Os Vampiros/ A Hard Rain’s a-Gonna Fall

          

     

                                 Regina Sardoeira, O Sagrado e o Profano, Acrílico s/ Tela

                                                                                                                                              

 

 

 

                                                                OS VAMPIROS / A HARD RAIN’S a-GONNA FALL

 

 

 

                                                             

 

 

 

 

«Os Vampiros» de José Afonso é um dos muitos símbolos da resistência anti-fascista e não será preciso traduzi-la para inglês… todos podem perceber, nas linhas do poema, a expressão de um grito, português, sem dúvida, mas lançado à escala mundial e, vejam só! ao mesmo tempo, nos EUA um jovem de 20 anos chamado Bob Dylan dizia aproximadamente o mesmo ( leiam nas entrelinhas)!…                   

      A diferença é que Bob Dylan podia escrevê-lo, dizê-lo e cantá-lo e José Afonso não! Mas a voz que entoa Os Vampiros ainda ecoa, passados mais de 40 anos, e continua a ser o grito mudo do Portugal de hoje – os Vampiros estão aí, estiveram sempre, ouvem o grito e não se deixam impressionar (os Vampiros são mortos-vivos, não esqueçam, precisam de sangue fresco e quente: mas a sua condição de mortos logo faz com que o alimento dos vivos arrefeça), Eles estão aí, mais ávidos do que nunca e muito mais perigosos, pois em 1963 José Afonso (e outros como ele) achava que era possível espetar-lhes a estaca no coração e para isso lutou; hoje, tudo se confunde, e até parece que não temos estacas ou força ou sagacidade capazes de operar o tão necessário extermínio !

      A Hard Rain’s a-Gonna Fall significa, diz Bob Dylan, que alguma coisa muito má está para acontecer… Hard Rain, Chuva Forte, Chuva Pesada e porque não Chuva Ácida, Chuva Contaminada? Porque uma chuva forte pode ser regeneradora, uma chuva forte pode lavar a imundície, uma chuva forte pode pôr a nu as chagas e permitir a cura…mas esta chuva forte não é nada disso, e basta ler os versos e ouvir a voz para perceber que, da suposta imaturidade dos seus 20 anos, Bob Dylan viu no seu tempo o que apenas logrou patentear-se ao fim de 40 anos, à escala global, pois o que era uma chuva forte tornou-se um dilúvio catastrófico, uma corrente de lama abjecta. E a criança de olhos azuis, o seu filho de olhos azuis que outro poderia ser senão o próprio poeta, filho de si mesmo, atirado para o futuro? Os génios são assim, visionários, clarividentes, projectados num amanhã perene, queiram ou não os que preferem, acima de tudo, as elegias ensimesmadas do narcisismo hipocondríaco e ignóbil de uma certa onda pseudo-poética tão inútil quanto efémera.

 

 

 

 

 

OS VAMPIROS 

 

 

No céu cinzento/ Sob o astro mudo
 Batendo as asas/ Pela noite calada
Vêm em bandos /Com pés de veludo
Chupar o sangue/ Fresco da manada
Se alguém se engana/ Com seu ar sisudo
E lhes franqueia /As portas à chegada
 

Eles comem tudo /Eles comem tudo

 Eles comem tudo/ E não deixam nada [Bis]

A toda a parte/ Chegam os vampiros
Poisam nos prédios /Poisam nas calçadas
Trazem no ventre/ Despojos antigos
Mas nada os prende/ Às vidas acabadas

São os mordomos/ Do universo todo
Senhores à força/ Mandadores sem lei
Enchem as tulhas/ Bebem vinho novo
Dançam a ronda/ No pinhal do rei

Eles comem tudo /Eles comem tudo
Eles comem tudo/ E não deixam nada

No chão do medo /Tombam os vencidos
Ouvem-se os gritos/ Na noite abafada
Jazem nos fossos/ Vítimas dum credo
E não se esgota /O sangue da manada

Se alguém se engana /Com seu ar sisudo
E lhe franqueia/ As portas à chegada
Eles comem tudo /Eles comem tudo
Eles comem tudo /E não deixam nada

Eles comem tudo /Eles comem tudo
Eles comem tudo/ E não deixam nada

 

José Afonso, 1963

 

 

 

 

 

A Hard Rain’s a-Gonna Fall

                                                     

 

 

 

Oh, where have you been, my blue-eyed son?/ Oh por onde andaste, meu filho de olhos azuis?
Oh, where have you been, my darling young one?/Oh por onde andaste, meu pequeno querido?
I’ve stumbled on the side of twelve misty mountains,/ Tropecei nas faldas de doze  montanhas enevoadas,
I’ve walked and I’ve crawled on six crooked highways,/
Caminhei e rastejei em em seis estradas serpenteantes,
I’ve stepped in the middle of seven sad forests,/ Fui dar ao meio de sete tristes florestas,
I’ve been out in front of a dozen dead oceans,/ Estive frente a doze

 

oceanos mortos,
I’ve been ten thousand miles in the mouth of a graveyard,/ Andei dez mil milhas até à entrada de um cemitério,
And it’s a hard, and it’s a hard, it’s a hard, and it’s a hard,/ E é uma chuva terrível aquela que vai cair.
And it’s a hard rain’s a-gonna fall.

Oh, what did you see, my blue-eyed son?/ Oh, que viste tu, meu filho de olhos azuis?
Oh, what did you see, my darling young one?/ Oh, que viste tu, meu pequeno querido?
I saw a newborn baby with wild wolves all around it,/ Vi um recém-nascido cercado de lobos selvagens,
I saw a highway of diamonds with nobody on it,/ Vi uma estrada de diamantes completamente deserta,
I saw a black branch with blood that kept drippin’,/ Vi um ramo negro com sangue que não estancava,
I saw a room full of men with their hammers a-bleedin’,/
Vi uma sala cheia de homens com martelos sangrentos,
I saw a white ladder all covered with water,/
Vi uma escada branca coberta de água,
I saw ten thousand talkers whose tongues were all broken,/ Vi dez mil oradores com as línguas cortadas,
I saw guns and sharp swords in the hands of young children,/
Vi armas e espadas afiadas nas mãos de crianças,
And it’s a hard, and it’s a hard, it’s a hard, it’s a hard, /
E é uma chuva terrível, aquela que vai cair.
And it’s a hard rain’s a-gonna fall.

And what did you hear, my blue-eyed son?/ E que ouviste tu, meu filho de olhos azuis?
And what did you hear, my darling young one?/ 
E que ouviste tu, meu pequeno querido?
I heard the sound of a thunder, it roared out a warnin’,/
Ouvi o som do trovão que rugia um aviso,
Heard the roar of a wave that could drown the whole world,/ Ouvi o rugir  de uma onda que podia engolir o mundo inteiro,
Heard one hundred drummers whose hands were a-blazin’,/ Ouvi cem tamborileiros com as mãos ardentes,
Heard ten thousand whisperin’ and nobody listenin’,/ Ouvi dez mil murmurando sem que ninguém ouvisse,
Heard one person starve, I heard many people laughin’, / Ouvi um morrendo de fome e muitos a rir,
Heard the song of a poet who died in the gutter, /
Ouvi a canção de um poeta que morreu na sarjeta,
Heard the sound of a clown who cried in the alley,/ Ouvi o som de um palhaço chorando no beco,
And it’s a hard, and it’s a hard, it’s a hard, it’s a hard,/
E é uma chuva terrível, aquela que vai cair.
And it’s a hard rain’s a-gonna fall.

Oh, who did you meet, my blue-eyed son?/ Oh, quem encontraste, meu filho de olhos azuis?
Who did you meet, my darling young one?/ Oh, quem encontraste, meu pequeno querido?
I met a young child beside a dead pony, /
Encontrei uma criança ao lado de um pónei morto,
I met a white man who walked a black dog, /Encontrei um homem branco, passeando um cão negro,
I met a young woman whose body was burning,/ Encontrei uma jovem mulher com o corpo ardendo,
I met a young girl, she gave me a rainbow,/ Encontrei uma rapariguinha que me deu um arco-íris,
I met one man who was wounded in love, / Encontrei um homem ferido de amor,
I met another man who was wounded with hatred,/ Encontrei um homem ferido de ódio,
And it’s a hard, it’s a hard, it’s a hard, it’s a hard,/
E é uma chuva terrível, aquela que vai cair.
It’s a hard rain’s a-gonna fall.

Oh, what’ll you do now, my blue-eyed son?/ Oh, o que farás agora, meu filho de olhos azuis?
Oh, what’ll you do now, my darling young one?/ Oh que farás agora, meu

Heard one hundred drummers whose hands were a-blazin’,/ Ouvi cem tamborileiros com as mãos ardentes,
Heard ten thousand whisperin’ and nobody listenin’,/ Ouvi dez mil murmurando sem que ninguém ouvisse,
Heard one person starve, I heard many people laughin’, / Ouvi um morrendo de fome e muitos a rir,
Heard the song of a poet who died in the gutter, /
Ouvi a canção de um poeta que morreu na sarjeta,
Heard the sound of a clown who cried in the alley,/ Ouvi o som de um palhaço chorando no beco,
And it’s a hard, and it’s a hard, it’s a hard, it’s a hard,/
E é uma chuva terrível, aquela que vai cair.
And it’s a hard rain’s a-gonna fall.

Oh, who did you meet, my blue-eyed son?/ Oh, quem encontraste, meu filho de olhos azuis?
Who did you meet, my darling young one?/ Oh, quem encontraste, meu pequeno querido?
I met a young child beside a dead pony, /
Encontrei uma criança ao lado de um pónei morto,
I met a white man who walked a black dog, /Encontrei um homem branco, passeando um cão negro,
I met a young woman whose body was burning,/ Encontrei uma jovem mulher com o corpo ardendo,
I met a young girl, she gave me a rainbow,/ Encontrei uma rapariguinha que me deu um arco-íris,
I met one man who was wounded in love, / Encontrei um homem ferido de amor,
I met another man who was wounded with hatred,/ Encontrei um homem ferido de ódio,
And it’s a hard, it’s a hard, it’s a hard, it’s a hard,/
E é uma chuva terrível, aquela que vai cair.
It’s a hard rain’s a-gonna fall.

Oh, what’ll you do now, my blue-eyed son?/ Oh, o que farás agora, meu filho de olhos azuis?
Oh, what’ll you do now, my darling young one?/ Oh que farás agora, meu pequeno querido?
I’m a-goin’ back out ‘fore the rain starts a-fallin’,/
Vou-me embora lá para fora antes que a chuva comece a cair,
I’ll walk to the depths of the deepest black forest,/ Caminharei para as profundezas da mais profunda e negra floresta,
Where the people are many and their hands are all empty,/ Onde são muitas as gentes e as suas mãos estão vazias,
Where the pellets of poison are flooding their waters,/
Onde as balas do veneno estão a inundar as suas águas,
Where the home in the valley meets the damp dirty prison,/ Onde o lar do vale encontra a suja e húmida prisão,
Where the executioner’s face is always well hidden,/
Onde a cara do executor está sempre bem tapada,
Where hunger is ugly, where souls are forgotten,/
Onde o esfomeado é feio, onde as almas são esquecidas,
Where black is the color, where none is the number,/ Onde o negro é a cor, o nada é o número,
And I’ll tell it and think it and speak it and breathe it,/ E di-lo-ei e pensá-lo-ei e fá-lo-ei e respirá-lo-ei,
And reflect it from the mountain so all souls can see it,/ E reflecti-lo-ei do topo das montanhas para que todos o vejam,
Then I’ll stand on the ocean until I start sinkin’,/ Depois caminharei sobre as águas até me afundar,
But I’ll know my song well before I start singin’,/ Mas saberei a minha canção bem antes de começar a cantar,
And it’s a hard, it’s a hard, it’s a hard, it’s a hard,
E é uma chuva terrível, aquela que vai cair.
It’s a hard rain’s a-gonna fall.

 

Bob Dylan, 1963

Uma resposta to “Os Vampiros/ A Hard Rain’s a-Gonna Fall”

  1. Alcyone Says:

     
    BRAVO!…

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