Para lá do ludíbrio, para lá do amor

 
 
 
 
 
Magritte, Os Amantes
 
 
 
Para lá do ludíbrio, para lá do amor
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Naquele dia ela soube, com toda a clarividência que lhe era possível, enquanto humana, que nunca, de facto, alguém a amara e por isso estava sozinha na vida e no mundo e assim iria permanecer. Percebeu que todos aqueles que lhe tinham feito promessas de amor ou de paixão, que uma pode levar ao outro em situações excepcionais,  estavam a pensar neles, apenas neles e no modo como iriam servir-se dela, dos seus dotes, fossem eles a beleza, a inteligência, a criatividade, um certo delírio vizinho da extravagância e o esplendor que emanava em qualquer situação e tantos outros predicados que sabia ter mas que talvez não fossem, de facto, ela, ou melhor aquilo que nela apelava ao amor dos outros. Percebeu que todas as vezes que ouvira a expressão «amo-te», saída da boca de outrem, o «te» depois do hífen não tinha, de facto, absolutamente nada a ver com ela, o «te» era uma mistificação, um engodo, porque não lhe dizia respeito, não lhe tocava a raiz do ser. Nem uma só vez ela foi amada por si mesma, ou seja, mesmo que fosse estúpida ou feia, mesmo que nem sequer existisse e fosse totalmente invisível, e mesmo nua, o amor era dirigido à pele, não a ela, aos seios, não a ela, às pernas, não a ela, ao triângulo do prazer no centro do corpo, não a ela, e quando a olhavam nos olhos e lhes cobiçavam o brilho, os olhos também não eram ela, ou  a  boca que ansiavam beijar e até morder. E depois percebeu que todos esses que uma ou outra vez lhe  juraram amor eterno ou perecível, mas amor, quiseram sempre outra pessoa que julgaram amar, outra, que estava escondida nas suas cabeças e projectaram como sombra sobre si ocultando-lhe o ser ou transformando-o.  Com tudo isso vieram as normas, isso mesmo, as regras de actuação, o «eu quero que tu sejas assim e não assim», quer fosse um corte de cabelo, um modo de estar sentada, uma crença, um  gesto, uma ideologia ou uma religião ou a ausência dela. O que haveria para amar, que não fosse o corpo, a mente, o espírito, as ideias, o si verdadeiro, antes do corpo, da mente, do espírito e das ideias ou para além deles, isso nunca foi descoberto, pressentido, desejado ou sequer levado em conta, por um breve instante. Não, nunca foi amor, essa pequena dose de interesse, esse suposto afecto por uma máscara que nada representava da sua verdade, essa coincidência aleatória de dois corpos com o pensamento alhures, parecendo juntos e contudo em galáxias longínquas. E então percebeu que a sua solidão era a solidão de todos os que amam, sem amar e depois se ausentam, para ficarem a sós consigo mesmos, inconscientes dessa verdade, mas sós, enquanto que ela se tornara consciente para lá do ludíbrio, para lá do amor.

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