A Arte e o Todo

                                                         

                                                       

 

                                                      Regina Sardoeira, A Criação do Mundo, (óleo s/ tela)

            

                                                                                                     

 

 

                                                                  A  ARTE E O TODO

 

 

 

             «Não é da vontade de Deus», diz Paracelso, «que o que ele cria para benefício do homem permaneça oculto…E mesmo se ele ocultou  certas coisas, não deixou, no entanto, coisa alguma sem sinais exteriores e visíveis, sem marcas especiais – tal como um homem que enterrou um tesouro assinala o sítio a fim de o poder reencontrar.» (Paracelso, Die 9 Bücher der Natura Rerum, in As Palavras e as Coisas de MicheL Foucault).

 

         Não é fácil, nem pode ser linear, falar de arte, principalmente quando o objectivo tende a ser o  trabalho hermenêutico ou de exegese ou semiológico ou sintáctico ou de similitudes que afinal releva do conjunto das disciplinas enunciadas e para elas ou nelas converge.

         A similitude tem muitas formas e traduz-se na convenientia, a saber o que faz confluir e confinar as coisas tornando-as de um certo modo afins, na medida em que  se vão conjugando e  ajustando, na aemulatio, em que a convenientia se liberta da lei do lugar para  aceder à imitação pela qual as coisas se fazem espelho umas das outras, na analogia, no contexto da qual se sobrepõem a  convenientia e a aemulatio e por fim na simpatia, em que nada está previsto, a que nenhuma lei pode indicar caminho, pois funciona de acordo com as leis da atracção. A  simpatia faria tender à homogeneização, não fosse a antipatia, sua forma gémea, que permite manter as coisas no seu isolamento e preservar o peculiar. «É um facto assaz conhecido que as plantas sentem ódio umas pelas outras…diz-se que a oliveira e a vinha odeiam a couve; o pepino foge da oliveira…Uma vez que as árvores crescem com o  calor do sol e com o humor da terra, forçosamente uma árvore opaca  e espessa tal como a que tem várias raízes, será perniciosa às outras.» (G. Porta, Magia Natural, in As Palavras e as  Coisas de Michel Foucault).

         Eis aqui uma digressão pelas categorias convergentes e divergentes, e contudo assimiladas enquanto expressões do uno, colhida em Michel Foucault que, apesar da erudição atestada em dezenas de referências bibliográficas, não contradiz a experiência do artista capaz de, por si só,  além ou aquém da exegese, hermenêutica, semiologia ou sintaxe permitir-se conceptualizar a força que, inscrita no seu ser mais íntimo, se expande em formas artísticas, as mais díspares. E assim o poeta é prosador, o ensaísta é romancista, o escritor é músico, o guitarrista toca piano e canta e ainda, munido de paleta e pincéis, dá vida à arte vertida em imagens.

         A arte é o todo e o artista  a sua expressão, porque a verdade está no todo, e apenas ele, o artista, tem acesso pleno à verdade do ser.

         Já era assim na antiguidade quando os gregos do apogeu – leia-se: antes do século V a. C. – se expandiram nas mais diversas manifestações do espírito, criando a filosofia, essa síntese de tudo o que de humano pode transitar do pensamento para o ser, do ser para o mundo e do mundo para o homem. Foi assim na Idade Média apesar da aparência tenebrosa recheada de rituais inquisitórios; (re)despertou na Renascença e criou o Homo Universalis, apenas possível, no seu esplendor grandiloquente, porque a nobreza baça e mercantil queria o benefício da História e da perenidade e descobriu o génio para, através dele, se perpetuar; mais para além, só pôde engendrar uma espécie de ser utópico, emaranhado em tarefas de cariz sobrevivencial e contudo desentranhando de si, em golfadas portentosas, a força universal do génio, capaz de cultivar todas as artes e delas dar um testemunho grandioso. Não de uma ou duas, mas de todas, porque o artista é-o sempre, pouco importa que instrumento toque ou que expressão assuma na ingente tarefa de criar.

         De modo nenhum é extravagante ou excepcional ou excêntrico este poder, antes é natural, porque impresso no mais fundo do ser humano, esse que saído do magma primordial reabilitou a unidade em fragmentos difusos para logo ascender à harmonia, sem a qual estiola e se perverte miseravelmente cindido.

         É então que o artista é chamado a regenerar o Uno Primordial e fá-lo de cada vez que cria, em cada obra, seja ela estátua ou sinfonia, poema ou aguarela e sempre que o vigor da criação se agita e colhe a atenção desses predestinados a harmonia restabelece-se e o mundo encontra o seu desígnio.

 

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: