a todos os níveis lhe repugnava já naquele tempo. Foi então que reparou numa figura debruçada sobre um parapeito em franca atitude de tristeza desesperada pois os ombros e todo o tronco oscilavam na cadência rítmica de quem chora  e era uma rapariga pareceu-lhe pelo jeito franzino. Indeciso entre a corrida para o autocarro prestes a arrancar e a atracção inusitada perante aquele corpo de mulher chorando parecia-lhe embora não conseguisse ter a certeza vendo-a de costas apenas, Besta Célere permaneceu angustiado por momentos até que decidiu aproximar-se do vulto estranhamente sacudido por soluços ou risos ainda que de risos não parecesse ser semelhante ritmo semelhantes espasmos assim desocultados em soalheira e cálida tarde de verão.

Desceu a escadaria que conduzia à praia franqueada pelo muro sobre o qual ela se debruçava e olhou para cima com inteira discrição percebendo que efectivamente a jovem (porque era muito jovem) soluçava de modo audível e sem saber que impulso audaz lhe dirigia os passos e os sentidos e afinal todos os instintos subiu os degraus de modo precipitado e acercou-se da desesperada criatura, e deu consigo a murmurar de um jeito carinhoso que não imaginava possuir, Porque chora que lhe aconteceu, e viu-a deitar-lhe um relance de desconfiança mesclado de ódio ou pavor era difícil discernir enquanto todo o corpo se preparava para fugir dali mas Besta Célere agarrou-lhe um braço e deu consigo mesmo a suplicar Não, não fuja eu não lhe pergunto nada prometo deixe-me só fazer-lhe companhia não conheço nada mais triste do que chorar sozinho acredite que já passei por isso…e enquanto falava aproximou-se da rapariga e segurou-lhe a mão húmida de lágrimas ainda agarrando um lenço de papel feito em farrapos.

Durante algum tempo assim esteve, prendendo a mão da rapariga e entendendo que aos pouco os soluços desapareciam para darem lugar a uma espécie de gemido final em tudo semelhante à nota derradeira de uma ária de ópera (Besta Célere não era muito culto musicalmente falando mas tinha assistido a uma ópera no tempo em que a avó ainda vivia e o havia levado ao teatro e ficara-lhe sempre na memória auditiva o som do gorjeio definitivo da soprano de cabeleira formidável) e aquele som meio suspiro meio gorjeio com que a sua jovem e inesperada companheira parecia querer concluir o arquejante soluçar trazia-lhe todos os cambiantes dos raros momentos em que aturdido ouviu cantar.

De um momento para o outro, porém a rapariga mudou de atitude secou os olhos endireitou-se ajeitou os cabelos que lhe cobriam parcialmente o rosto e encarando Besta Célere fez um trejeito de espanto e tentou retirar a mão no que não foi muito bem sucedida à primeira pois o jovem não lho permitiu, de repente receoso de que ela desatasse a fugir e nunca mais fosse vê-la nem ele saberia explicar muito bem a si mesmo porquê semelhante angústia, porém a rapariga não tencionava fugir e foi com um leve ciciar de voz que ela sussurrou, quer ir comigo tomar uma bebida?

Besta Célere ensimesmado ou hipnotizado ou um misto de ambos os sentimentos deixou-se levar e passados alguns minutos estava sentado num bar sobre o areal com uma coca-cola à frente enquanto a sua companheira o fitava curiosa e perplexa.

Porque quis consolar-me, em que lhe importo eu? Dizia ela com uma voz sumida e Besta Célere pôde observar-lhe os olhos de uma cor indefinida entre o verde e o cinzento avermelhados pela recente explosão de choro, Interesso-me sempre por pessoas que choram, sabe, sou um maníaco do choro, não me leve a mal, só estou a ser verdadeiro. A rapariga enrijeceu no assento e compôs a camisa amarrotada e demasiado grande para o seu tamanho, Então fui apenas uma curiosidade, Não, não, interpretou-me mal eu interesso-me mesmo, reparou na palavra interesso-me? Se não fosse esse interesse e reforçava a palavra interesse como se lhe fosse fundamental fazê-la entender sem ambiguidades que se tratava de interesse e não de outro sentimento qualquer menos digno, parecia-lhe, tinha apanhado o autocarro para ir embora, sabe, era exactamente isso que eu ia fazer, detesto ajuntamentos, multidões… Mas interessou-lhe o quê? Espere aí, está a hostilizar-me só porque não quis que chorasse sozinha?

A rapariga calou-se baixou os olhos sobre a bebida e Besta Célere, silenciosamente observou-a, viu que não teria mais de 17 anos percebeu a sua origem muito mais elevada socialmente que a dele apesar do desleixo evidente, captou todo o nervosismo patente na tremura dos dedos e na crispação dos lábios túrgidos e bem delineados mas um pouco pálidos viu-lhe nos traços um sinal de teimosia acentuado pelo nariz erguido na ponta e aos poucos deixou-se fascinar, percebeu que pela primeira vez na vida se deixava seduzir pelo sexo feminino pois era de sedução que se tratava, aquela rapariga emanava um extraordinário encanto, mesmo arrebatada pelo desgosto ou talvez por causa disso mesmo. Quer saber porque estava eu a chorar, quer perceber porque estou aqui vestida deste modo…Não não quero de facto já lhe disse que não precisa de me dizer nada E se eu quiser? Sendo assim, oiço-a, mas só porque quer falar…Ela olhou-o com estranheza, Começo a perceber o que quis dizer com a palavra interesse e se lhe interesso mesmo quererá ouvir-me ou não? Sim, mas só se for importante para si, eu não sou curioso, a curiosidade simples, sabe, querer saber só para ficar com os segredos dos outros isso não me interessa, agora se for do seu agrado falar se lhe fizer bem, Não sei se me faz bem ou mal, acho que merece saber uma vez que foi a única pessoa que se interessou, e eu já estava ali há bastante tempo acredite!

E então  a rapariga começou a falar, contou uma história incrível de perseguição e violência, e Besta Célere ficou a saber que ela tinha fugido de casa, viera de uma cidade do outro lado do país só com aquela roupa no corpo e quase nenhum dinheiro e de repente não aguentara mais estava no limite das forças e por isso tinha chegado àquele estado de desespero em que já lhe parecia possível atirar-se de um rochedo para as ondas ou fazer qualquer loucura. Enquanto falava, a rapariga ficava cada vez mais animada, abanava muito a cabeça onde os cabelos castanhos desalinhados e baços denunciavam uma necessidade urgente de banho e foi então que Besta Célere a convidou para vir com ele  e ficar uns dias até decidir o que fazer. No momento exacto em que pronunciou estas palavras e antes de a rapariga ter dito fosse o que fosse Besta Célere percebeu que tinha cometido um erro, ele nunca poderia levar a rapariga consigo para a sua casa, que nem sua era mas de uma senhoria mal-humorada que não iria encarar com bons olhos a presença de uma intrusa, no entanto reflectiu um pouco e decidiu levar avante o seu plano, logo que chegassem pediria um quarto à hospedeira ou dar-lhe ia o seu, pouco lhe importava dormir na rua num banco do jardim ou num canto qualquer e tudo se resolveria.

Aquela rapariga chorosa foi o primeiro e único amor de Besta Célere e o modo como veio a desenrolar-se a aventura emergente naquele dia cálido de Julho determinou para sempre a forma como daí em diante ele veio a definir a estrutura da sua existência.

 

 

                                                                                                                                                                      (continua)

 

 

 

 

 
 

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