Abril, April, etc.

 

  ÁLVARO CUNHAL (Pintura)

 
 
 

 

 

 

 

 

  Bob Dylan (aguarelas)

 

 

 

ABRIL, APRIL, ETC.

 

 

 

Hoje 

todos gritam por Abril

mas não sabemos  qual

 ou de quem

 é esse Abril

por que todos gritam

 

 

Talvez nem todos gritem por Abril

talvez só a maioria 

 ou porque não apenas

 a minoria

 que de minorias é feito

 o nosso tempo

 este

que nos faz gritar por Abril

 (sem saber que espécie de Abril havemos de querer)

 

 

Talvez apenas um ou dois gritem por Abril

esse

que mesmo os que gritam

já não lembram

 ou porque os levou a vida

 ou porque arribaram à demência

ou porque da vida ainda

 não haviam visto a luz

 

 

Mas gritar

gritam!

 

 

O tempo  é de gritar

mesmo que a boca tapada

não revele a força de nenhum som

 

 

O tempo é de armas

deitados fora os cravos

que outrora nelas suspenderam

 

 

Armas

muitas armas

que o mal

foi serem vermelhos os cravos

e não haver jorrado

nenhuma gota do rubro

que os incendiava

 

 

Sangue

era preciso sangue

não decerto o verdadeiro

(para quê a morte)

mas sangue de vida

a jorrar quente nas veias

de quem abriu os pulmões

para louvar a liberdade

para cantar o fim da opressão

 

 

Sangue

daquele túrgido e pleno

capaz de nunca arrefecer

capaz de nunca consentir

que outros tiranos se fossem

insidiosamente misturando

com as pétalas

aos poucos fenecidas

dos cravos vibrantes

 

 

E cravos

quer dizer carne

e por isso fulgem

e por isso sangram

 

 

Hoje é Abril

e eis-nos aqui

enjaulados e opressos

comandados por hordas de fantasmas

hirtos e vazios

com o símbolo negro da compra e da venda

tatuado na testa

e nós atrás deles

como se não tivéssemos força

como se não houvesse em nós

pinta desse sangue

das corolas rubras

dos cravos

da nossa carne 

 

 

 

(Deixo-vos neste Abril com a figura já frágil do poeta da nossa revolução, erguido no palco,  numa agonia de fim de vida, à imagem do Portugal que cantou e que só soube retalhá-lo,  esse, que todos conhecem e querem reinvidicar como o seu trovador, mesmo não entendendo a cor do sangue, que o manteve sempre no lado certo da barricada. E fui buscar outro, trouxe-o da América e coloquei-o ao lado do nosso símbolo revolucionário, porque também ele cantou um certo Abril ou April, porque todos podem cantá-lo, e são irmãos, aqui ou para além do oceano, na nossa língua lusa ou na universalidade lisa do inglês de todos.)

 

 

 

 

 

 

 

Uma resposta to “Abril, April, etc.”

  1. Knulp Says:

    O importante não é  o carácter, mas a consciência.
    Penso que Abril foi fruto do acaso, como  a vida.
    E como todo o que é casual, não se sabe o que fazer com ela.
    Se acrescentarmos a isso a velocidade do esquecimento…
    k

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