Fogo Fátuo

 

 

 

´                                     Salvador Dalí, O Enigma Infinito

 

 

 

                                                                 

 

                                                          FOGO  FÁTUO

 

 

 

E depois ela pensou e pensou e voltou a pensar na diferença que estabelecera entre aqueles que disseram amá-la, e contudo não amaram, e o amor que ela acreditava ter dado, qual oferenda, àqueles que um dia amou, e cada vez mais perplexa viu, ou julgou ver, que não saberia nunca explicar cabalmente o segredo desse sentimento, apesar de tudo conceptualizado, apesar de tudo sentido. Amar não corresponde de facto a nada de tangível, porque, se acaso pudesse corresponder, deixaria de ser o que é: essa espécie de despojamento de um eu em direcção a outro eu, por sua vez despojado de qualquer roupagem corpórea, espiritual ou mental. Despojamento, aniquilação, ausência de ser, eis o amor; e contudo, nos limites, ou para lá deles, esse suposto nada encontra a sua substância, a sua essência, o indizível reflexo de dois entes não representáveis e logo invisíveis, vertidos em intuições fulgurantes nunca corporizadas, porque corporizar é trair. Ela percebeu que é impossível amar, ou que a sua possibilidade remete para uma diáfana construção de sinais íntimos e prodigiosos,  para os quais não existe sequer o pensamento, quanto mais a palavra, a definição, a exteriorização, o acto e por aí adiante. E lembrou-se da metáfora de Jack London, dos dois esposos enamorados do amor que sentiam, ilusoriamente, um pelo outro e, com essa centelha de verdade no fundo de si mesmos, a evitarem tocar-se, beijar-se, consumar o desejo, crendo que continuariam enamorados um do outro, ou do amor que julgavam sentir um pelo outro, se acaso nunca levassem até aos estados finais da concretização amorosa o que sentiam o que os impelia um para o outro. Mas um dia, depois de anos e anos de suposto enamoramento, ou auto-enamoramento, sentaram-se à mesa do pequeno almoço e deram conta que já não havia fogo, nem sequer centelha, e que o amor tombara, feito cinza, aos pés dos que nunca se haviam tocado para preservar incólume o que julgaram ser o amor que sentiam um pelo outro. Não era, claro que não era; e descobri-lo, de facto, depois de o haverem suspeitado durante anos de fascínio, em que esperavam decerto a eternidade esplendorosa do desejo que os deuses não lhes outorgaram – assim se chama o conto de Jack London "Quando os Deuses se Riem" – descobri-lo, abruptamente, numa certa manhã e verem nos olhos um do outro a mesma cruel constatação, sem pronunciarem uma só palavra, em vez de lhes dar a clarividência dos factos consumados, em vez de lhes permitir soltar o suspiro de alívio, após o azorrague do desejo não realizado, precipitou-os na repugnância, no desgosto e na fuga! Estranhos, este dois amantes, que pareciam enamorados um do outro mas não estavam, pois o que apenas lhes importava era a poder das sensações luminosas do desejo, os arquejos vibrantes da paixão, os anelos entusiastas da fruição sensível! E, hipócritas, sim, pois nunca ousaram confessar o que decerto sabiam, visto que não se preocuparam em nenhum momento com o que o outro sentia, que nunca chegaram a saber, pois cada um achava que era o mesmo! E arrogantes também, na superioridade que parecia dar-lhes aquele amor nunca declinado, perante os frangalhos das vidas dos outros, imersas no tédio e no conformismo!

Os deuses riram-se daquele casal de fátuos, como se riem, se deuses houvesse, dos anelos de todos os enamorados, das juras de amor falso, ainda que sincero, quando sai da boca de quem o soletra… e as razões estão por aí, ao alcance de quem vive, principalmente se é humano, principalmente se está vivo!

 

 

                 (As repetições sucessivas de um e outro de um pelo outro e por aí adiante não foram mera coincidência, mas sim cálculo e intenção: é que sem elas o texto não poderia fazer sentido!)

 

2 Respostas to “Fogo Fátuo”

  1. Rascunhos e Says:

     
     
    “Rascunhos & Sentimentos” tem o prazer de vos apresentar o “Poeta da Semana”. 
     
     
    Ménestrel
     
    "Espace Poésie de Ménestrel "
     
     
    Entre e sinta-se á vontade, junte-se a nós, comente e faça desta iniciativa a sua casa.
     
    Desfrute
    Das palavras que escrevem…
    Dos sentimentos que desvendam…
     
    Seja bem-vindo!
     
     
    “Rascunhos & Sentimentos”

  2. Alcyone Says:

     
    REGINA, o problema reside precisamente em ter a cega e insensata impressão de que cada um do dois presumir
    sentir o mesmo, quando o que conta no amor é a diferença intrínseca, a distinção que une sem fundir; porque uma
    é a união e outra a confusão!…
    Dois seres amam-se, unindo-se na diferença e não fundindo-se na in-diferença!
    Usando uma banalidade, é preciso para haver «corrente» existir diferença de potencial…realizar a «enteléquia»
    do amor…necessita que haja amor!…
     

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