O Pulo do Lobo – Confissões

 

 

 

 

 

 

 

                                            O PULO DO LOBO

                                                                                        CONFISSÕES

 

                                                

                                                           

 

 

 

 

Quer dizer-me o que foi fazer ao Pulo do Lobo?

Joana estava sentada ao fundo da cama onde Sérgio dormia e olhava-o intensamente. Vestia ainda a túnica azul e as calças brancas, cruzara as pernas longas e deixava ver os pés nus, fortes e bem delineados.

O que está a dizer? Qual é a sua ideia? Confuso e desalinhado, com a camisa meio saída do cinto lasso das calças de ganga, Sérgio ergueu uma cabeça revolta e apoiou-se nos cotovelos. Que foi fazer ao Pulo do Lobo? insistiu ela, com o mesmo acento, como se repetisse uma frase ensaiada.

Acho que fui acometido de nostalgia, ou saudade ou anoranza… escolha, ou então talvez eu lho diga noutras línguas… afinal a saudade não é um sentimento tipicamente português, não somos a raça da melancolia, os eternos sebastianistas… os outros também têm esse direito! E fez um gesto redondo, envolvendo o espaço. Ou talvez não tenham, como nós, um D. Sebastião… que é que acha?

E voltou a deixar-se cair sobre a cama.

Nostalgia? Dor do regresso? Afinal de onde vinha quando passou por mim na estrada e porque virou para o Pulo do Lobo?

Sérgio riu baixinho, Eu perguntei primeiro, lembra-se? Eu vi-a primeiro, das duas vezes, não foi?

Isso que importa? Não me dê mais evasivas, eu preciso de saber, principalmente agora que me falou de nostalgia… Não tem sono? Vejo que não chegou a deitar-se, enquanto eu… Sabe, quando se convida alguém para dormir no mesmo quarto, convém conhecer-lhe os hábitos, eu não consigo dormir cedo, a noite, para mim, mal começou… e já que tenho companhia decidi aproveitá-la…

Sérgio, enlanguescido, completamente relaxado e um pouco tonto, não sabia o que dizer. Desejava continuar a dormir, sentia, de repente, o absurdo da situação de ambos… porque não a deixara partir, depois do jantar, como ela havia proposto? Afinal, tratava-se, de facto, de uma desconhecida…

Contrafeito, ergueu-se e não resistiu à volúpia de um bocejo profundo…

Ah, boceja… estou a perceber: adivinho em si todas as marcas do arrependimento… mas – quer saber? – agora não me escapa! São duas horas da noite, trouxe-me até aqui, insistiu para que eu ficasse, deve sofrer as consequências…

Dois sentimentos opostos cruzaram o íntimo de Sérgio.

Eu bem sei que sou culpado… mas que quer? Sou atraído pelos abismos… Claro, claro, isso nem precisa de ser dito, afinal o Pulo do Lobo …

Deixe lá o Pulo do Lobo! Não é desse tipo de abismos que falo… Ah, então o abismo sou eu?

Sérgio baixou a cabeça, desalentado.

Olhe: eu passei por Mértola, é verdade, parei lá e almocei, mas, para adiarmos explicações sobre a minha ida ao Pulo do Lobo, o meu ponto de partida foi Sevilha… é de lá que venho!

Não diga! foi a vez de Joana, soltar uma exclamação de puro desconcerto. De Sevilha!… E calou-se, num ímpeto.

            Que foi? Afinal, estamos perto de Espanha, não acredita em mim?

            Claro, claro… acredito, bem sei que Sevilha fica ali, ao dobrar da esquina de Portugal… Mas – sabe? – eu também não ia para Mértola, embora fosse atravessá-la, talvez parar e dormir por lá… Então? Absolutamente desperto, Sérgio aguardava, em expectativa.

            Joana adiou a revelação, fixando Sérgio com uma certa ironia nos olhos fundos.

            Então? Para onde vai – ou ia – quando nos cruzámos na estrada de Mértola? insistiu Sérgio com uma espécie de obstinação.

            Porque não adivinha? Afinal não viu em mim uma série de sinais inequívocos de … como é que era? solidão, abandono… vá lá, bem vejo que é psicólogo!

            Psicólogo, adivinho… e que mais? Deixe-se de mistérios, diga lá para onde vai!

            Mas porquê? Porque hei-de revelar-lhe seja o que for a meu respeito? Sou um túmulo, não falarei nada! Então, não entendo por que razão me acordou e porque disse que decidiu aproveitar a minha companhia… Sua?! Claro, não está aqui mais ninguém e não creio que a Ti Palmira tenha interesse em conversar comigo…

            Sérgio suspirou.

            Ora bem: quer conversar, já entendi, mas, ao mesmo tempo, não deixa avançar nenhuma espécie de diálogo, não me responde a nenhuma pergunta, troça de mim constantemente… Calma, calma… conversar, dialogar… decerto usei as palavras de maneira indevida… procuremos outra… ah, já sei: vamos comunicar… que tal? Vivemos ou não em plena era das comunicações? Até me espanta não haver aqui uma televisão e fico aturdida porque ainda não ouvi tocar qualquer tipo de telefone…

            Ah, já percebi: uma televisão chegava-lhe, eu não passo de um substituto inferior…

            Inferior… ainda não sei. Mas, veja bem, a televisão tem sido, nestes últimos tempos uma companhia inestimável… talvez se aqui houvesse uma eu não chegasse a acordá-lo…

            Está a falar a sério? Joana acenou afirmativamente. E o que vê na televisão? Tudo! Até anúncios! Quando chega o fim do dia é naquelas perfídias, nos enredos das novelas e dos filmes que procuro a minha catarse… E consegue? Mediocremente, confesso, mas foi o meio que descobri para escapar à náusea de viver… náusea, no sentido sartriano, não sei se me entende…

            Deixe-me ver: é, então, uma foragida social, para si, o inferno são os outros… é isso a náusea sartriana… ou cometi um deslize?

            Pode dizer o que quiser, Sartre não está aqui para corrigir-nos… e, às vezes, quando da televisão jorram inépcias e não há nenhum oásis de contemplação, quando não tenho um livro para ler e a cabeça pesa como chumbo, ligo para o SOS Amizade…

            SOS Amizade! E o que acontece do outro lado do fio?

Uma pessoa, de voz suave, conversa comigo e, já que não nos vemos e eu nunca saberei quem ela é e ela nunca saberá quem eu sou, conto-lhe tudo e ela escuta! É de ser escutados que andamos todos ávidos, sabia?

            Mas, olhe, diga-me: esses diálogos com um desconhecido servem para alguma coisa?

            Joana levantou-se e aproximou-se da janela: uma claridade violeta anunciava a madrugada e, das constelações nocturnas só restava, no céu azul profundo, uma estrela brilhante. Voltou-se para Sérgio, ainda semi-deitado na cama amarfanhada.

            E se eu lhe disser que devo às tais conversas a decisão de partir em viagem? Que estou aqui, a caminho de um certo destino, porque nesses monólogos, pela noite dentro, percebi o sentido das minha necessidades? E mais: que o meu equilíbrio interior dependia do cortar das minhas amarras?

            Mas que tipo de amarras? quis saber o jovem agora  completamente desperto. Como pode, saindo de casa, quebrar amarras que, deixe-me dizer-lhe, são sempre íntimas? Eu não sei de onde vem, não sei para onde vai… Por instantes, interrompeu-o Joana, pensei que ia recitar o Cântico Negro de José Régio… conhece? Identifico-me com cada uma daquelas palavras….

            Sérgio suspirou: outra internacionalista? Também esta deambula sem rumo?

            Diga-me o Cântico Negro, por favor, pediu Joana, eu sei que conhece o poema e gosto do timbre da sua voz…

            Seja!

            Levantou-se, adoptou uma pose altiva no centro do quarto e começou a dizer o poema, sem hesitações, num tom seguro, simultaneamente trágico e irónico, às vezes sem emoção – Ide! Tendes estradas, tendes jardins, tendes canteiros… – outras, com a voz carregada de raiva contida – Todos tiveram pai, todos tiveram mãe, mas eu, que nunca principio nem acabo nasci do amor que há entre Deus e o Diabo… – e, por fim, aquele desabafo final, dito com todos os cambiantes do cansaço, com todas as notas de desprezo, como se já nada lhe importasse, de facto – Não sei por onde vou, não sei para onde vou: sei que não vou por aí!

            Arrasada, com a penugem do corpo toda eriçada, Joana não fez o menor esforço para conter as lágrimas, atirou-se, de bruços, sobre a cama e desatou a soluçar, num pranto inédito, como se fosse explodir e levar consigo a terra inteira.

            Silenciosamente, Sérgio aproximou-se dela: gostaria de poder abraçá-la, de lhe enxugar as lágrimas e embalá-la, como se faz às crianças, percebia, naquele choro excessivo, o rebentamento violento de um dique cerrado há tempo demais. Ao mesmo tempo, não ousava fazer qualquer gesto, pressentindo a rejeição, detestando invadir a onda de sofrimento ou de alívio, ali expostas de forma pungente.

            Em bicos de pés dirigiu-se à porta e abriu-a com todo o cuidado. Percorreu o corredor ainda sombrio, alcançou a sala, repleta de fragrâncias primaveris e saiu para a rua.

            A manhã anunciava-se, terna e azul, com laivos rosados na linha do nascente. As andorinhas esvoaçavam, numa inquietude vibrátil; um cão aproximou-se dele, abanando a cauda humildemente. Sérgio baixou-se, acariciou automaticamente a cabeça do animal e sentiu um enternecimento inaudito a nascer-lhe das entranhas… Que noite prodigiosa! Que avalanche de sentimentos contraditórios vividos em tão poucas horas! Como podia ele, agora, afastar-se daquela mulher extraordinária? Por outro lado, como fazer para a conservar junto de si?

            Eram seis horas, a manhã abria-se em pleno, e ele sabia que a Ti Palmira deveria estar acordada, talvez em frente aos santos nas suas devoções matinais.

            Conhecia aquela velha senhora há vários anos, quando a mãe ali vivera, escondendo um amor proibido. Sérgio visitava a mãe com frequência e fez-se amigo da Ti Palmira e do Lucas, o filho mais novo da casa, na ignorância, tão própria das pessoas sãs, do drama nascido e vivido no seio da casa acolhedora.

            A mãe era uma pessoa fascinante, viva e eufórica, capaz de encher todo o espaço com a vibração transcendente do seu corpo e dos seus gestos. Chamava-se Sara, e, sendo professora, arribara um dia ao Alentejo para dar aulas de Moral numa escola de Mértola.

             Sérgio ainda se lembrava do terror dos olhos da mãe quando viu, pela primeira vez, aquela vila tórrida e afogada, quando percorreram juntos as ruas e visitaram casas onde a população local oferecia aos professores cubículos abafados, pedindo, por esses antros, quantias exorbitantes. Jamais poderia esquecer a reacção da mãe quando visitou a última casa, dentro de Mértola. Animada com a expectativa de viver à sombra do Castelo e da Mesquita e de poder, abrindo a porta, desfrutar da paisagem grandiosa sobre o Rio Guadiana, Sara desejava ter chegado ao fim do seu périplo e não escondia o entusiasmo.

            A senhoria abriu a porta e foi mostrando: aqui é a sala – e lá estava, de facto uma mesa e quatro cadeiras – tem aqui a televisão – e levantava uma espécie de saiote onde se podia ver um modelo antiquado do objecto mencionado – ao cimo destas escadas fica a cozinha – e via-se um minúsculos lava-loiças, um fogão e alguns utensílios – tem aqui um banquinho para chegar às prateleiras mais altas! há dois quartos em cima – e lá estava um pequeno espaço com uma cama, isolado do resto da casa por um painel de esteira, e do outro lado, sem porta ou parede de separação (outro painel idêntico criava a divisória) mais uma cama estreita, resumia o designado quarto.

            Sérgio, estarrecido, não conseguia entender o silêncio da mãe, não percebia o que faziam ainda ali e como podia chamar-se àquilo de casa.

             Por fim, desceram até à sala de entrada, onde a senhoria indicou um tanque atrás da porta – a água deveria ser despejada directamente na rua e não havia máquina de lavar – e foi então que a mãe perguntou, E onde fica a casa de banho?

            Decidida, a senhoria dirigiu-se a um armário, bem no centro da sala, em frente à mesa e ao lado da televisão, um armário típico, pintado de azul forte, e abriu a porta, É aqui!

            Lá estavam, de facto, três peças sanitárias e um pequeno espelho, guardados dentro do armário azul, como se fossem objectos decorativos… Sérgio reprimiu a vontade de soltar uma gargalhada e, enquanto a mãe manifestava o seu descontentamento e se despedia da senhoria, que insistia em mostrar-lhe ainda o chuveiro atrás da porta de entrada, com uma mangueira para despejar na rua as águas do banho, ele divertia-se a imaginar cenas caricatas.

t             De facto, o tal armário situava-se exactamente em frente à mesa de jantar que, por sua vez ocultava um sofá, encostado à parede oposta. A mesa, alta, impediria sempre de ver a televisão, a quem quisesse fazê-lo instalado no sofá e, se acaso alguém necessitasse de utilizar as instalações sanitárias teria que manter a porta aberta (Sérgio não acreditava que se pudesse lá caber com a porta fechada). Por outro lado, quem viesse do banho, precisava de atravessar, nu ou pouco mais, a sala, assim como a cozinha, para chegar ao quarto… Sérgio nunca tinha visto nada semelhante e nem ouviu o diálogo em surdina que a mãe travara com a exuberante senhoria, ainda a tecer elogios à casa, ainda a narrar os benefícios que lhe havia feito, depois de o filho ter partido para Beja, deixando-a desocupada.

                  Soube depois, quando ficaram sós, que a mãe, no auge da indignação, avisara a proprietária de que estava sujeita a ter que responder em tribunal pois iria mandar ali uma inspecção sanitária e – não tinha dúvidas! – a casa seria interditada e ela iria presa!

                   Bem sei que exagerei, não vou fazer queixa nenhuma, mas ela merecia! E vendo Sérgio perdido de riso, soltou, também ela, uma estrepitosa gargalhada!

                   Mas, foi só um instante de alegria porque, de repente, Sara desatou a chorar… E agora, Sérgio, onde vou arranjar uma casa decente?

                    Tentando consolar a mãe, sugeriu que fossem ver sítios fora da vila: afinal ela tinha carro, podia ficar um pouco afastada do centro, mais à vontade… e, quem sabe? Talvez até pagasse menos…

                    Ao fim da tarde, exaustos e cheios de pó, chegaram a Corte da Velha, na base do Monte São Barão, e deu-se uma espécie de milagre. Não só a Ti Palmira precisava de alugar um quarto – era viúva recente, tinha um filho a estudar, os tempos estavam difíceis – como uma espécie de amizade instantânea nasceu ali, entre as duas. É certo que teria que andar alguns quilómetros para chegar à escola, mas, depois da experiência da casa do armário azul, tudo era preferível.

                     Estou a ver que é íntimo desse cão! Joana estava atrás dele e olhava-o, de novo segura, sem marcas da noite insone e da explosão de choro. É verdade, talvez porque este cão é meu, e, como deve saber, os cães nunca esquecem os donos… quando quero sentir o sopro da fidelidade venho até aqui ver o Che… Che? Chamou ao cão o nome do guerrilheiro argentino? E porque não?

                      Joana estava arranjada, com a mala na mão e o casaco vestido. Ouvi a Ti Palmira a sair do quarto e, como estava pronta e não me apetece voltar a encontrá-la, decidi ir embora: agradeça-lhe por mim a hospitalidade, invente qualquer coisa para me desculpar!

                      Sérgio tentou retê-la, mas desta vez não resultou. Olhe, eu vou embora mesmo; mas, se quiser encontrar-me, o meu destino continua a ser, para já, Mértola! Até à vista!

                      Entrou no carro e arrancou, levantando um rasto de poeira.»

 

 

 

                                                                                                                                         REGINA SARDOEIRA, O PULO DO LOBO, PÉ DE PÁGINA
I

 

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: