As Bestas Céleres e os best-sellers

 
 
Hyeronimus Bosch
 
 
 
 
 
 
 
As Bestas Céleres e os best-sellers
 
 
 
 
Aconteceu assim:
Durante o mês de Agosto de 2007, quando apanhava sol numa praia do litoral alentejano e lia Irei Cuspir-vos nos Túmulos de Boris Vian,  acompanhada da minha filha adolescente que lia A Dança da Victória de António Skármeta ( ou vice-versa, quanto aos livros, pois trocámo-los no fim da leitura), entretivemo-nos, enquanto olhávamos as ondas, a conversar sobre escrever livros e, de repente, no contexto da troca de ideias, surgiu a seguinte frase: Besta Célere, um best-seller escrito por Regina Sardoeira nas férias trágicas de 2007. De imediato apontei a ideia num caderninho, pois pareceu-me sugestiva a associação, aparentemente ali inventada, entre best-seller e Besta Célere. O tempo passou, as férias também, mas o caderninho permaneceu, assim como a frase urdida sob o céu alentejano. E foi desta maneira que, uns três meses depois, dei comigo a abrir o caderninho a ler a frase e a começar de imediato a escrever, ali mesmo, no caderninho, uma ficção que intitulei, radiante, de O Besta Célere! A história evoluiu, ao mesmo tempo que a personagem ganhava corpo… O que eu não sabia ( até ontem!) é que, antes de mim, Alexandre O’Neill havia designado por Bestas Céleres os best-sellers e explicado as razões dessa associação de duas expressões que, não sendo sinónimas, obviamente, deram origem, pelo menos duas vezes a uma interessante especulação. Que eu saiba, Alexandre O’Neill nunca escreveu um romance chamado O Besta Célere, pelo que não correrei o risco de estar a plagiá-lo. E, embora a derivação das duas expressões tenha exactamente o mesmo sentido em Alexandre O’Neill e naquela conversa leve travada na  descontracção de um dia de praia, a verdade é que o meu herói, Besta Célere de seu nome próprio e apelido, não é um livro, desses que como diz O’Neill «chega de fora para dentro ou, até de fora para fora, visto que a sua penetração no leitor não é nenhuma, ao passo que a sua propagação é imensa», mas um homem, exactamente, um homem cujas peculiaridades e vicissitudes me dispus a narrar, a partir daquela frase interessante, nascida ao acaso e bem a propósito dos best- sellers que nenhuma de nós ( eu e a minha filha adolescente) estávamos a ler ( para isso basta consultar os títulos que já escrevi no início.).
Não fiquei aborrecida ou decepcionada por ter descoberto que, antes de mim, já era usada a expressão Besta Célere, nem senti necessidade de alterar o nome do meu herói por causa disso…afinal, o meu Besta Célere já vive há vários meses nas linhas de uma história a que vou dando corpo a cada dia que passa, e a designação adequa-se-lhe de tal modo que nunca poderia alterá-la sob pena de destruir, por inteiro, a ficção. Senti-me até um pouco eufórica, (por muito disparatado que um tal sentimento possa parecer, principalmente ao surgir quando se descobre que uma originalidade nossa , afinal, não é original) , pois gosto de Alexandre O’Neill, concordo com as suas reflexões sobre os best-sellers ou bestas céleres e esta relação estabelecida por ele, primeiro, e depois por mim, sem que nenhum de nós conhecesse o outro e soubesse, por isso, da respectiva reflexão, prova que existe no mundo muito mais sintonia do que poderia imaginar-se. 
 
 
 
 
Besta Célere

Há quem lhe chame, por brincadeira, besta célere para caracterizar a qualidade mediana (tomada por média) desse produto cultural (agora é tudo cultural!) e, ao mesmo tempo, a rapidez com que ele se esgota em sucessivas edições. O best-seller é um produto perfeita (ou eficazmente) projectado em termos de «marketing» editorial e livreiro. É para se vender – muito e depressa – que o best-seller é construído com os olhos postos num leitor-tipo que vai encontrar nele aquilo que exactamente esperava. Nem mais, nem menos. Os exemplos, abundantíssimos, nem vale a pena enumerá-los. Convém não confundir, pelo menos em todos os casos, best-seller com «topes» de venda. Embora seja cabeça de lista, o best-seller tem, em relação aos livros «normais», uma característica que logo o diferencia: foi feito propositadamente para ser um campeão de vendas. A sua razão de ser é essa e só essa. E aqui poderia dizer-se, recuperando o lugar-comum para um sentido sério, que «o resto é literatura».

Estou a pensar em bestas céleres como Love Story ou O Aeroporto. Não estou a pensar em «topes» de venda como O Nome da Rosa ou Memórias de Adriano. Estes últimos são boa, excelente literatura que, por razões pontuais e, muitas vezes extrínsecas à sua própria leitura, conheceram grandes êxitos de venda, o que é bastante diferente. Enquanto o best-seller é esquemático, quer dizer, não comporta mais do que o necessário, em termos de ingredientes, para comover (ou motivar, como é costume dizer-se) os simplórios, o livro «normal» nem pensa nisso. Nascido de uma necessidade interior, o livro «normal» chega ao leitor de dentro para fora. O best-seller é exactamente construído ao contrário: chega de fora para dentro ou, até de fora para fora, visto que a sua penetração no leitor não é nenhuma, ao passo que a sua propagação é imensa.

Habitualmente, o best-seller, ao fim de alguns anos, está esquecido ou, então, foi posto em cinema ou em TV e será, durante uns tempos, ainda lembrado, quase nunca em termos de literatura, que não é, mas apenas de história. O cinema ou a TV não podiam senão tornar ainda mais liso o que liso e correntio era.
Editores com o sentido da oportunidade aproveitam, então, para lançar ou desenterrar tiragens. que às vezes se vendem, outras não, mas sempre com a inevitável cinta: Um grande sucesso agora no cinema (ou na TV). Alimentam, deste modo, curiosidades menores do público: saber com antecipação o que vai acontecer (caso das séries televisivas, aliás «adiantadas» na Imprensa diária e semanal) ou ver até que ponto o cinema respeitou ou não respeitou a história original.

O best-seller é feito a pensar num leitor «espremido» por computador e serve a esse leitor tanto quanto lhe pode servir qualquer objecto de conforto. É um típico produto da chamada indústria cultural. Toma, exteriormente, a forma de livro para melhor se confundir com os verdadeiros livros. É uma espécie de ornamento (do espírito, da estante ou do caixote do lixo…) e cumpre, quase sempre, o seu papel, virada a última folha.
O best-seller pode ser preparado com muita habilidade e, para os desprevenidos, constituir, até, uma obra de qualidade. A propaganda fará o resto. Mas isso será só ilusão. O best-seller tem a qualidade apenas necessária para não comprometer a quantidade que alcançou ou deseja alcançar. Esse é o seu verdadeiro objectivo: quantidade e mais quantidade.
Hoje, que a literatura integra áreas cada vez mais vastas, uma há que não poderá integrar, a do best-seller, sob pena de se trasnformar no contrário de si mesma: o fabrico e o consumo de um produto que por acaso se chama livro.

Alexandre O’Neill, in "Uma Coisa em Forma de Assim"

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