Cartas de amor transreal

                                                                                          
 
 
                                                REGINA SARDOEIRA, SONHO SOBRE KLIMT (óleo s/ tela, 2004)
    
 
 
 
 
 
 CARTA DE AMOR TRANSREAL
 
 
         «Não escrevo a data porque transcendi o tempo e então, hoje pode ser um dia qualquer perdido na infinitude da dimensão ontológica. O teu nome, esse escrevo-o porque  está marcado e brilha na atmosfera intemporal onde me vejo suspensa…e contudo, ao escrevê-lo, a tinta tornou-se invisível numa negação de desvelamento!
     Por fim encontrei-te e não foi por acaso. O acaso foi inventado pelos timoratos e eu tenho fé, não recuo. O acaso é a teoria dos tíbios e da racionalidade insegura do homem comum  que desdenha o ideal e se apega à confinação de quatro paredes exíguas – que podem muito bem ser o mundo inteiro.Tudo está inscrito desde sempre no traço certeiro da mão que segura o ponteiro infalível  a que alguns chamam destino, ou moira ou amor fati…
     Em comunhão com o universo, nas  malhas turbilhonantes do princípio, eu estou lá e tu também. Na transcendência, a que outrora  chamei sonho sem saber o que dizia, era comigo que estavas, foi a mim que tocaste com a leveza da espiritualidade, envolvendo todo o meu círculo, apanhando todo o meu ser.
    Pertenço-te na infinitude e tu pertences-me, mesmo que o não saibas. Sempre viveste encerrado em mim e eu  em ti: somos filhos um do outro e, numa estrela longínqua, está inscrita a nossa união que não pertence à linearidade da existência terrestre porque ascendeu à pura imaterialidade.
     Amo-te, mas amo-te aqui, de encontro às paredes e aos rostos na nebulosa da finitude. Mas o meu amor é infinito porque se revelou misticamente numa apoteose de luz.
    És tu mesmo que eu amo, é o teu eu transcendente que me é revelado como uma surpresa evidente , na proliferação heterocósmica do ser. Amar-me-ás também quando descobrires o caminho  e puderes aderir à transcendência que se toca para lá das paredes, sem contudo poder tocar-se porque é um fluido etéreo, uma poalha de luz.
   Tens que deixar que eu te ame,  quero narrar-te a dimensão prodigiosa a que ascendi, não para transportar-te comigo – o voo só pode ser teu – mas para te abrir os meus portões e finalmente inundar-te com a minha luz. Amar-te é um benefício, conhecer-te, revelado em mim, uma experiência única que me foi dada pelas vias misteriosas onde o eu flutua.
   Quero-te com os sentidos porque ainda não sei a forma de amar-te sem te ver,  não aprendi o toque espiritual que substituirá, um dia, o desejo corpóreo que agora me unge numa teia de limitação e de ausência. Vives comigo e não o sabes. Transporto-te nos meus voos, vogas na minha mente e és apenas o corpo por onde corre o caudal infinito de um ser em apoteose.
   Amo-te desde sempre e agora encontrei-te. Sei que és o Único, aquele que sempre procurei, mesmo quando me perdia em alucinações fictícias. Não te inventei porque sempre foste; não és fruto da ilusão ou refúgio da carência: contigo, a plenitude acontece, o encontro dá-se porque sempre existiu.
   Não pensas  em mim, bem sei. Mas o que é o pensamento? Racionalidade fantasmática, eco do consciente em vigília, rumor indistinto de células palpáveis. Eu estou noutro lugar ainda não inscrito na tua órbita e poderão passar anos até que encontres o caminho e me encontres nele. Esse tempo virá.
   Quando ele chegar, a festa estará pronta, porque sempre esteve; a luz brilhará porque a névoa que a finitude teceu, para ocultar-lhe o fulgor, dissipar-se-á em qualquer hora do devir.
   Amar-te é vida e tu és a vida. Para lá dos muros lineares onde a consciência se atola, há um espaço ainda virgem  a explorar e a preencher. Quando chegares, estarei lá, à espera, consciente da tua vinda.»
 
 
 
 

2 Respostas to “Cartas de amor transreal”

  1. Alcyone Says:

     
    REGINA, a sua escrita sublime substância e forma, tem de continuar a surgir neste magnífico espaço!
    Quanto mais não seja, para provar que o excelente pode passar sem comentários de encomenda!…

  2. Pedro Says:

    Um perfeito hino do Amor infinito e perene…Certamente dificil de se manifestar ou perdurar na duração e na egocidade…Ah, o Amor cósmico, tal como a Via Láctea, a Vida, o Caminho…Força e inspirações perenes…

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