Animais Irracionais Complexos

SALVADOR DALÍ , Girafas queimadas e telefones

 

 

 

 

                  

 

 

                      ANIMAIS IRRACIONAIS COMPLEXOS

 

 

Fernando Pessoa, esse demente-lúcido, plurívoco e esquizofrénico, assombrado e tecendo versos em assombrações, bêbado e sóbrio a um tempo só, escreveu, um dia, mais ou menos o seguinte: Os homens são animais irracionais como os outros: só que os primeiros são animais irracionais simples, enquanto os segundos são animais irracionais complexos. Não posso dizer cabalmente o que pretendia ele significar com este pensamento porque,  por mais argutos que julguemos ser, relativamente à certeza sobre o que os outros são, ou querem significar com actos ou palavras, a verdade é que só nos resta especular e então especularei sobre esta frase de Pessoa , fazendo-a minha, pois é sempre isso que empreendemos quando analisamos ou interpretamos o pensamento de outrem.

Na medida em que somos animais irracionais complexos, somos todos animais dementes e cada um ostenta a sua demência privada ao seu modo específico, mesmo quando se acredita sensato, ordeiro e equilibrado. Afiançar para si estes três predicados é a apoteose da demência!

Imaginem um homem que, todos os dias, põe o despertador para as sete da manhã, só porque decidiu que era aquela a hora adequada para se levantar, e não porque o apresse qualquer horário feito numa  imposição extrínseca  ou porque vá fazer das suas horas seja o que for de extraordinário,  mas porque estabeleceu, como rotina, esse gesto, e a rotina, assim espartilhada e cronometrada, fá-lo sentir-se racional e absolutamente respeitável! Não é esta a quintessência da mais irracional das atitudes?

Todos os dias, o nosso homem levanta do travesseiro a cabeça esgrouviada e apressa-se para não sei que tarefas, apenas porque o seu cérebro complexo e retorcido, como são os dos humanos ( ao menos o do boi que rumina nos campos é liso como um seixo polido e não o inquietam esses burburinhos do intelecto, louvado seja o ruminante!), e logo a seguir se afadiga nos mesmos gestos matinais, entre o pequeno almoço e a libertação da matéria fecal (perdoem, mas não sei de termos mais suaves para expressar esta necessidade fisiológica) a que se obriga duas vezes, para não ter sobressaltos no caminho! 

E que caminho é esse, perguntarão? Pois bem, o nosso homem vai trabalhar, pensa ele, e contudo vai apenas impingir uma reles mercadoria, de porta em porta, para angariar umas míseras notas de euro (quando o acto de impingir dá frutos) e assim justificar a manhã e poder, por volta do meio dia ou um pouco mais tarde, escolher um restaurante modesto ou uma tasca e aí, enquanto espera que o sirvam, e depois de ter atirado uns piropos desconchavados em redor, sacar de um reles caderno chamado sebenta e , com uma caligrafia deplorável rabiscar pequenas frases arrancadas a ferros, sempre, mas sempre, ouviram?, subordinadas ao tema do seu eu – única personagem que ele valoriza, de facto, sobre a terra!

Digam-me: este viver do nosso herói  não é a mais rematada das loucuras? Como é possível fazer-se nada e chamar-se de trabalho a semelhante ausência de sentido extrínseco, já que o produto é uma nulidade e não serve ao interesse de ninguém neste mundo? Como pode alguém viver enfronhado em si próprio numa sociopatia e cegueira inomeáveis e, apesar disso, arvorar-se em personagem ordeira e rigorosa que trabalha, que produz e mais – pasmem,   meus amigos! – que é um artista?

Sim, artista, porque às vezes, depois do almoço e talvez antes (quem sabe? eu nunca o testemunhei ao vivo!), esse nosso homem saca de uma câmara digital e fotografa o que vê, flores, rios, animais, mas fá-lo (imaginem só!) crendo que está a fazer arte, como já cria que o fazia quando escrevia os pobres e fanados textos na sebenta mesquinha! Não é uma loucura em extremo grau, fixar, em imagem truncada, o que qualquer um pode ver bastante melhor com os próprios olhos e depois (porque há um depois que já verão qual é!), ousar dizer que produziu fotografias artísticas?

Muitas vezes, esta excêntrica e completamente absurda personagem, quando, caídos não se sabe de que bolsos providenciais, lhe acontece ter mais notas de euro do que aquelas que lhe rendem as míseras vendas do mísero produto, o homenzinho faz umas viagens, de malas e carro apetrechados e, mais ou menos longe do seu habitat normal, impinge e impinge e impinge e dirige a objectiva para aqui e para ali e para mais além e rabisca e rabisca e rabisca…Alucinante este viajar medíocre, se atentarmos na ridícula produção de imagens, na pequenez da inspiração escrita em "prosa" ou em "prosa poética" ou em "poesia"…categorias que eu nem sei se ele saberá distinguir, atendendo ao resultado! É ou não é completamente lunático o nosso paradigma da mais ordeira e racional forma de estar vivo?

Pelo fim da tarde, regressa a casa, quase sempre à mesma hora – não sei se é o despertador que lhe recorda o minuto certo de findar o trabalho! – e então, uma vez no recato de quatro paredes, recolhe o produto das suas deambulações pela paisagem e pelo caderninho e ataca o dicionário em busca de palavras mais sonantes, e a gramática, tentando construções frásicas arrevesadas, com  as quais vai depois impressionar um certo público, no contexto de um certo veículo de comunicação.

Que rematada loucura, meus amigos! Este homem só fala de si, é o seu eu escalavrado e esclerosado que ele glosa num narcisismo torpe sem paralelo, e no entanto crê ter o direito de o fazer sair de si para os outros que, doentes da mesma enfermidade, são bem capazes de conjecturar que por detrás do fraseado retirado de gramáticas, dicionários e sei lá que outros manuais, e empastado na frase que lhe saiu num momento de lucidez (um ou dois por dia, ele consegue ter!) são bem capazes de conjecturar que ali há talento!

A seguir vem a noite e o gongo toca no cérebro demente deste suposto lúcido que se retira para o leito  (não para a cama, notem bem!) pois ainda há uma ou duas rotinazinhas a cumprir: uma página ou duas a ler do livro de cabeceira ou, por vezes, uma frase meio esboçada para adiantar o trabalho do dia seguinte!

 

Conto-vos esta lenda, caros amigos, para justificar ou, quem sabe?, tornar sensível a frase de Pessoa com  que abri este texto: animal irracional complexo, eis o homem, animal irracional empenhado numa tarefa mísera que nada acrescenta a nada, mas que se arvora em grande objectivo! E o pior é que estes doidos andam por aí à solta, feitos mercenários da arte e ousam gritar em voz sonante que são excelentes pessoas, racionais e dignas, exemplos perfeitos da respeitabilidade! Ah meus amigos, antes ser louco de facto, deixar tudo ao acaso, espatifar relógios, deixar a poeira invadir os aposentos, e o lixo e as teias de aranha e os ratos em comunhão fraterna, e não reivindicar para si essa irracionalidade complexa que muitos confundem com A RAZÃO!

Fernando Pessoa queria dizer que tudo o que somos (nós humanos, e ele, muitos Fernandos no meio de todos nós,   e eu, que assim escrevo exactamente como todos) tudo o que somos, reforço, é uns pobres loucos, crentes de que subimos acima da besta, quando o boi que rumina na pastagem  ou o galo que canta no telhado, com os seus cérebros pequenos e lisos, têm mais dignidade  num átomo do corpo do que estas estranhas personagens como é a do meu conto (que talvez não exista, porque acabo de a inventar!), afinal a caricatura extremada da vida de todos.

 

(E não é que depois de reler o texto que escrevi desatei a nutrir pelo meu herói um profundo afecto e uma extrema admiração de tal modo me pareceu genuína a forma como conduz a sua rotina demente? Estranho sentimento para quem assim queria ser sarcástica…)

 

 

Uma resposta to “Animais Irracionais Complexos”

  1. Alcyone Says:

     
    «ROMA» é o cotrário do «AMOR»
     
        D A N T E

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