Animais Irracionais Complexos – II Parte

 

 

 

René Magritte, La Reproduction Interdite

 

 

 “Un hombre solo discubre sítios que la otra gente no discubre.”
DAMIÁN ALCÁZAR (Vinicio Cepeda)

Crónicas (filme de Sebastián Cordero, México/Equador, 2005)

 

 

ANIMAIS IRRACIONAIS COMPLEXOS – II PARTE

 

 

Um homem sente-se só porque deixa de saber conviver consigo mesmo, as entranhas vão-lhe ficando cada vez mais apertadas, e eis que um belo dia não consegue aguentar  os ruídos das suas vísceras convulsionadas e tem que partir em busca de alguém. Fá-lo, apenas por ele mesmo, e inventa motivos, dá-lhes nomes de honradez, e decide, como um predador, farejar vítimas, para fazer delas companheiras ou escravas, e assim obliterar o sentimento de desgosto de si, os rumores insuportáveis do seu mesquinho e insuportável arcaboiço: mesquinho e insuportável, principalmente perante o seu próprio reflexo, e com um ou dois sinais de simpatia para quem o conhece, num primeiro relance.

Esse homem só, que busca uma sombra com quem esbarre no dia-a-dia, para deixar de abalroar o seu repelente reflexo, faz o seu jogo sedutório, depois de eleita a consorte e propõe-lhe banalmente  casamento. Ignorante do que pode acoitar-se por detrás do rosto afável do solitário – eles são sempre afáveis à primeira vista, estes anacoretas em busca de paliativo, e por isso encerram um enorme perigo para os incautos! – ela aceita casar-se, mesmo não havendo amor nesse estranho contrato de vida.

Um dia, nasce um filho e o nosso ex-solitário – que continua murado em egocentrismo, apesar de tudo – teria nessa circunstância um motivo para se explanar num outro eu e fazer do egoísmo uma ocasião de crescimento. Mas não. Desavenças e fugas à autoridade – porque todo o solitário é um ditador (de tão habituado a si mesmo, nada mais entende que não seja a lei do seu próprio eu) – levam-no a libertar-se parcialmente (atentem neste advérbio!) do vínculo conjugal e paternal: e eis que ele entrega o filho à mãe e se sente infinitamente generoso, porque lhe deixa  também a casa e, ainda mais justificado se considera perante si próprio, pois não traz móveis nem pertences praticamente nenhuns e vai recolher-se na morada ancestral junto de uma mãe que detesta!  

A experiência corre mal. A mãe do ditador possui a mesma fibra – afinal deu-o à luz! – e talvez que o ódio assumido pelo ventre gerador se reflicta no ódio também engendrado pelo filho, simplesmente acontecido.

Ódio apegado a ódio provoca um terrível ambiente, em que cada um é espelho mortífero do outro e, por isso mesmo, o filho desnaturado (e também marido e pai, desnaturado de igual sorte, como acabámos de ver) parte para um tugúrio qualquer, cheio de ressentimento, mergulhado em abismos de ódio contra si, disfarçados de ódio contra todos, e aí cultiva o seu eu, cultiva-o anos e anos, enquanto a velhice lhe vai enchendo, cada vez com mais sulcos, o corpo, a mente e a alma.

Mais uma vez, a irracionalidade complexa é patente neste anti-herói, humano e contudo besta, dizendo amar isto e aquilo e mais aquilo e contudo amando-se apenas a si mesmo, numa apropriação mórbida de pseudo-valores que inventa para apaziguar a consciência de si, para si mesmo. Incapaz de sentir amor, este espécime terrível só sabe apropriar-se do terreno dos outros para nele estender a sua capa e ostentar o que cuida serem os seus dotes.

Ele julga saber tudo e saber fazer tudo (habituado a cuidar de si mesmo, desenvolve um potencial de habilidades que acredita único, pois não o partilha nem sobre ele pede conselhos a ninguém) e quando se põe a prestar serviços de mera carpintaria, ou seja lá do que for, remendando o que se rompeu, não pára de insultar aquele que executou, primeiro, o que mais tarde se estragou: acreditam, se vos confidenciar, que, para este auto-designado super-homem, todos são incompetentes, ninguém é capaz de fazer devidamente o seu trabalho e só ele, no mundo inteiro, tem poder para perceber o defeito dos que construíram, e remediá-lo depois? Eu não acreditava que fosse possível existir um ente assim tão pretensioso, mas agora sei que existe e que anda por aí feito sombra e predador!

Reparem: um homem destes não sabe (e nem pode) aquietar-se num local, tem que andar de um lado para o outro, não sei se para passar despercebido e entoar cantos de sereia fanada em regiões onde não seja conhecido o seu fácies hediondo ou se para continuar a fugir de si próprio, que detesta mais do que tudo no mundo, mas para quem entoa loas de um narcisismo abjecto e sem apelo!

Em cada parágrafo deste meu texto podemos detectar uma marca de demência, pelo menos.

O homem solitário deixa de querer estar só, não porque ame outro eu, gémeo do dele, mas porque não aguenta o seu próprio fantasma. 

Sem amor realiza um casamento e procria – duas temeridades! – e depois exige amor daquela a quem não o dá (sabe-se lá em que circunstâncias estaria no momento, a desgraçada!) e, perante a recusa mais do que lógica, quebra laços, ainda que os deixe pendurados (talvez para regressar um dia, arrependido, talvez para ter direito a uma pensão de sobrevivência ou sei lá o quê!).

Sozinho, e aparentemente justificado, pois deixou para trás os bens (e o filho!!!) vai dividir a vida com a progenitora que odeia, em primeiro lugar, porque o deu à luz e em segundo porque ela  (que o pariu) não soube ou não quis fazer da vida um sucesso ( à maneira do filho que, por isso mesmo, a despreza)!

A seguir, regozija-se em si mesmo, mas também essa auto-emulação lhe não chega e procura companheiras. Claro que, como é seu hábito, põe-lhes rédeas, indica-lhes a lista dos comportamentos a seguir, esconde o seu ego desmesurado numa simpatia que, de vez em quando, um esgar incontido dos lábios revela ao olhar arguto. Traz prendas, apenas as que a ele lhe agradam, foi assim que aprendeu (consigo mesmo) a presentear, nunca cuidando de saber se a escolhida gostará de rosas, de cravos ou crisântemos, se lhe agradarão os ramos imponentes ou se lhe bastará uma violeta brava. (Ele tinha a sua florista e ali encomendava os seus ramos, sempre iguais, fosse qual fosse a destinatária pois, pasmem muito, o que conta é quem oferece e a marca de quem oferece e não o prazer de se atingir, pela prenda, o gosto de quem assim se obsequia !)

 Os nomes, que julga serem ternos, e com que apoda a eleita do momento são exactamente os mesmos de sempre, quer ela goste ou não, para já não falar de tudo o resto que decerto adivinhareis!

É claro que a pobre coitada resiste durante um tempo. A princípio pensa que está perante um cavalheiro, um senhor atento e extremoso, um excêntrico, sem dúvida, mas com o charme próprio da excentricidade. Aos poucos, porém, percebe que nunca é ouvida, que não passa de mais uma (mas qual? A substituta da primeira ou da segunda que lhe ofereceu o modelo? A imagem renovada da consorte, deixada algures com um filho a criar? Difícil resolver este dilema, pois as últimas não conheceram as primeiras…) e ele será sempre o senhor todo-poderoso, de vontade férrea e caminho traçado que não mudará por causa de nada! Que há-de ela fazer senão deixá-lo, antes de se ver amarrada a não sei que estranho destino?

Acontece que (e nessa circunstância ele nem tão pouco pensa, porque nunca deixou de ser o solitário egoísta, mesmo no âmago de uma relação para a existência, com outro ser) quem assim se deixou envolver por uma certa aura falsa, talvez encenada ao espelho de narciso, mas patente no relance, sofre, sofre, sabiam? Ela decidiu acreditar no solitário empedernido, viu-lhe uma ou duas qualidades que, a florescerem, poderiam dar frutos um dia. Tentou (ah se tentou!) abrir a concha, fender a carapaça a ver se os tesouros adquiriam o seu fulgor e, acrescidos a outros tesouros, partilhados com novos mananciais, acederiam ao esplendor da fusão engendrando novos mundos…Mas nada se abriu do lado de lá, o solitário petrificado continuou petrificado, murado nos seus círculos já definidos há tempos e tornados fortaleza! E ela sofre porque percebe que nem tão pouco foi vista, quer pelos olhos físicos, cegos e obnubilados por outras visões, quer pelos olhos do íntimo,  absolutamente esmaecidos por milhares de cataratas espirituais e mentais!

Conto-vos isto, amigos, sabendo que não estou a dizer nada de novo: o logro, a auto-emulação disfarçada de simpatia, os narcisos fanados e murchos, mirando-se, apesar de tudo, em lagos cristalinos, e logo poluídos por tais olhares, andam por aí, talvez se acoitem um pouco em cada um de nós todos! Mas eu conto-o, porque é necessário difundir a verdade dos homens, esses irracionais complexos de que falava Pessoa, dotados de um cérebro compartimentado e fluido, capaz de grandiosidade e ao mesmo tempo das maiores vilezas e, pior ainda, capaz de deitar sobre si próprio uma capa de auto-complacência, enquanto destila o veneno antigo do seu desgosto umbilical ( não se esqueçam que o herói que tomei como exemplo odeia a mãe que o concebeu) sobre quem foi vítima da sua inqualificável prepotência.

A verdade existe, sabiam? Não acreditem nos falsos messias da falsa filosofia que, para se escudarem na mentira ou no ludíbrio ou no sofisma, declaram que a verdade não passa de opinião e que tanto pode ser isto como aquilo! A verdade não é um mito, embora os mitos também o sejam, a verdade é o que nos é dado saber e a que aderimos de uma vez por todas, ainda que possa surgir-nos, amiúde, fragmentada e dispersa, a necessitar ser equilibrada e revista. Mas está lá, sempre esteve, como linha directriz de um pensamento que sabe para onde vai, se deixar que o conduza o que de mais autêntico e nobre pulsa no âmago de cada um.

A verdade é o todo, proclamou Hegel, e o todo contém as partes, o bem e o mal e o seu contrário; o sofrimento advém da cisão individual, deste estar o ser partido em criaturas, criaturas voltadas de costas e desatentas, imersas numa vivência misantropa e estéril, pois, no mundo dos homens, é estéril e pernicioso tudo aquilo que visa apenas um, abolido o outro, recusado o universal.

 

 

 

 

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