Discurso póstumo

 
 
 
 
«Só o depois de amanhã me pertence: há homens que nascem póstumos.» Friedrich Nietzsche
 
 
 
 
DISCURSO PÓSTUMO 
 
       
 
 
       Nascer póstumo é trazer consigo um desígnio para além da vida e assim permanecer vivo, mesmo quando as evidências anunciam a palpabilidade da morte. Vida e morte – aparente dicotomia, se por dicotomia entendermos contradição essencial; mas dicotomia real, se por dicotomia entendermos a ilusória divisão do todo. Tudo o que é possível conceptualizar sobre a morte equivale, como o reflexo plúmbeo da nuvem no lago cristalino, ao que da vida ousamos inferir, alvitrando noções, inventando pressupostos, aderindo a conclusões. Curiosamente, ainda ninguém conseguiu uma explicação cabal e definitiva acerca do que é a vida ou, reciprocamente,  acerca do que é a morte.
     Caminhemos até à origem dos seres, penetremos na esfera ôntica. A vida começa com o primeiro vagido angustiado, simultâneo à aspiração do sopro de ar com que qualquer humano saúda a entrada no mundo? Ou começa, apenas, um certo dia em que, já adulto, o bebé incipiente se descobre no mundo e descobre o mundo e descobre os outros eus? Ou emerge como um filme, em que o pretérito e o porvir se aglutinam, dando sentido à existência, nas horas finais e supremas da vida, tida como finita? Ou será que antes de ser embrião e feto e logo bios, a vida pulsava de um modo recôndito, anunciando o indivíduo na dispersão caótica de células dispersas em demanda da ordem, querendo ser organismo?
     E contudo, apegado a cada uma destas plausibilidades vitais ou biológicas mesmeriza-se, amalgama-se o polo dicotómico da morte, reflexo necessário e só aparentemente inerte – porque o lago agita-se – da evidência da morte.
    É então que assumir-se como póstumo, pertencendo, por isso, ao depois de amanhã do tempo, essa metáfora da eternidade, releva o auge da consciência, simultaneamente intuitiva e reflexiva: que as duas condições traduzem a simbiose inextrincável do ser humano íntegro e absoluto.
    "Viverei para lá da morte, afirma o póstumo, ecoarei e erguer-me-ei, uma e muitas vezes, sobre as vossas cabeças, morto e contudo vivo, fazendo troar o meu passo e rugir a minha voz, mesmo quando a suposição da minha morte vos fez acreditar que me tornei pasto de vermes, cinzas e pó! Estarei cá, muito mais vivo que hoje, depois de amanhã, esse tempo que trago dentro de mim, como se eu fosse um leão grávido, e que vos será devolvido como a cria das minhas entranhas, para que ruja perante vós o brado selvagem da solidão e da selva, essa, que na sua limpidez primordial permite libertar  todos os ecos e abalar todos os silêncios.
    Sou póstumo e reconcilio-me com isso, não porque desejasse a incomunicabilidade da hora presente, em que nenhuns ouvidos se abrem, nenhuma voz se enuncia como resposta à premência dos meus gritos; porém, cheguei cedo demais a um mundo demasiado velho, cujo alquebramento de fim de vida entorpeceu, aos poucos, a faculdade de escutar a melodia de novas sinfonias. E é por isso que devo viver no depois de amanhã que me pertence, o vosso depois de amanhã, entenda-se, quando ressurgirdes da treva e soltardes o vagido estridente da golfada do ar que vos trago.
    De facto, eu sou aquele que anuncia o futuro, aquele que, imbricado no vosso presente e couraçado no silêncio por causa da dureza dos vossos ouvidos,  grita esse silêncio, prenhe de melodias, à multidão voltada de costas, lançando Bravos! e Vivas! a espectáculos vexatórios – sua imagem, seu reflexo, em osmose vilipêndica.
   E digo-vos, neste meu silêncio atroador, e contudo estéril para vós, que o vosso mundo e o vosso espectáculo são um terrível amontoado de múmias enfaixadas em trapos bolorentos, de órbitas vazadas e boca amarrada. Digo-vos, neste meu silêncio, tornado hino depois de amanhã, que, enquanto múmias, sois mortos execráveis, sem respiração, sem fé, sem convicção, sem crença, digo-vos que apenas acreditais que sois vivos porque olhais à vossa volta (com as órbitas vazadas e contudo vendo) e vos enxergais, multiplicados e desdobrados, nos vultos inchados das múmias a que chamais o vosso próximo.
    Eu sou o vosso longínquo, não o vosso próximo, e é por isso que não conseguis ver-me, não tendes olhos capazes de altitude ou de mergulho, só a superfície vos convém e a praça pública e as moscas." 
 
 
 

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