Cartas da Cinderela

      
 
 
                                                                                                  René Magritte, Clarividência
 
            
 
 
 
 
  Cartas da Cinderela
 
              Meu amigo:
   
 
        Como podes sucumbir, desse modo, à angústia? Não conheces o futuro e assim devoras o tempo e consomes-te.
        Ontem, acabei de ler aquele gande livro, fabulosamente real, como todos os mitos, o «Cem Anos de Solidão» de García Marquez. Mais uma vez compreendi a inutilidade de toda a ânsia, de toda a pressa…o destino está gravado no sânscrito cifrado dos pergaminhos de Melquíades. Aprendemos a ler; mas quando decifrarmos a  primeira frase, quando a estrada, finalmente, se abrir perante nós, será tarde demais para iniciarmos o percurso e só nos restará aguardar, clarividentes, as trevas. Aquele que vê é também o último a ver e a primeira coisa que se lhe oferecerá à vista liberta dos cataratas da ilusão é a certeza da inutilidade absoluta de ter adquirido o dom de perceber.
       Ah, não tortures o pensamento, não te revolvas na ânsia amarga de não te possuires e sobretudo não devores o futuro, esse inomeável fantasma da nossa absurda consciência. Sobrevoa-te na atmosfera mítica do eterno presente, plana acima de ti mesmo, sê o Xamane redimido do teu corpo e deixa-te repousar. Sabe que só poderás realizar as dimensões finitas e óbvias do profano falaz; que o infinito se escoará por entre os dedos como a limalha doirada de um raio de sol. E então eleva-te, substância fluida ante os espaços submersos, e alcança o trono genésico onde a divindade grita o seu espasmo criador.
      Só a palavra poderá redimir as palavras escavando montanhas e fendendo nos seus ventres crateras fumegantes. Toda a criação é  estertor redimido e a serenidade beatífica de Deus, sublime ludíbrio. À superfície, nenhuma nuvem risca a abóbada azul; mas os raios já zigezagueiam por detrás da ilusão.
 
     Continuo, porém, a desejar ser a tua
 
     Cinderela
 
 
 
 
 
 
 

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