Cartas da Cinderela

 
 
 
 Magritte, Le double secret
              
 
 
 
Cartas da Cinderela
 
 
               
      «Meu amigo:
 
 
 
      …Bem, a vida não é mais do que um conto de fadas e todo o homem procura a Cinderela escondida…Há um relógio que bate pontualmente as badaladas da meia-noite e ninguém se exime à tortura de acordar do sonho com o pé descalço do cristal da ilusão. E o Príncipe, encantado ou não, continua a percorrer o seu reino com a esperança fútil de descobrir o pequeno artelho capaz de preencher o espaço exacto do vidro do seu desejo. Pelo caminho, falsas Cinderelas continuarão iludindo expectativas e os seus pés continuarão grandes demais para o sonho encantado…Assim, em desencontro, perpassa a existência de Cinderelas descalças à volta da fuligem, acordando na noite para os reinados inebriantes, onde Príncipes  saudosos chorarão o cristal sublime da memória. O que resta, o que não muda é o poder da ficção para suster a delícia  evanescente dos amplexos matinais. A senda que se adivinha não é para ser percorrida: urge que nos detenhamos nos interstícios da frigidez crepuscular, eternos limiares de noites não fruídas.
      Regressaste a mim vindo do fundo dos tempos. A tua voz soa como o bronze provecto das catedrais medievas e oiço-te os passos, derretidos nos ecos milenares das celebrações pagãs. Lembras-me o mítico Dorian Gray, a tua beleza é um pouco torcida, como a do retrato,e uma luxúria envolvente derrama-se do loiro estridente dos teus cabelos. Os teus olhos azul-violeta tecem um halo de sedução pleno de matizes: e todo o arco-íris neles se confunde. Veio, aninhado nas páginas, o perfume da tua pele: paradoxalmente não o aspirei pelas narinas, antes se infiltrou em mim pelos canais difusos da memória. Não julgues que te possuis: pedaços teus vogam, encantados,  num oceano alheio a todos os limites e nos meus sentidos permanece a forma exacta com que te fruí. Fruí-te, é verdade. Aspirei a doce fragrância do teu ignoto, mel e ambrósia com que me fiz divindade absoluta. Qual Dorian Gray, irás envelhecendo na paleta da minha emoção e só nas meias tintas da alvorada poderei ver-te, radiante e absoluto.
       A nossa ligação acabou transformada no puro universo da estética literária; vertemo-nos no mito adâmico e do barro fizemos vida com que aspergimos a terra, tornada fecunda até ao centro. É isso, esse tornarmo-nos capazes de sublimar a angústia que faz de alguns de nós a substância mítica com que escapamos ao peso ôntico da temporalidade. Eu sei que te iludes e vejo-te os ombros vergados pelo imenso abismo que te preenche as trilhas do profundo. Crês-te borboleta e é o espelho que te doira a pele e te faz graciosa figura, esbelto Apolo; fenece nessa delicadeza o imenso caudal da tua nascente. No entanto, o teu olhar envieza-se  e já te marcam a face as rugas impiedosas de Dorian Gray.
        Quando te penso, nunca te misturo aos acidentes humanos, jamais te sento numa cadeira ou te contemplo em pose arbitrária: é sempre vestido com uma túnica grega, de sandálias, na primavera mediterrânica de qualquer Atenas que o teu corpo esvoaça perante mim.
       Jamais serás real ou então faço-te sobre-real, invento-te num cenário  de atmosferas impregnadas de sagrado. E os braços por onde derretes o arcaboiço da tua alma em nenhum tempo lograrão conceptualizar o inominável.
       Resta uma distância, não o abismo. Poderemos percorrê-la, se quisermos. Há, no entanto,  necessidade absoluta de travar os passos, de descansar ainda um pouco, de suster o ímpeto para que o som arfante do nosso estertor se apazigue nas entranhas a que pertence. O que está escondido nem sempre é o mais belo de nós, razão por que se escondeu. A porta está ali, a chave repousa na fechadura; nós, porém não queremos abri-la, não porque tenhamos medo de sondar os espaços em oferenda, mas porque não temos pressa de diluir a ânsia.
      Hoje soam pancadas de chuva e eu lembro o pesadelo dos últimos dias que passámos na Estalagem da Barra; ainda oiço os teus passos insolentes nas tábuas calejadas…a névoa infiltrou-se no meu sonho pleno de luz. Desconheço-te.
 
     Continuo, porém, a desejar ser a tua
 
 
                       Cinderela»

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